Category Archives: artigos de opinião

O Jornal Público

O jornal Público ( mesmo que continue a ser o melhor dos portugueses) perdeu há vários anos aquilo que o distinguia: a ênfase dada a cronistas prestigiados e com qualidade. Continuo a ser assinante da publicação. Mas não deixo de ficar triste quando tem “opinion makers” enfadonhos e politiqueiros como o João Miguel Tavares. Falta ao jornal aquilo que o distinguia: crónicas como as do Eduardo Cintra Torres ou os do infelizmentemente falecido Eduardo Prado Coelho. Safam-se alguns. Mas não é suficiente.


O Futuro da Terra (Um Mundo de Pobres)

Durante muito tempo nos disseram que se estudássemos conseguiriamos o emprego dos nossos sonhos. Em faculdades públicas ou privadas. Viviamos no império das letras. Embora os estudos informáticos já estivessem a despontar. Era o mercado a girar em todo o seu fulgor. Diziam-nos que alcançariamos um emprego para toda a vida. No entanto não existem, aqui, culpados. Acreditava-se que seria assim. E lá o fizemos para orgulho dos nossos pais. De repente: a realidade. O neo- liberalismo económico avançava e uma retórica diferente começava a surgir da boca de políticos bem instalados: “Acabou o emprego para toda a vida”. Os humanos – felizmente ainda o somos – teriam que se adaptar a novas regras para sobreviver. As empresas de trabalho temporário floresciam assim como os contratos a termo incerto. A direita em todo o seu explendor na certeza da auto- regulação dos mercados como se não existisse vida por trás a idealizá-los e a fomentá-los.

Durante muito tempo os que ingressassem – ou quisessem ingressar – em informática eram os verdadeiros “tó-tós” da turma. Mal sabiamos nós que num par de décadas tudo iria mudar de rumo e de disposição civilizacional. As letras, a história e a filosofia não davam dinheiro. Tudo se começou a reduzir a números e à linguagem computacional:”010001100011111111110”. Nos últimos tempos uma nova febre: as “start-ups”. O capitalismo a dar mais uma cartada – talvez uma das últimas – e a prometer que o empreendedorismo por conta própria é que era: era uma espécie de salvação. Uma “disrupção” como fala a gente para os lados de Silicon Valley. Uma promessa que não passa de selvajaria total. Todos contra todos na demanda de trocados. Agora, para se trabalhar, tem que se ser “único”, “original”, “imaginativo” e construir uma empresa. “Bater punho”, na designação de um fraco “guru” das redes sociais bracarense, Miguel Gonçalves, que foi alvo de chacota por todo o país devido à célebre expressão. Embora, há que dizê-lo, tenha sido nomeado “Embaixador do Impulso Jovem”, uma categoria inventada por Miguel Relvas, ministro dos assuntos parlamentares do governo de Passos Coelho.Um dos pontos baixos – no meio de muitos – deste último.

E aqui chegamos ao ponto principal: lembro-me bem de quando fazia rádio na RUM (97.5) entre os anos de 1994 e 1997 e em que o ambiente era de festa e de criatividade. Existiam inúmeras colaborações e as ideias fluiam. Até chegarem os computadores para substituirem os mini- discs. Uma grande quantidade de gente foi dispensada e começaram as playlists a funcionar. A Rádio Universitária do Minho descaracterizou-se e muitos programas passaram a serem gravados de dia para passarem à noite sempre com os mesmos locutores. Foi a primeira vez que fiquei de pé atrás com a informática. Ela, “quando quer”, destrói valores.

A Lei de Moore diz-nos que a tecnologia duplica em potência de dois em dois anos. Isto significa que, talvez, no espaço de uma década já não percebamos nada do que se está a passar – e já está ser dificil acompanhar o jargão da computação (A Lei de Moore, apesar de tudo, é uma profecia que funciona sob a lei do mercado. Seria, por isso, possivel regulá-la e abrandá-la se politicos os ou senhores do MIT estivessem interessados nisso. Mas não estão).Mas gostava de saber, nessas condições, como vamos trabalhar. Conseguiremos estudar o suficiente para competirmos com algoritmos e a Inteligência Artificial? Será dificil.

