O Penhasco

Quando vos disserem que uma separação dos vossos pais só vos afectaria se fossem muito novos: não acreditem. Basta fazer uma pesquisa num motor de busca para se encontrar várias páginas de psicologia sobre este assunto. A coisa torna-se mais complicada, principalmente, se formos filhos únicos: tendência “chinesa” que se vai generalizar. Os irmãos que fariam pouca falta começam a ser presença constante na memória. Agora: de protector de uma irmã passaria, de bom grado, a ser o protegido. Quando os nossos pais se separam, em épocas mais tardias e por muito que tivéssemos delineado o nosso caminho, algo – que era forte – passa a morrer. E se anteriormente nos considerávamos mais ou menos adultos: passamos a tentar encontrar de novo o útero. As placas tectónicas – que antes se encontravam bem delineadas uma contra a outra – começam-se a mover em distintas direcções provocando um rasgão no meio da alma. O que nos divide quase literalmente em dois. Todas as pedras e todas as palavras contrariam o provérbio e, a partir deste momento, magoam a dobrar. Há conversas que ficam, para sempre, interrompidas. Memórias comuns que se deixam de evocar. A lareira que era amarela- alaranjada converte-se numa chama azul esbranquiçada, posta no mínimo, de um fogão ferrugento. Os nossos pais, num repente, mudaram. E, por isso, teremos também que nos metamorfosear. Sob pena de cairmos do penhasco onde, felizmente, existe ainda uma rocha para agarrarmos com as mãos.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: