“Fight Club”: O Mundo Como “Representação” (Em Direcção à Máquina)

Passeava em Ponte de Lima, numa noite, com um amigo aspirante a filósofo. Tinha lido “cerca de quatro mil livros”. “Incluindo Patinhas”. Não pude deixar de reparar no ar que tentava transmitir. De passo vagaroso e mãos atrás das costas: dizia, a olhar para o chão, que “hoje em dia há falta de porte”. Referia-se, penso, a tipos de personalidade que para ele seriam “distintos”. Lembro-me, na altura, de me ter perguntado que figura – que personagem histórica – estaria ele a tentar representar.

Uma das maiores referências do filósofo alemão Friedrich Nietzsche – que mais tarde resolveu contrariar em quase toda a obra que desenvolveu – foi Arthur Shopenhauer. Que editou, em 1819, “O mundo como vontade e representação”. Contudo: o primeiro, apesar de combater o pessimismo do segundo, não fez, no fundo, outra coisa do que diagnosticar mais ou menos o mesmo aspecto relativamente ao ser humano. A filosofia indiana, com visão e terminologia própria, já o tinha intuído. Através do conceito de “Véu de Maia”. Que significa, no fundo, “Véu da Ilusão”. A psicanálise e a análise bio- energética, no século XX e até hoje, “não fizeram mais” do que o aprofundar e sistematizar. Identificando, na cultura e na civilização, uma rede complexa de inúmeras e mutáveis “representações” e projecções individuais. “Nada está”, afinal, lá. Constituem ilusões para que possamos continuar. Considero que a nossa era, em termos interpretativos, representa uma espécie de passo atrás: as directrizes sócio- económicas não cessam de nos “orientar” – sem consciência – em direcção ao avatar: à “(ir)realidade virtual” ou “aumentada” – “prevista” e desejada, aliás e em força, para o ano de 2014 -. E em termos explicativos: o “monopólio” comunicacional da neurologia, da indústria farmacêutica e de muitas práticas terapêuticas actuais não deixam de nos “reduzir”. O mercado, sabemos, “funciona”. E simplifica. Ficamos, apesar do “progresso” e de todos os meios de comunicação actualmente disponíveis, a saber menos acerca de nós próprios. Sempre a correr e a “produzir”: não temos tempo. Nem disponibilidade para mais.

“Ninguém foi mais longe” ou conseguiu transmitir uma ideia mais ou menos aproximada “tão bem” como Woody Allen. Aquele que é talvez um dos filmes menos conseguidos do realizador de origem norte- americana, Zelig – do ano de 1983 -, apresenta-nos, de qualquer forma, um personagem memorável. Que, na ânsia de ser admirado, “converte-se” naqueles que o rodeiam e nas pessoas que mais respeita e admira. Emulando-os. Deixa de saber, por isso, quem é.

A sociedade do espectáculo, que teve início no século XX, é, a meu ver, “Zelig” por definição. E “culmina”, agora e no fundo, com uma espécie de “impossibilidade”. Contaminados” pela cultura rock, pela indústria cinematográfica, jornalistica ou literária – como anteriormente as conhecemos – : muitos de nós, na vida e agora através de redes sociais, “não fazemos mais” do que operar uma tentativa de reconstrução. Daquilo que gostariamos de ser. Os sinais estão por todo o lado. Apesar de, em termos civilizacionais, as lutas pessoais se direccionarem para novos sentidos – o desejo, por exemplo, de se ingressar no “panteão” onde figuram Julian Assange, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg através do desenvolvimento de software ou aplicações informáticas -: a pressa na auto- publicação não deixa de nos sinalizar um “desespero”. As redes sociais apontam-nos infindáveis exemplos. Por exemplo: através da escrita em inglês. Não me parece que a globalização económica, como se encontra, seja a única força a pedir a utilização desta espécie de “neo- esperanto”: é, também, o desejo íntimo de nos romantizarmos. De nos representarmos como as figuras cinematográficas e musicais que nunca fomos e que pensamos que “nunca” chegaremos a ser. Por constituirem um imaginário, também bastante televisivo, do passado. A época da estrela, como foi idealizada, tem um fim. Devido à “democratização” que trouxe o digital. À inveja natural do ser humano que, para não sofrer com a sombra do outro, tudo tenta nivelar. Contudo: a velocidade actual em termos de inovação – bastante “artificial” em termos de adaptação – faz com que muitos de nós ainda não se tenham habituado totalmente. Vivemos, assim, uma espécie de “estertor”. Como o deve experienciar, afinal, o “cristão” que deixou de acreditar em Deus. Tem as raízes culturais e a culpabilidade: mas não a “salvação”. Não deixa de nos vir, com isto, à memória o filme Fight Club, de 1999, do realizador David Fincher. A personagem que desempenha Edward Norton, “contaminado” pelo desejo de ser quem não é, admira e venera Tyler Durden que é representando por Brad Pitt. Porque deseja “foder como ele”, actuar como ele, vestir-se como ele. No fim: descobre que, afinal, um e outro são a mesma pessoa. Imaginação e espécie de alter- ego que construiu. Para não se ver. Não se sentir a si próprio: menos “cinematográfico” e ilusório. Mas infinitamente mais humano e sensível. No fim, depois de se livrar da representação com que inconscientemente se anulou, fica com a rapariga. “Como nos filmes”: ao som dos Pixies. Enquanto explodem prédios que simbolizam empresas de crédito: “Where is my mind?”. Édipo passa por aqui.

Nada disto, é evidente, implica que consigamos ou devamos “desistir”. O passado é o passado: a cada um a sua história e as suas influências. Se existe algo de que podemos ter a certeza é que por muito que as relativizemos, delas, não nos livramos. Como, de resto, aconteceu áqueles que foram, para nós, figuras tutelares. Resta-nos continuar. Ir em novas direcções. Conduzirmo-nos e conduzir a novas construções – humanas – civilizacionais. Sem, contudo, negarmos aquilo que somos. Que fomos. E, principalmente, sem nos esquecermos que, para lá das máquinas e dos clones que tentaremos imitar e com os quais tentaremos, no futuro e em nome da “economia”, competir: fomos crianças. Ainda somos.

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