O respeitado historiador Yuval Noah Harari que até ao momento escreveu três livros assinaláveis- “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 respostas para o século 21” – acaba de escrever um artigo no The Guardian intitulado “O significado da vida num mundo sem trabalho”. Tudo devido à automação, à informática e à Inteligência Artificial. Nele fala sobre “o surgimento de um novo tipo de pessoas que irá supostamente aparecer até 2050: “os inúteis”. Serão, pelos vistos, pessoas “desempregradas mas ao mesmo tempo não empregáveis”. O problema será o “surgimento de algoritmos que poderão desempenhar uma série de tarefas melhor que os humanos”. E “as crianças que actualmente estão a estudar serão irrelevantes quando chegarem perto dos 40 anos devido à velocidade da evolução tecnológica”. Segundo Harari essas pessoas receberão uma espécie de rendimento básico universal – com o qual eu concordo mesmo que tenha consciência que será uma ninharia -. Servirá para sossegar as consciências? A grande questão será: como manter essas pessoas ocupadas para que sintam um sentido para a vida? É aqui que surge o disparate de Harari: segundo ele, as pessoas deverão fugir do dia a dia e dedicarem-se aos jogos de computador e à realidade virtual comparando tais actividades a religiões. Diz ele: “O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas? Muçulmanos e cristãos atravessam a vida a tentar ganhar pontos no seu jogo de realidade virtual favorito. Se reza todos os dias, obtém pontos. Se se esqueceu de orar, perde pontos. Se, no final da sua vida, ganhar pontos suficientes, depois de morrer, vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso)”. A sério? É este o programa que Yuval tem para nos oferecer? Um rendimento básico e jogos de computador? Duas observações: como pôr todas as nações de acordo – numa época de desacordo e de contração da colaboração universal – até 2050? E, especialmente, como é que familias a receberem o rendimento básico terão dinheiro para os caríssimos jogos de computador? Um planeta de alienados é o que nos é proposto aqui.

E chegamos aqui a um ponto fulcral. Há uns tempos fui assistir a uma palestra no agora infelizmente encerrado Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, em Braga, que era também uma reunião de pessoas ligadas à computação. E houve nisto algo de assustador: todos tinham a certeza que os informáticos seriam ultrapassados por aquilo que estão a criar. A única coisa com a qual não estavam de acordo era o “quando”. Uns apontavam para o espaço de uma década. Outros para daqui a 50 anos. Portanto: eles próprios poderão perder o emprego. Há mesmo quem advogue que as máquinas chegarão a um ponto de invenção em que elas começarão a construir uma realidade que nós, humanos, não conseguiremos acompanhar nem compreender.

Os relativistas do costume dirão que “não”. Que tudo vai bem e que se tivessem um telescópio para ver o futuro encontrariam alguma luz. Acontece que estes até podem ter razão. Porque esperam no sofá enquanto outros trabalham ou esclarecem leitores sobre a realidade.Como diz o polémico e grande psicanalista esloveno Zlavoj Zizek – principalmente numa altura em que a rapidez e a desinformação abundam -: “é tempo de não actuarmos para podermos pensar”.


A Divina Velocidade

“O tempo é o diabo mas a velocidade é divina”: é este um dos slogans principais de “Sillicon Valley”. E eu diria que resume tudo. Tudo o que é religião actual: a rapidez. Esqueçam o cristianismo, o islamismo, o judaísmo, o budismo e todas as outras. Os senhores da computação são os novos sacerdotes e o que dizem são mandamentos escritos não em pedra mas, sim, num I-Pad. E nós, humildes súbditos, dizemos Amen a todo o tipo de tecnologia que nos traga “conteúdos” cada vez mais instãntaneos. Para que possamos tapar os buracos vazios de um mundo interior que se tornou – e, com a falta de “silêncio”, se vai tornar – cada vez mais complexo. Esqueçam os padres. Redes sociais, jogos de computador, realidade aumentada e a realidade virtual serão as novas hóstias. A nossa sociedade tornou-se voraz e sem espaço para descanso. Tudo se transforma numa chamada colectiva pela atenção. Seja de uma grande empresa ou de um simples cidadão. “Olhem! Reparem! Estou aqui ! Cada vez mais veloz na minha postagem de informação! Também quero ser uma estrela !”. Coitado: mal sabe ele que o mundo se fragmentou em milhares de milhões como ele e, por isso mesmo, os famosos diminuiram de estatuto.

Há, por causa do que acabaram de ler, uma necessidade de se escreverem mais artigos sobre tecnologia para que possamos organizar o mundo de forma mais “compacta”. Precisamos de saber e de perceber o que se está a passar. Mas cuidado com quem escreve. Muitos não passam de gurus da tecnologia cujo primeiro desejo é o da fusão entre o homem e a máquina: a chamada “Singularidade”- algo que Noam Chomsky chama, e no meu entender muito bem, de “ficção ciêntifica”. Em primeiro lugar temos que saber quem estamos a estudar. O bombardeamento de desinformação é de tal maneira grandioso que faz com que desconfiemos dos jornais e, principalmente, dos sites noticiosos. Sim, é certo que as novas tecnologias nos proporcionam novas formas de expressão mas como diz Ignacio Ramonet, ex- director do jornal Le Monde Diplomatique na sua versão francesa, “o problema de do nosso tempo não é a falta de notícias. O problema agora é encontrar aquelas que são fidedignas”.

As redes sociais, por seu lado, vieram dar cabo da leitura de blogues. Que convidavam mais à reflexão através dos seus textos longos e bem pensados. Naquelas tudo é fast food. Nestes estava o verdadeiro e agora utópico espírito da internet através de inúmeros artigos, por vezes, de altissima qualidade escritos por internautas que poderiam, se pudessem, ser verdadeiros comentadores, cronistas ou jornalistas. Já no Facebook impera a barbárie, a confusão, o barulho de postagens mal escritas de quase nulo valor. Para além do facto de se comentarem artigos que não se lêem. Predomina a gritaria. Num estudo feito há meia dúzia de anos provou-se, ainda, que uma grande maioria das pessoas não passam, em termos de leitura, da terceira linha nos artigos clicados.

Recentemente o jornal do Perú intitulado El Comércio conduziu uma entrevista a Martin Rodriguez Gaona que escreveu um livro premiado que se chama “La Lira de las Masas” que reflecte sobre um fenómeno muito particular relativo à poesia em Espanha. Segundo o autor dá-se mais importãncia à espectacularidade do que à profundidade do género em questão. O esquema é simples: os cibernautas põem poemas em redes sociais como o Instagram e consoante os “gostos” que obtêm são convidados pelas editoras para publicarem livros, vendendo-os aos milhares. O que passa a importar não é a qualidade e a profundidade do que é escrito e apenas a popularidade. Tudo num regime de velocidade acelerada. Reflete o autor “Se uma rapariga bonita com uma foto provocante tem 150 mil “gostos” numa postagem e uma conta na rede social com meio milhão de seguidores sabes que com ela vais vender livros. As editoras passaram a ser meras comerciantes. Perdeu-se a reflexão, a escrita pausada e pensada. Os bons poetas não só são minoritários como também se sentem defraudados porque não têm nenhum tipo de retribuição. Nem simbólica nem material.”

Segundo um artigo do jornal Público publicado a 23 de Junho deste ano, foi inventado “um algoritmo que ajuda a completar romances, receitas e até poemas”. Qual é o objectivo disto? Ajudar pessoas com falta de inspiração. Ora: não há melhor exemplo para a sociedade da rapidez. Desta forma, ninguém tem que lidar com o tédio que os bloqueios criativos impõem nem com a espera necessária para que a inspiração humana surja. Mas afinal qual é a utilidade disto? Para que queremos nós ler o que a Inteligência Artificial escreve? O modelo chama-se GPT-2 e foi alvo de controvérsia no início do ano por ter construído notícias literalmente a partir do zero. Onde pára, então, a humanidade quando aquilo que interessa é que a “velocidade é divina”?

Toda esta rapidez ajuda, adicionalmente, a alimentar o populismo político e a extrema direita. Num mundo em que só se lêem “as gordas” e onde imperam as tão badaladas fake news tudo se pode esperar. As pessoas navegam apressadamente através de um twitter ou de um facebook na demanda de gostos publicando aquilo que parece mais sórdido e mais escandaloso. E os jornais, para não perderem o comboio, seguem pela mesma linha férrea.

Ray Kurzweil,  futurologista em termos de Inteligência artificial e inventor, disse, num documentário, que dentro de mais ou menos dentro de duas décadas a informação andará a uma velocidade tal que teremos que ligar os nossos cérebros uns aos outros para percebermos o que se está a passar. Esta personagem recebe palmas por todos aqueles que acham que o cérebro funciona como um computador. Há que lembrar que também pretende rescuscitar o pai – não se sabe como -, que deseja viver até aos 150 anos – alimenta-se à base de dezenas de pastilhas por dia – e que passeia pela praia para “tentar ver robots gigantes a comer estrelas”, porque são fonte de energia, a olho nu. É alguém que, apesar de decididamente hilariante e delirante, atrai muitos seguidores. Mesmo que muitos neurologistas e psicanalistas lhe digam que não percebe  nada do funcionamento do cérebro e da sua complexidade. Um computador não tem nada a ver com sinapses nem neurónios. Ponto final. E também não se entende como é que vai ser possível ligar os cérebros sem um colapso geral. É que já bastam os nossos problemas interiores. Quanto mais aturar os dos outros. Contudo: acerta numa coisa. A velocidade a que a informação vai girar. Falei, no artigo anterior, da Lei de Moore: a tecnologia duplica de potência de dois em dois anos e a chamada disrupção tecnológica e, por isso, social acontecerá cada vez mais com mais força e rapidez. E, nisso, tem razão: vai ser muito difícil percebermos o que estará a acontecer.Se é que já não percebemos.

O que interessa perceber passa ao largo de muita gente. Os Mão Morta, grupo musical bracarense, não podia estar tão avançado e tão certo em 1997, quando lançou o álbum “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável”, com o tema “Aldeia Global” em que o refrão era o seguinte:”É a Aldeia Global: explicam num júbilo imbecil, prontos a destilarem um rosário das maravilhas dos novos tempos, sem discernirem que “aldeia” sempre foi sinónimo de isolamento e conformismo,de mesquinhez, aborrecimento e mexericos e de que qualquer modo o que verdadeiramente importa se mantém secreto. O que importa é saber onde raio se encontra o poder!

Com a era da desinformação – e, por causa dela, da confusão mental – os psicoterapeutas esfregarão as mãos pelos seus aumentos de poder. Vaticina-se toda uma panóplia de distúrbios psicológicos. Muitas pessoas terão que se dirigir a consultórios de psicoterapeutas para aprenderem a lidar – se lidarem – com a multiplicação tecnológica que surgirá nas próximas décadas e a alienação que se poderá produzir a partir daí.

Eis, então, a minha música, a minha poesia, o meu antidoto e, também, um pouco do meu veneno: do que precisamos, portanto? De menos leitura mas com mais qualidade. De um serviço educativo que impulsione os jovens a olharem a sociedade em que estamos a entrar de soslaio, com distância e desconfiança. Para nos podermos defender dos propagandistas do MIT e de outras conveniências culturais e económicas actuais. Precisamos, para isso, de tempo. De encontrar espaços de silêncio. Para que se possa, também, escrever demoradamente. Lareira – se estivermos no inverno -, um livro e um bom copo de vinho. Parar. Andamos demasiado fascinados com o futuro. E, por isso, demasiado obcecados connosco próprios. Regressemos, portanto, à filosofia.


O Papel dos “Velhos” Frente aos Jornais em Papel

Sabemos que existe, principalmente, devido a milhares de artigos de “opinião” que pululam, à espera de serem encontrados, pela internet fora. Mas ouvi- lo, directamente, através das palavras de um obcecado com as venturas – mas não com as desventuras; essas: há que ignorá-las – da “digitalização total” é diferente: “Espero que um dia tudo isto vá abaixo !”. “Tudo isto” significava, no seu arrebatado léxico, um desejo. O fim, como se estivéssemos a falar de um simples castelo de cartas, do mais ou menos exausto império das publicações em papel. De tudo o que se convencionou, em poucos anos, apelidar, tentando-o reduzir, de “tradicional”. Ou seja: o fim da matéria e da “alma” com que ainda são produzidas muitas publicações que recusaram, até ao momento, sucumbir ao reino único dos “resultados imediatos”. Da velocidade mercantil de um jornalismo que é, agora, menos pensado. Que, sabemo-lo, tem dado pouco azo à reflexão demorada e mergulhada. A “solução”, em forma de mutação – que nunca vem; que não se sabe, muito bem, para que é que, exactamente, serviria, quem serviria e com que fins sociais -, seria a construção de toda uma arquitectura unicamente “digital”. A normalização de uma ideologia que pretende tentar transformar, em pouco tempo, várias manifestações do real em produtos afectos ao conceito anteriormente referido. Trata-se de uma posição – que, além de comercial, é também política que consegue, por vezes, roçar o absoluto fanatismo. Mas como muito disto parece novo, ficção científica e porque cheira a “inovação” – tecnológica – : deixa-se andar. Porque o “futuro” há-de transformar tudo sempre para melhor. Porque uma fuga para a frente parece ser algo de superior. Porque, afinal, poderá significar uma espécie de aurora: um amanhã de plástico replandescente. Acontece que a “digitalização”, aliada a um precário e ultra- veloz capitalismo, traz “pormenores” pouco “eficazes”: imagino, por exemplo, o que sentirá um “velho” perante as “maravilhas” da implementação tecnológica contínua num mundo em que estará inevitavelmente ultrapassado pelo conceito de “formação para toda a vida”. Fantasio que, por exemplo sem o seu jornal, pelo menos envergonhado. Sim. Num planeta obcecado por produtos e serviços direccionados para a juventude: o papel dos “velhos” – e daqueles,  como eu, que estão prestes a entrar na meia- idade – conta. Importa, por isso, o papel dos “velhos” face aos jornais em papel. Estes, felizmente e apesar de toda a desvalorização de que têm sido alvo, ainda têm uma função – para além da nacional – regional e local. Muitas pessoas passam, ainda, o tempo em cafés “antigos”, como em bibliotecas, a conversarem. A discutirem problemas fulcrais para a cidade onde vivem. Tirarem-lhes as publicações que circulam pelas mesas não significa, unicamente, anularem-lhes o espírito. Significa esvaziarem-se espaços de conversa numa “Europa” que é, neste momento, cada vez menos democrática. Significa isolá-los. Pô- los de cabeça para baixo a tentarem entender algo que, devido à velocidade de produção actual, estará, também e em pouco tempo, ultrapassado. Se é, como se tem propagandeado inúmeras vezes, o conteúdo aquilo que mais importa: devemos, de certa forma, “inverter” – ou, pelo menos, repensar – o discurso. Não precisamos de estar, perpetuamente, a mudar de suporte tecnológico. Nisto: deveriamos ser mais constantes. Mais distantes. Mais pausados. Menos supérfluos. Em nome de uma interacção real: café na mesa, companhia e conversa. Não atiremos os nossos “velhos” para mais um fórum na internet. Há coisas que não são substituíveis.


A Tirania da Objectividade

Existem determinados momentos em que parece que nada nos vai sair de uma esferográfica. Agora cada vez mais: do teclado de um computador. De uma velha máquina de escrever? Lemos e relemos, livros, crónicas e artigos de opinião, para que nos surja, condensado, algo de válido. Que nos faça merecer o olhar de, pelo menos, um leitor. Como se nos encontrássemos mais ou menos acorrentados a uma espécie de “paternidade”: os ditos, os escritos e as demais produções alheias. Se formos suficientemente exigentes – e sangrentos – connosco: o tédio, como o desprazer, torna-se inevitável. E é exactamente neste ponto – um momento de silêncio – que teremos de saltar. De um lado, do abismo, para o outro. Ali: onde começam as “dores de parto”. Encontramo-nos numa encruzilhada. Que caminho seguir para não nos estilhaçarmos em cacos de vidro? É isto o que significa e o que representa a escrita. A procura e a descoberta de, sempre novos e intermináveis, pontos de fuga. Tentarmos esburacar uma firme parede de granito que não quer ser quebrada. Mas que, simultaneamente, não admite contemplações na destruição das sucessivas camadas de uma realidade interna. “A casca da cebola?”. Prosseguimos, em seguida, com vista a uma reelaboração. Mas ainda há quem nos exija “objectividade”. Objectividade? Quando é, precisamente, a subjectividade que nos coloca onde mais importa: cosmos interior. Ninguém necessita, exactamente, de conceber aquilo que criamos. Ou, para o fazer, que moldes utilizamos. Que propósito temos. Tudo isto é pedir demais. A cada um: o seu mistério. Que leiam duas, três, quatro vezes.


A Nossa Ilusão (Um Problema de Tradução)

Assistimos, no momento presente, a um problema de “tradução” que considero ser, tendencialmente, mais ou menos geral: muita gente a “esbracejar” dentro e fora de redes sociais. Mais do que do livro, do artigo de opinião, do “conhecimento” ou da “informação”: podemos baptizá-la, num contexto que é favorável a todo o tipo de catalogações apressadas, de “Sociedade do Comentário”. Há não muito tempo atrás, para dar um exemplo que me parece ser essencial, um tradutor de uma obra específica não teria de conhecer, unicamente, um determinado idioma na perfeição. Ele era “obrigado” a dominar o campo de estudo, a conhecer a fundo o autor a traduzir, ser mais ou menos especialista – no que isto tem de “tradicional”, “antigo” e, portanto, pormenorizado – em filologia para conseguir determinar o contexto temporal e, por isso, moral em que determinada obra, palavra ou expressão teria sido escrita. Se fosse caso disso. O que, em certa medida, “acabou”. É um género de gente que, hoje em dia, serve para “abater”: eles “pretendem” dar cabo da “democracia”: é que, agora, qualquer editora ou start- up pode, gratuitamente ou por “cinco tostões”, contratar um “chacal” que vagueie pela “China”. Isto passa-se em grande parte dos sectores comerciais: “É a crise!”. Favorece-se, para a combater, portanto: mais crise. Não admira que pouca gente se ande verdadeiramente a compreender por mais que tente “comentar” ou escrever: o “problema de tradução” – entendido aqui como “interpretação”: apenas para que na “era da transparência” e da “repulsa” pela metáfora, não sejamos tão “opacos” – tem sido contaminante. Estamos infestados de “roedores” por todos os cantos. Alguém perguntaria: “E os psicólogos? Escapam?”. Alguns – ” mas só alguns” – já conseguiram entrar no século XXI. Não é que esbracejem, como todos nós, mas, por vezes, também preferem não ouvir: o que vai dar mais ou menos ao mesmo. A cada um deles o seu livro, a sua história, a sua escola ou a sua visão. Portanto: o seu autismo. A nossa ilusão.


%d bloggers like this: