Category Archives: bissexualidade

Arte e Antídoto

As biografias “apaixonam-me”. Escritas ou filmadas. É um género que nos põe os pés definitivamente assentes na terra – ou ausentes da Terra? – relativamente a figuras que, para o bem e para o mal, nos habituamos a admirar. Têm a faculdade de nos mostrar a realidade, que se tenta esconder, por trás daquilo que se compôs, filmou ou escreveu. Assim como, ao que parece, a “consciência” tem o propósito de confirmar ou de contrariar aquilo que verdadeiramente se sente: uma biografia, bem esmiuçada e detalhada, revela-nos o homem – ou a mulher – que se esconde por trás da “máscara”: de um propósito social. Mesmo existindo um sentido construtivo -: não me parece ser raro o facto de que aquilo que é, por exemplo, escrito constituir uma espécie de panaceia – o antídoto – para os sofrimentos e os desejos, psico- sexuais e amorosos, de um autor. É exactamente neste ponto que começamos a falar em “optimismo”. Expressão, assim como “a razão”, que terá tantos significados como protagonistas. A escrita, a música e o cinema como manifestação de “doenças”. Projecções positivas para o “mal estar”. “Encher o mundo de delírios que entretenham – e enganem – os outros”: diria, desta forma, o melhor paciente. Focos de luz para si próprio. Mas que sirvam, também, os outros com lágrimas, sorrisos e algum enaltecimento. A cada um o seu vulcão: aproveitemos a lava.

 

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Sexofobias

Segundo Frei Bento Domingues, numa crónica do jornal Público disponibilizada no passado dia 15, vem aí a “terceira igreja”: parece que o Papa Francisco recusa “fazer da fé cristã uma tristeza”. Está a – vou citar de forma reconstruída – “irritar não só a alta finança, mas também os movimentos que tentam recuperar o medo do pecado e a ameaça do inferno com o auxílio de eclesiásticos vestidos e calçados a preceito”. Esperemos que sim. Conhecemos a História e, apesar do progresso, sabemos o que nos costuma trazer a vontade de “austeridade” em épocas de crise económica e financeira. Cresce, também, o racismo. Como surgem, aqui e ali, erupções de ultra- nacionalismo. Regressa, portanto, o homem do costume: com batina ou sem batina; chefe de estado ou “cidadão”. Júlio Machado Vaz, numa das últimas crónicas para a Antena 1, discutiu – afirmando, pelo meio, que vivemos “numa sociedade pouco erótica” – um estudo que dá conta de uma ligeira descida no número de relações sexuais nos últimos 20 anos. Acompanhada por uma perda do aprofundamento relacional. Devido à crise mas, também, ao excesso de distracções tecnológicas e de entretenimento mediático. Os ares dos tempos parecem anunciar, por isto, uma nova conspiração contra o corpo: uma fuga do baixo ventre para o cérebro. Não será por acaso, aliás, todo o favorecimento civilizacional actual do racionalismo e da neurologia contra outras disciplinas: tudo o que é, no fundo, do pescoço para cima. Em direcção à inteligência artificial. A um outro tipo de espiritualidade. Com igreja ou sem igreja: o ser humano disfarça e tenta reconstruí-la com moldes mais refinados: foge da natureza e da Terra através do sintético, do plástico, do “sexo virtual”. Tudo, no fundo, o que não implique carne, pele, qualquer género de líquido corporal: não deixa de nos vir à memória o filme Gattaca, de 1997, realizado por Andrew Niccol. Onde quem tentasse ter relações sexuais segundo métodos naturais – como nós: ainda humanos – era perseguido. Portanto: antes que surjam as circunstâncias do costume – e o bullying, devido à homofobia, aumenta entre gerações mais novas – : há direitos que demoram tempo a conquistar. E, por isso, têm que ser defendidos: sexo por amor, sexo sem amor, com casamento ou sem casamento, heterosexual, bissexual, homosexual, transsexual, a dois ou em grupo, sado- masoquista ou soft, com plástico ou sem plástico, com “brinquedos” ou sem “brinquedos”, com “fidelidade” ou troca de casais: podemos não gostar devido à nossa sensibilidade e à prática individual de cada um. Mas a cada um o seu “sintoma”. Tiremos a “batina”.


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