Vontade de Escrever (Contra a Pulsão Negativa)

Escrevi, a poucos dias do fim do ano de 2013, uma crónica (1) inspirada num livro que me foi oferecido por um amigo de longa data. Que foi, adicionalmente, meu professor de história no liceu Sá de Miranda em Braga (2). Ele não suspeita: mas sempre o imaginei como uma espécie de Indiana Jones bracarense. Não usava chicote. Contudo, em determinada época, andava constantemente com um laço ao pescoço que, se não me engano, era de cor preta. E, não raras vezes, também com um chapéu. É verdade que não era de couro castanho. Mas, pelo menos, era de pano esbranquiçado. O mesmo que costumava usar quando me levava a mim e aos meus pais a descobrir, na praia de Moledo, pequenos achados arqueológicos.

Quando escrevi essa primeira crónica prometi voltar a uma questão que ficou pendente nas linhas finais. Esse desenlace, motivado pela leitura do livro, conduziu-me a uma ideia a pedir desenvolvimento. Que apresentarei na parte final. O livro foi-me oferecido como consequência de uma agradável conversa que tivemos à mesa de um restaurante no centro da cidade. Tratou-se, essencialmente, de uma divagação acerca da escrita enquanto “dificuldade”. Da complexidade que existe, por vezes, no arranque de uma primeira linha. Que nos leve a algo de substancial. Se não para um público geral ou específico: pelo menos a título individual. Para muita gente tal empreitada não constituirá qualquer género de problema. Dependerá, talvez, dos conhecimentos – ou falta deles – ou da exigência – ou falta dela – de cada um. Relativamente a uma “consciência literária”: do que foi escrito e produzido até hoje.

Mas que poderemos nós – os que metem os segredos, as megalomanias e as grandiosidades na gaveta – acrescentar? É questão que, não tenhamos dúvidas, pode paralisar. Se não para sempre: pelo menos momentãneamente. Este meu amigo “confessou-me”, a meio da conversa, que está a preparar um ensaio sobre a questão da “Melancolia na Idade Média”. “Óptimo”, pensei. Interessa-me tanto a melancolia como a Idade Média. Não sei como será o resultado final. Mas, com certeza absoluta, constituirá matéria de estudo para todos os que tentam olhar para o progesso civilizacional e para a condição humana como um todo. Uma redescoberta contínua: puzzle em processo. Este meu amigo, que tem uma biblioteca que faz invejar qualquer um – ele dirá que exagero. Aliás: já o disse. De qualquer forma: não podemos deixar de reparar, ao lado, na caveira humana que se encontra cuidadosamente pousada em cima de um dos pianos. O que também, perdoa-me, faz invejar qualquer um -, está a escrever. E, por esta razão, a combater a dificuldade à qual me referi anteriormente. Que constitui o núcleo deste artigo.

Confesso: sofro desse Mal. Assim mesmo: com esta maíscula que mais não faz – e faz muito bem – do que centralizar, nomeando-o e cercando- o sem complacências, o problema. Voltarei ao uso dessa expressão um pouco mais à frente. “Problema”: repito. Como se fosse o maior de todos eles. Para quem necessita de escrever – se prepara uma vida toda para o fazer – esta é questão nuclear. Outra confissão: de cada vez que inicío a escrita de uma crónica arrependo-me várias vezes pelo meio. Tenho de a ler e reler. Para a reconstruir. Poetizar um pouco aqui. Simplificar ali. Tentando subtrair-lhe o ridículo – esta ameaça sempre presente – sem a infantilizar. Desfiar um novelo que nunca se sabe, no fundo, onde terminará: talvez numa rede. Ou num labirinto. Numa encruzilhada a pedir “salvação”. Diversas pontes a pedir continuação. É projecto sempre inacabado. Iniciado e desenvolvido pelo passado. Continuado, quase sempre, por uma insatisfação, uma raiva ou uma angústia do presente – se, sobre esta questão, tiverem alguma dúvida: “perguntem” ao falecido Christopher Hitchens –. Tudo para que se possa chegar a uma qualquer solução. Interna e exterior. Para, depois de se ter conseguido publicar num jornal – com sorte -, numa revista – com muita sorte – ou num blogue, se sentir um remorso ainda mais “fatal”. De qualquer forma: não há problema. Está dito. Só vive “feliz”, aliás, quem não o tenta. E devo dizer: duvido muito de uma “felicidade” que seja virgem da crítica e do sobressalto. Cheira-me, imediatamente, a uma existência cujos efeitos se assemelham aos de um placebo. O pequeno impacto que o escrito poderá ter – até mesmo, por vezes, a indiferença total – acaba por me lançar, de qualquer forma, para um estado de orgulho miudinho. Que, depois de passar, me leva para nova questão a ser resolvida. Nada de desesperos: sei, pelo menos, que não escrevo mal. É ponto de partida.

Não me tinha esquecido: a obra em questão intitula-se Bartleby & Companhia. O autor é o espanhol Enrique VilaMatas. Que foi introduzido, em Portugal, pelo falecido Hermínio Monteiro. O fundador da enorme editora Assírio e Alvim. “Enorme”, aliás, como ele próprio. Com quem tive o raro prazer de conversar, sobre charutos e música cubana, na, para mim, saudosa passagem do ano de 1999 para 2000. Enrique Vila-Matas é representado, actualmente, por Carlos Veiga Ferreira. Através da Teodolito. O Mal – expressão à qual prometi regressar – é utilizado no livro como designação de uma pulsão que, negando a existência e o mundo, dificulta a possibilidade da escrita. E, segundo Vila Matas, constitui uma enfermidade das letras contemporâneas. Que também o atingiu: resolveu, por isso, escrever esta obra como se de um antídoto se tratasse. Como forma de resolver um problema interior mas adicionalmente, tentando abrir pequenas frinchas na procura de respostas, civilizacional. Como uma via para um recomeço que nos permita procurar pontas soltas que nos façam encontrar, pelo menos, um caminho distinto da pulsão negativa: do “não”. Um “Sim”. Como oposição ao niilismo artístico contemporâneo – porque embora Bartleby & Companhia se “reduza” a questões literárias: o tema é, na sociedade actual, abrangente. Resolveu fazê-lo, em forma de diário, depois de 25 anos – 25 – em “silêncio”. Logo a seguir a ter publicado um primeiro romance sobre a “impossibilidade do amor”. Esta outra negação.

Mas quem é, afinal, Bartleby? É um empregado de escritório de um conto que Herman Melville publicou em 1853. Que “nunca foi visto a ler, nem sequer um jornal”;”…que, durante longos feriados, fica de pé a olhar para a rua”. Nunca bebe café, chá ou cerveja. Nunca vai a lado nenhum. Vive sempre no escritório. Mesmo aos domingos. Nunca diz quem é, de onde vem ou se tem algum parente. Passa a vida a comer biscoitos. É a sua renúncia. A sua desobediência: comer biscoitos.

Bartleby & Companhia conta-nos, no fundo, inúmeras histórias sobre esta “geral” condição da “impossibilidade” de escrever. Que é, afinal, transversal a muita gente: o receio de nunca o fazer. O temor em se ser “esmagado” por séculos de literatura maior. E, por esta razão, ficar-se manietado: por todos os “monstros” da escrita que nos assaltam a memória, o presente e que o continuarão a fazer, teimosamente, no futuro. Que se “riem” lá atrás, provavelmente, da nossa prepotência actual: quando falamos em “inovação”, “informação” ou “conhecimento”. Talvez seja, aliás, este “peso” que nos leva, de costas curvadas perante a História,  a querer, em vários domínios, “formatar o sistema”. A obra percorre, principalmente, autores que ficaram conhecidos. Que, a determinada altura, desistiram de escrever. Ou que nunca o fizeram de todo. Arranjando todo o género de desculpas, conscientes ou inconscientes – como, por exemplo, uma fuga apressada para um qualquer manicómio -, para eles próprios e para os outros, para não terem de provar absolutamente nada perante um planeta esmagado pela “hereditariedade”: e ao longo da vida, muitos de nós, escrevem e reescrevem rascunhos e gatafunhos que, normalmente, vão parar ao caixote do lixo ou a uma gaveta qualquer. Muitos terão mais qualidade do que aquela que lhes costumamos atribuir. Uma ínfima parte das pessoas resolve tentar publicá-los.

Vou aqui apresentar, recorrendo ao livro de Vila- Matas, um dos exemplos que teve a “honra” de ingressar no “panteão” da pulsão negativa literária: Clément Cadou tinha 15 anos e era aspirante a escritor. Tinha lido todo o género de livros. Desejava ser alguém admirado. Os pais, em Abril do ano de 1963, convidaram o velho amigo e escritor polaco Witold Gombrovickz, aproveitando um desembarque deste último em Barcelona depois de ter abandonado Buenos Aires, para jantar na casa onde viviam em Paris. Gombrovickz era uma espécie de herói de Clément. Cuja obra o tinha impressionado. Quando o viu, contudo, mal conseguiu falar o resto da noite. Sentiu-se “literalmente um móvel da sala onde jantaram. Desistiu, devido a este episódio, de escrever. Para sempre. E, para se poder esquecer da anterior aspiração, passou a pintar móveis. Apenas móveis: Todos os quadros acabavam por ter o mesmo título: “Auto- retrato”. Respondia, quando alguém lhe lembrava que em tempos tinha desejado ser escritor, que: “É que me sinto um móvel, e os móveis, que eu saiba, não escrevem”. Segundo um estudo de 1973, de Georges Perec, intitulado “Retrato do Autor Visto Como um Móvel, Sempre”: A família, quando Clément morreu devido a uma doença prolongada, “desfez-se dele como quem se desfaz de um móvel que estorva, e enterrou-o num nicho perto do Marché aux Puces de Paris, esse mercado onde se podem encontrar tantos móveis velhos”. O último desejo de Clément, sabendo que ía morrer, foi um epitáfio para o seu túmulo que considerou como sendo as suas “obras completas”: “Tentei sem êxito ser mais móveis, mas nem isso me foi concedido. Por isso fui toda a vida um único móvel, o que, no fim de contas, não é pouco se pensarmos que o resto é silêncio.

São incontáveis os exemplos deste género no livro Bartleby & Companhia. Mas saltemos, agora, para fora das páginas do livro: o que se encontrará “escondido” nas inúmeras “gavetas” deste país que, para utilizar a expressão de José Gil na obra “Portugal, Hoje: O Medo de Existir”, tanto receio tem de se “inscrever”? Por mim: já resolvi. Desculpem-me: mas tomei a decisão de tentar editar. De qualquer forma: não foi para anunciar, aos meus poucos leitores, a intenção de escrever algo que vá para além das crónicas que resolvi fazer este artigo. Mencionei, de início, uma ideia: a de tentar organizar, no fim do ano de 2014, um Encontro Nacional de Bartleby´s. Vamos ver no que dá. Nada de silêncio.

(1) – A crónica em questão intitula-se “2014: O Ano de Dizer Adeus a Bartleby“.

(2) – Já me tinha referido a um outro professor de história no artigo “Aquilo que – Nietzscheanamente – Somos“. Contudo: não é o mesmo.

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