Subserviência Jornalística e “Transparência Total” (Do Medo do Elitismo III)

Uma das características mais vincadas da ideologia comunicacional e civilizacional actualmente em formação é a disseminação invulgarmente rápida, aceite e pouco discriminada de um vago conceito, mas bastante alargado, de “transparência” social. Tem “contaminado” inúmeros sectores. O auto- denominado “jornalista” Julian Assange, por exemplo, defende-o relativamente a todo o tipo de empresas, instituições políticas e económicas. O que constitui flagrante contradição. Porque o evita quando se trata da organização da qual foi fundador: a WikiLeaks. Muitas das corporações e personalidades que tentam promover esta noção são, aliás, mestres da opacidade. Mark Zuckerberg, um dos criadores da standardizadora e monopolista rede social facebook, chegou a afirmar, no ano de 2010, numa entrevista de seis minutos – seis – dada a Michael Arrigton, o fundador norte- americano do conhecido blogue TechCrunch, que a “época da privacidade acabou”: “uma mudança de privacidade para 350 milhões de usuários não é o género de coisas que a maioria das empresas faria. Mas vimo-lo como algo muito importante. Tentamos manter uma mentalidade de principiante e perguntamo-nos o que faríamos se começássemos a empresa neste momento. Decidimos – atenção à determinação que estas seriam as normas sociais”. Ou seja: exactamente o contrário do que tinha dito, dois anos antes, a Marshall Kirkpatrick, o CEO da empresa Little Bird: “privacidade é o vector em roda do qual o facebook opera”. A justificação, segundo foi avançada pelo actual representante da rede social Pinterest, Barry Schnitt, que também foi director do facebook, é a de que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”. Falam e decidem, portanto, como se a noção de responsabilidade pessoal, em todo o processo, lhes fosse alheia. A recolha de dados pessoais privados, entretanto e a nível internacional, tem- se normalizado. Com a nossa desatenção e conivência: segundo uma sondagem, conduzida pelo Pew Research Center em colaboração com o jornal Washington Post, 56 % dos norte- americanos considera ser aceitável o acesso da NSA (Agência Nacional de Segurança) aos registos telefónicos de milhões de cidadãos sem prévio conhecimento. Como forma, claro e como sempre, de “combate ao terrorismo”. E 45 % dos inquiridos admite que o governo deve estender a prática à actividade de todas as pessoas que usam a internet. Os documentos revelados por Chelsea Snowden mostram-nos que os dados são recolhidos através de empresas de telecomunicações como a Verizon. Mas, adicionalmente, através da Microsoft, da Apple, da Google, do Skype ou do facebook. A grande surpresa vem, de qualquer forma, do lado da França. Que, desta vez, evita a habitual posição de resistência face aos Estados Unidos da América. Segundo o título de um artigo, de Maria João Guimarães, disponibilizado no sítio do Público no passado dia 12 de dezembro de 2013: “França aprova espionagem na internet sem necessidade de autorização e em tempo real”. Os serviços de informação e “segurança” franceses terão, assim, acesso à localização e aos conteúdos das comunicações feitas entre os usuários: sem necessidade de autorização judicial. Ainda segundo o artigo: a monitorização alcançará computadores, tablets ou smartphones. Terão acesso aos dados a “polícia, a guarda nacional, agências de informação e de anti- terrorismo, o ministério da defesa, do interior ou o das finanças. O diário francês Le Monde já tinha lançado o alerta: as operações levadas a cabo pelos serviços de informação do país (DGSE) são “…fora da lei e sem qualquer supervisão adequada…;…qualquer pessoa pode ser espiada, em qualquer altura.”

