Aquilo que – “Nietzscheanamente” – Somos

A história e a filosofia, em termos pessoais, constituem dois polos: os dois professores que mais me marcaram afectivamente. Frequentava o último ano do liceu Sá de Miranda. Em Braga. Constituiam dois exemplos daquilo que, actualmente, se tenta evitar a todo o custo: personalidades vincadas. E, também, exigência e autonomia em termos de abordagem relacional com os alunos. Havia, claro, um programa ditado pelo estado, pela escola, pelos livros recomendados. Contudo: sentíamos que era com pessoas que estávamos. Era com pessoas que queríamos estar. Não com “marionetas” controladas, administradas e exageradamente supervisionadas por um qualquer governo. Nenhum de nós pensava em ser “poupado”. Ou ter qualquer tipo de barreira tecnológica entre nós. Como um I- Pad ou ecrã de computador. Ninguém queria, adicionalmente, que os avaliássemos: tansformando-nos em pequenos ditadores. Um professor era, ainda, uma desejada figura tutelar.

Os dois tinham algumas discussões acesas fora da sala de aula. Ele, professor de história, era profundamente católico. Ela, de filosofia, era marcadamente ateia. E simbolizaram, para mim e a partir daí, essa dúvida que nos corroi desde tempos imemoriais. Por mais livros que tenhamos lido fica a pergunta de sempre: existe ou não vida depois da morte? Nada o pode negar ou confirmar. Na altura acreditava em qualquer coisa de indefinido. Sem saber exactamente o quê. Dizia-me “espiritual” e afirmava, às vezes, ser “cristão”. Sem perceber, contudo, absolutamente nada do assunto. Como, de resto, a maior parte das pessoas. Duvido, aliás, que alguém o seja efectivamente ou, pelo menos, completamente: alguém perdoa, por exemplo, “70 x 7 vezes”? Devem existir tantos “cristianismos” como “cristãos”. Cada um escolhe a “virtude” ou o “pecado” que melhor lhe serve: para realçar uma característica que eventualmente já possua. Para recalcar o inconfessável. Qualquer cristão que diga que é “mais cristão” não passa, no fundo, de um prepotente. Para além do mais: a quantidade de elaborações e reformulações feitas por parte da igreja foi tal, ao longo dos séculos, que a verdade e a realidade há muito se perderam. Por mais “exegese” ou interpretação que se faça. As versões do cristianismo são tão diversas como as do ateísmo – e, para isto, conferir a obra “A História do Ateísmo” de George Minois.

“Deus é bom para quem acredita”: afirmava o meu professor enquanto metia a mão no peito, dentro da camisa, e olhava para a janela aberta da saula de aula. Rematava: “e, se não existir nada, fui melhor pessoa”. Devo dizer que lhe invejava, um pouco, esta atitude. Reparava na energia que lhe dava em todas as tarefas do dia a dia. Não creio que quando afirmava que, daquela forma, “era melhor pessoa” estivesse a dizer que era superior. Afirmava, apenas, que era melhor do que ele próprio se não tivesse a ajuda de uma crença que lhe garantisse sobrevivência eterna ou um desígnio para a vida terrena: “trabalhar é rezar duas vezes”. De facto: quase que não fazia outra coisa. As perguntas não me saíam da cabeça: “Deus é bom para quem acredita? Mas como se escolhe acreditar em algo ou não?”. Parecia-me injusto o “facto” de Deus não me ter dado capacidade para acreditar Nele. A minha professora de filosofia, por outro lado, deu a “machadada” final: um dia, quando discutíamos religião, um aluno, que me lembro ser dono de uma livraria, interrompeu e disse qualquer coisa como: “mas quem somos nós para duvidar?”. Diga-se de passagem que me lembro de ter ouvido isto e não ter percebido nele um pingo de humildade. A resposta do outro lado não se fez esperar. Com estrondo: “Alto ! Se eu tenho cabeça é para pensar !”. Continuou: “Digo mais: cada vez acredito menos. É religião que pode fazer mal. Conheço pessoas que só se libertaram do jugo da culpabilidade tardiamente”. Concluiu: “Estou aqui para vos perturbar enquanto são novos !”. Lembro-me de ter saído da sala depressivo. Conseguiu.

A minha professora tinha, de qualquer forma, uma espécie de herói: o filólogo e filósofo, de origem alemã, Friedrich Nietzsche. A primeira obra do autor, “A Origem da Tragédia”, não me pareceu, na altura, especialmente interessante. Por imaturidade e ignorância minha relativamente ao universo e à simbologia grega. Mas despertou-me algum interesse. O exemplar que comprei, alguns anos mais tarde, incluía, nas últimas páginas, um pequeno ensaio intitulado “Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extra- Moral”. O que me introduziu, pela primeira vez, no imaginário filosófico e poético do autor. Que me fez querer ler tudo o que pudesse  encontrar, a partir desse momento, em livrarias, bibliotecas, jornais ou revistas. Tratava, num tom mais ou menos crespuscular, sobre perspectiva. Sobre as diferentes “grelhas de interpretação” de cada um. Sobre os múltiplos mundos individuais. Que nos fazem, em última análise, não nos entendermos completamente uns aos outros.

Há quem afirme, quanto a mim levianamente ser “nietzscheano”. Devo confessar: “nunca percebi”, muito bem, o que isto quer dizer. Porque, na minha perspectiva, sê-lo significa, exactamente, não o ser. Não implica deixar de o ler. Mas ignorar as receitas que, ele próprio, tentou administrar. É isto que quer dizer, quanto a mim, a expressão “torna-te naquilo que és”. Como “primeiro analista bio- energético” que foi:  expressão utilizada por um amigo meu -: tentou ver o que se escondia por trás de todas as tentativas de uniformização moral, histórica, religiosa, civilizacional e social. E, isso, só nos pode levar a uma posição: a pessoal. A uma definição. Quem se diz “nietzscheano”, por isso e a meu ver, não o entendeu. Mas acima de tudo: não SE compreendeu

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