Pelas Catacumbas Bracarenses

Dediquei o longinquo ano de 1999 ao cinema. Assistia, habitualmente, a mais do que um filme por semana. Quando existia algum que queria ver e que não tinha projecção na cidade de Braga – o que era e continua a ser habitual – metia-me no comboio para o Porto para regressar no final da sessão. As salas de cinema “independente” – designação que não tem pés nem cabeça -, de qualquer forma e infelizmente, vão rareando, agora, em todas as cidades portuguesas. Escrevo sobre cinema porque me lembrei hoje de um excelente filme, infelizmente bastante esquecido, do ano de 1999. Intitula-se Pleasantville, foi realizado por Gary Ross e, como quase todos os trabalhos cinematográficas, foi feito para ser visto numa sala sem pipocas. Não num ecrã de computador com má definição e legendas, repletas de erros, em “português do brasil”. A história anda à volta de dois irmãos, David e Jennifer, que um dia, no meio de uma discussão sobre que programa de televisão iriam ver, estragam o comando. É nesse momento que aparece um misterioso reparador que lhes oferece um novo de aparência bastante estranha. Ao carregarem num dos botões entram, repentinamente, para dentro do televisor. Mais especificamente para uma sitcom a preto e branco, de 1958, que se passa numa pequena vila com o nome do filme aqui abordado. Onde tudo parece ser perfeito. Como em “Beleza Americana” de Sam Mendes. Tudo encaixa e está, aparentemente, no lugar certo. Todos os acontecimentos parecem cronometrados ao estilo de um outro filme: Truman Show, com Jim Carrey, que Peter Weir realizou em 1998. O argumento tem por base um casal ao qual tudo parece funcionar correctamente. Sempre que o marido chega a casa, bem consciente do papel de “chefe de família”, atira o chapéu pelo ar acertando invariavelmente no bengaleiro enquanto diz, sempre no mesmo tom, “Honey ! I´m home ! A esposa perfeita, como não podia deixar de ser, não pára de cozinhar. Todos os intervenientes, no filme, parecem conhecer muito bem os seus papeis. Fazem a mesma coisa todos os dias. Também lá estão os gatinhos em cima das árvores e a serem salvos pelos bombeiros. Aos habitantes de Pleasantville falta-lhes, contudo, consciência. De um “subterrâneo” que está prestes a irromper: a sexualidade não existe. Ela foi silenciada. Ou “esquecida”. O prazer parece, assim, ser proibido. Os casais dormem em camas de solteiro separadas. É neste momento que o par de irmãos resolve iniciar uma espécie de revolução. As mulheres, no decorrer do filme, vão percebendo que alguma coisa está errada e começam a descobrir que têm direito ao prazer sexual. É neste momento que, pouco a pouco, as cores vão aparecendo. Como numa pintura. Inicia-se, aqui, uma luta entre as pessoas a preto e branco – reflexo da tradição, da moral e dos “bons costumes” – e as corruptoras. Bem mais “coloridas”. Deixei aqui esta pequena entrada, Mas não vou contar o resto do filme. Desculpem, de qualquer forma, a publicidade mais ou menos enganosa. É apenas uma meia verdade. O título do artigo ia ser outro. Mas enquanto o escrevia: não me saía Braga da cabeça.

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