Os grupos de discussão que proliferam através da internet não parecem querer escapar a esta nova, veloz, alarmante e acrítica transmutação de valores morais que parecia inconcebível há poucos anos atrás. Está, portanto, “tudo” em aberto. Relativamente ao jornalismo: não é apenas com o “livro de estilo”, que tem sido progressivamente “moldado” conforme conveniências comerciais momentâneas, ou com o código deontológico que uma parte dos “profissionais” se deixou de preocupar. Em grande parte dos comentários que se podem encontrar nos fóruns de discussão: o antigo “império” – anterior “quarto poder” -, em nome de uma forçada “democracia digital” na qual tudo se parece equivaler, auto- destrói- se. Para não ser “acusado” de “elitismo”: deseja destruir-se. Para que se possa sentir aceite e integrada: é “classe” que já o não deseja ser. Para não afastar leitores ou não “ofender” o “jornalista- cidadão” – como se o jornalista profissional não fosse, ele próprio, um “cidadão” – com o seu mais recente I- Pad ou smartphone na mão: expõe-se, escreve mal e distribui todo o género de tweets “opinativos”. Indo de encontro ao impulso e à conversa que, anteriormente, se ficava, elegantemente, pelo escritório. Pela “mesa de café”. A “internet”, como a economia, que se “auto- regule”. As portas estão, portanto e a partir deste momento, “escancaradas“. Para que tenhamos acesso directo a um making- of. Ao “espectáculo” de uma “dissecação”. Onde prolifera, não raras vezes, o insulto. Não apenas durante a “conversa” que deveria dizer respeito exclusivo ao sector. Mas também em matérias de índole privada e pessoal. Poderiamos afirmar: existe, aqui, qualquer coisa aproximada a um desejo em se ser observado. De actuar e querer ser parte integrante de um qualquer big brother menor. Ou, então, ainda é pura ingenuidade. Inconsciência pessoal derivada da propaganda e do “discurso de guru” que faz já parte dos primórdios da internet. Uma desistência. Ou uma vontade, propositadamente mal informada, em se ser direccionado pelo rebanho digital. Própria de uma estrutura tecno- social que, por ser tão veloz em termos de transformação e, por isso mesmo, tão lenta no que respeita à sua interpretação, nos converte a “todos”, relativamente às perguntas que deveriam interessar, em silênciosos seguidistas nos mesmos padrões morais: “A transparência !”. Estamos já demasiado inseridos. Demasiado incertos. Demasiado preocupados e atafulhados com a ideia de “inovação”: esta, monótona, expressão tão “TEDtalk” – é, de facto, demasiada “conversa” -. Demasiado receptivos a códigos que se atropelam uns aos outros – há já quem lhes chame “poesia” -. Pensando sermos perpetuamente “adaptáveis”. Como se fôssemos software: população metamorfoseada em inúmeras “aplicações” indistintas. A inquirir, quase unicamente, o que já é de fora. Terra estranha: as instituições e os modelos agora denominados – por vezes: “insultados” – como “tradicionais”.

Toda esta abertura e “transparência” é “estética” que tem vindo, também, a proliferar através da denominada “imprensa cor de rosa”. Mas, adicionalmente, em “primos” anteriormente inofensivos: as publicações sobre média e televisão que, há um par de décadas atrás, por exemplo, entrevistavam. Sem a devassa emocional que entretanto se cristalizou. Permitindo a Barry Schnitt, lá está, afirmar, então, que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”.  O “protagonista” – a “figura de capa” – já não espera, desta forma, pela pergunta. Não se defende. Tornou-se cúmplice e voluntário. E o “consumidor” – incansável voyer da “informação” -, armado com um “microscópio” e um “bisturi”, fica à espreita. Com todo o lixo e as “entranhas” a serem- lhe oferecidas de bandeja na mão. O jornalista, que esperava respeito por parte do público, acaba, deste modo, por ser o primeiro a impedi-lo. Exactamente na época em que se tenta, demagogicamente, destruir, a todo o custo, a figura do mediador cultural – o agora desprezado “middle man” – em diversas áreas. Para que se possa atingir a utópica “nivelação”.

Pergunto-me o que andam a fazer todos os profissionais que resolveram, num repente, também aderir a esta ideia de “transparência total”. Ultrapassando, não raras vezes, uma linha vermelha. Perdendo tempo, “tinta”, esforço e espaço –  público e individual – a oferecer questões privadas e matérias pessoais. Que, num mundo ideal, diriam apenas respeito a um qualquer recôndito universo interior. Mas constituem, agora, uma parte das excrecências de um planeta que se tornou e se quer ultra- mediatizado. No qual quase tudo se tenta apresentar como “informação”. Como tendo relevância pública. Ou interesse político.

Entretanto: uma grande parte dos usuários, enquanto “consumidores” não pagantes, costuma utilizar todo um leque variado de argumentação “criativa” e muito conveniente – embora nada original; é retórica copiada atrás de discurso repetido – para que, na sociedade, bastante falida, da “gratuitidade” cultural, possa, sem peso na consciência, não financiar o jornalismo – seja ele de que estilo for; de investigação ou não -, a música ou a literatura. Das quais usufrui permanentemente. Para depois, como se fizesse algum tipo de favor para lá de a si próprio, poder “partilhar”. Favorecendo uma desvantagem competitiva e, também, democrática relativamente a outros sectores e a outras profissões. Porque acredita – e, contra todas as evidências, quer, como é lógico, continuar a acreditar -, ainda, que o valor da publicidade distribuída pela internet tem sido suficiente para sustentar veículos de informação com qualidade. Que nos dignifiquem enquanto sociedade global que procura estabelecer e perpetuar um ideal democrático. Contudo: não o tem sido. E algumas das técnicas publicitárias – como a “native advertising” – ou narrativas – como a recente “experiência” Snow Fall levada a cabo pelo New York Times utilizadas como forma, desesperada, de captar a atenção do leitor só fazem o jornalista cair numa mais ridícula subserviência. Perante a quantidade e o tédio “informativo”: o consumidor exije brincar. A internet, relativamente à promessa que foi inicialmente idealizada, “faliu”. Mas uma parte da comunidade jornalistica, para além de não ter feito quase absolutamente nada, em termos “educativos”, de reportagem ou de artigos de opinião, para tentar convencer o consumidor do contrário – o que nos poderia ter conduzido a uma necessária, atempada e, pelo menos, mais independente troca de ideias e abertura de pensamento -, não conseguirá, desta forma, recuperar tão cedo a credibilidade que tem vindo a perder. O que ela procura, agora, são “novas formas de narrativa”. Favorecendo, assim, ainda mais a indiferenciação cultural promovida e desejada pelos gigantes do digital. Para que, estes sim, possam crescer. Que têm como um dos principais interesses o favorecimento de uma economia de curto- prazo – e de curto-prazo, exactamente, porque não funciona eficazmente – que promova uma espécie de “atenção desconcentrada”: a “lincagem” e o salto constante entre o texto curto “escrito para a internet” – simples e fácil de digerir -, imagens em movimento, diferentes técnicas publicitárias e o actual excesso de “info- gráficos”. Este “irmão”, menos rudimentar mas não menos infantilizador, do powerpoint.

O profissional da comunicação está, assim, mais “acessível”. O jornalismo mais “compreensível”. Para que a “realidade” se possa, mais uma vez, equilibrar. O que não chega a acontecer: o efeito pode, na realidade, ser o oposto. Por trás do discurso, da ilusão e da aparência de uma “igualdade”: o resultado é o enaltecimento do “digito”. Para que possa, desta vez, reinar o informático e a “matemática”. Dá-se, assim, força a uma diluição pretendida. Desvalorizando-se a complexidade textual e interpretativa. Este é “redemoinho” que impede um pensamento verdadeiramente distanciado sobre a profissão. Submersos – e nadando mal -, na Matrix“, como estamos: como separar águas? Não estamos a facilitar a vida ao historiador do futuro. Para encontrar o que verdadeiramente importa: ele precisará das mais pesadas botijas de oxigénio. Para descobrir uma âncora que nos valha. A nós: “…the people”.

Mas que podemos, afinal, contra uma economia que falha? E o “valor de mercado”? Esse avatar em que estamos, para já, transformados. Tudo isto, de qualquer forma, é presente. Chegará o tempo em que o próprio informático terá que começar a olhar por si. Que se defenda – e nos defenda -, nessa altura, relativamente ao que ajudou a construir. Ou então: que esqueça tanto determinismo e chame, mais uma vez, pelo nome das ciências sociais e humanas. Aí sim: para uma verdadeira nivelação.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: