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A Importância da Interpretação e do Contexto no Jornalismo Cultural

Uma das capacidades que mais admiro, nos outros, em época de “postagens”: a de se tentar escrever bem. Para que eu próprio possa ousar, experimentando, evoluir. Contudo: também, simplesmente, a de se tentar escrever. Evitando o texto curto: uma das “doenças” deste século, devido ao excesso, à qual também não escapo de vez em quando. Trata-se de uma luta cultural e civilizacional. De um problema de contaminação habilitado por uma teimosia constante e habitual: a “eficiência” tecno-económica. Dou como exemplo contrário: a aptidão para se pegar numa só foto, como fez Roland Barthes, e de a conseguir dissecar. Como, aliás, o autor o relatou através do livro “A Câmara Clara” que foi editado no ano de 1980. Não constitui tarefa fácil. Passa-se o mesmo relativamente ao cinema: assistirmos a um filme, em sala – para o sentirmos melhor -, e, depois de o deixarmos cerca de uma semana em “pousio” – interior -, a “marinar” e a amadurecer, convertê-lo num texto que caiba, ainda , em página inteira. Como continua a fazer, para nos referirmos apenas ao território nacional, o semanário Expresso pelo menos de vez em quando. Como deixou o diário Público de os disponibilizar há já algum tempo devido a inúmeros factores – e, aqui, a falta de espaço não é dos menores -. Reduzindo, desta forma, a interpretação e o contexto histórico- cinematográfico a umas magras colunas que, apesar de regularmente bem escritas, têm, agora, de se fazer valer através de um estilo mais condensado. Tenho pena. Costumava ser um hávido consumidor de artigos jornalisticos que lhe eram relativos. As interpretações sempre me fascinaram. Por muito distantes, em termos de imaginário simbólico e linguístico, que se encontrem umas das outras. Nisto: o já falecido João Bénard da Costa era rei. Escrevia, sobre filmes, como se pintasse uma tela. Davam-lhe espaço para o fazer. E o sentido, a procura de um sentido que Bénard parecia exigir extrair através do uso de uma palavra quase musicada, só poderia ser conduzido dessa forma. Não interessa, para esta crónica, se existem blogues mais ou menos especializados e direccionados para o tema com textos de igual ou de superior qualidade. A imprensa generalista, com todos os seus suplementos culturais, continua a  representar um outro papel social. Não deveria, por isso, continuar a ser desprezada, como o é actualmente, por constituir uma espécie de aparência, física, real ou imaginária – sublinhando: muitas vezes imaginária; a democracia igualitarista precisa de “inimigos” – aos olhos dos cidadãos de poder e de “controle”. Pura e simplesmente porque, no que respeita à comunicação, quase tudo representa luta, poder e combate cultural. Tentação que, obviamente, não escapa aos inúmeros tweets, blogues e start-ups de cariz informativo – e desinformativo – que são criados diáriamente. A “sociedade reticular”, neste aspecto, aumentou a competição mas, adicionalmente, o nível de paranóia social relativamente ao que é dito e ao que é escrito: pelo outro. A imprensa generalista, nas mãos certas, continua a ser necessária. Apesar de todos os problemas que tem enfrentado em termos económicos e sociais para que nos possa continuar a indicar caminhos de reflexão comuns. Continua a constituir um ponto de encontro necessário que une e concentra visões, um pouco mais gerais, da realidade. Evita o estilhaçamento de vontades comunicativas sem, contudo, acabar com elas. Impede, um pouco, um género de “autismo” muito contemporâneo: o isolamento social favorecido pela tendência para a “personalização” de “conteúdos”. Alguns, nesta fase em que quase tudo parece significar “elitismo”, teriam a tentação de apelidar esta posição que defendo como “tendência para o controle”. Existe, contudo, uma outra que vai para além desta generalização: uma ultra- valorização do individual em detrimento daquilo que se teima em apelidar, estigmatizando, de “jornalismo tradicional”. Como se este último precisasse de desaparecer em nome dos múltiplos interesses da filosofia concentracionária da oligarquia digital. É jornalismo a tentar ser o que sempre foi: ponto final. Esta posição bastante radical tem incentivado – e criado – o empolamento, não apenas do que se convencionou chamar  de “jornalismo- cidadão” – que pode ser também uma forma de exploração -, do “narcisismo- cidadão”: em direcção ao selfie, ao império da velocidade, da facilidade e da quantidade. Em última análise e em termos gerais: à falta de qualidade informativa, jornalistica e literária. Interessa dar voz à “maioria” em nome de um precário comércio digital. Contudo: somos, agora, mais prisioneiros das estatísticas. Mais escravos das “citações” para nos tornarmos visiveis em motores de busca. Do número de visitas por página. Para tal acontecer: a “classe média informativa” transmutou-se numa espécie de obstáculo a eliminar. As perguntas que mais interessam, sobre o poder, deixam, por isso, de se fazer com a mesma insistência e pormenor. Muito nos começa a passar ao lado. Deveria, por estas razões, continuar a existir um espaço para todos. A análise e a crítica, exigente e profissional, têm sido desvalorizadas por vivermos e defendermos, actualmente, um ecossistema económico- digital “infestado” por “comentários”, “comentadores” e todo um conjunto de ansiosos por veículos publicitários como são as conferências TED Talk. Tentando-se degradar, para que tal seja possível, o que aparenta vir de cima. Mudanças sociais que se tornam insuficientes para uma conveniente – ou inconveniente – compreensão histórica, artística, literária, jornalistica, musical e cinematográfica. Novamente no que se refere a esta última área – poderia utilizar outras para servirem de exemplos mas parece-me suficiente nomear, pelo menos para já, apenas uma – : navegamos, hoje em dia, sofregamente por sítios infestados de cartazes com filmes principalmente americanos: os de terror, as comédias românticas e os filmes de acção. O trio “paralítico” habitual que, grande parte das vezes, é-nos oferecido como se fosse uma espécie de pronto-a-comer sem qualquer descrição, com qualidade, que nos permita situar a obra de uma forma política, social e, por isso, temporal. Um ciclo vicioso que tem favorecido o parco interesse dado ao argumento e à realização – à autoria e ao nome do realizador – por parte de um género de consumidor, de tipo novo e coleccionista, que, acantonado no seu “nicho”, se tem habituado, progressivamente, a uma procura preguiçosa, pouco informada, fragmentada e desconexa: “vê-se o primeiro que aparecer”. Tanto nas salas que ainda resistem em centros comerciais como nos diversos sítios que proliferam pela internet. É a cara, a pose dos actores e a capa mais “atractiva” aquilo que parece interessar cada vez mais. A história do cinema como, aliás, quase toda a história, parece, actualmente, ser pouco necessária à cultura popular. “Formatar o sistema !”: repete-se, por aí, relativamente a quase tudo o que seja manifestação cultural. Mas a presente “revolução”, mais do que “digital”, é social: trata-se da construção de um estado – de um estado, semi- amnésico, de pensamento – que se deseja alheio ao “exterior” e também àquilo que lhe é “anterior”. A “mudança de paradigma”: um rompimento que, embora seja necessário em determinados aspectos, parece querer evitar, em larga escala e apesar de toda a informação e literatura, dispersa e digitalizada, um significado e o passado. É apenas uma da contradicções do presente. Continuamos, contudo, a precisar de jornais. As assinaturas nunca foram tão baratas. Entraram em espírito low- cost.


Arte e Antídoto

As biografias “apaixonam-me”. Escritas ou filmadas. É um género que nos põe os pés definitivamente assentes na terra – ou ausentes da Terra? – relativamente a figuras que, para o bem e para o mal, nos habituamos a admirar. Têm a faculdade de nos mostrar a realidade, que se tenta esconder, por trás daquilo que se compôs, filmou ou escreveu. Assim como, ao que parece, a “consciência” tem o propósito de confirmar ou de contrariar aquilo que verdadeiramente se sente: uma biografia, bem esmiuçada e detalhada, revela-nos o homem – ou a mulher – que se esconde por trás da “máscara”: de um propósito social. Mesmo existindo um sentido construtivo -: não me parece ser raro o facto de que aquilo que é, por exemplo, escrito constituir uma espécie de panaceia – o antídoto – para os sofrimentos e os desejos, psico- sexuais e amorosos, de um autor. É exactamente neste ponto que começamos a falar em “optimismo”. Expressão, assim como “a razão”, que terá tantos significados como protagonistas. A escrita, a música e o cinema como manifestação de “doenças”. Projecções positivas para o “mal estar”. “Encher o mundo de delírios que entretenham – e enganem – os outros”: diria, desta forma, o melhor paciente. Focos de luz para si próprio. Mas que sirvam, também, os outros com lágrimas, sorrisos e algum enaltecimento. A cada um o seu vulcão: aproveitemos a lava.

 


“A Geração Mais Bem Preparada de Sempre” ( Sobre o 25 de Abril e o Documentário “48”)

Assisti, no passado dia 25 , na Casa do Professor, em Braga, a um excelente documentário intitulado “48”, realizado por Susana de Sousa Dias, sobre a forma como os presos políticos foram torturados fisicamente e psicologicamente por membros afectos ao regime salazarista. Trabalho cinematográfico que, segundo o texto que o acompanha, durou cerca de dez anos a ser concluído. Na minha opinião: deve ser visto por toda a gente de todas as gerações. Trata-se de uma compilação de fotografias das pessoas que foram encarceradas que se vão sucedendo, pausadamente, à nossa frente enquanto são acompanhadas por relatos actuais, marcados por aquilo que a memória lhes permite, das condições a que foram sujeitas. Não podemos deixar de olhar. Muito menos de nos angustiar. Constituem emotivos testemunhos de morte. De fome. De meticulosas torturas permitidas por toda uma máquina e um sistema organizado conivente. Perante aquilo a que assistimos: o silêncio. E o choro: de uma das pessoas que assistia atentamente ao documentário.

Devia, repito, ser visto por todas as gerações: apelo que não é inocente relativamente ao debate que se desenrolou no final. Não estava muita gente: o que já era de esperar. A cidade de Braga oferece cinema gratuito em alguns espaços que constituem alternativas ao monopólio standardizador das distribuidoras que operam nos grandes centros comerciais. Que convidam a uma visualização atenta, envolvente e sem distracções: cinema. Mas a existência de projectos como este parece não ser, muitas vezes, suficiente para arrancar as pessoas do sofá que se encontra em frente ao televisor. Ou da cadeira que se encontra em frente a esse aspirador cultural contemporãneo denominado como internet. Que sedimentou, nos últimos anos, o sedentarismo. Éramos, na sala de projecção, cerca de dez pessoas que variavam entre os 18 e, talvez, os 60 anos de idade. Predominavam, contudo, os mais novos: a “geração dos oitentas”, a “geração à rasca”, a “geração mais bem preparada de sempre”. Resumindo: a “geração do desenrasca”. Não utilizo estas expressões, nem as repito, de ânimo leve. Coloco-as para uma chamada de atenção: a pessoa que introduziu o debate, que parecia ter cultura política e cinematográfica, pertence a essa “geração”. Foi um prazer ouvi-lo na forma como reagia, comentava o que tinhamos acabado de ver e ouvir e interpelava os espectadores. Detinha, adicionalmente, uma aptidão rara na era da visualização YouTube e de consumo de produtos culturais de curto prazo: não foi uma pessoa que viveu Abril que esteve ali, portanto, a tentar alertar consciências com um documentário duro, demorado, sem grandes artificios técnicos.

A sessão, contudo, estava carregada de simbolismo. Porque se exaltou, a meu ver, ao elevar em demasia a “geração” da qual faz parte. Que, segundo ele, “tem uma cultura e uma potencialidade…”: referiu, entusiasmado, elevando os braços. Uma das pessoas que se encontrava atrás de mim arruinava, entretanto, a sensação de espírito colectivo “geracional”: “Não sei para que servem estas coisinhas. Já não vou dormir de noite”. Quase que não é preciso referir que toda a gente se virou para tentar compreender o tom daquela expressão: “coisinhas”. Em vez de uma tentativa de tomada de consciência: seria, pelos vistos, preferível o esquecimento. Há – muitos – filmes assim: feitos para nos tirar o sedativo que nos ofereceria um qualquer blockbuster escapista. Embora, é certo, com cada vez menos possibilidade de distribuição. Apenas um outro reparo: o anfitrião, pelo meio do inteligente discurso, não resistiu a um segundo chavão ao estilo das discussões políticas que imperam nas redes sociais: “a geração que nos meteu no buraco”.

Hoje em dia temos mais “informação” disponível. Mas o jornalismo que é feito não é mais exigente nem mais pormenorizado. A troca de informação através das redes sociais é, não raras vezes, arbitrária e sensacionalista. Para além do facto de monopolizarem e standardizarem o discurso e a distribuição de artigos. Não é exactamente a qualidade a imperar. E as condições de visualização, como comprovam diversos estudos, não são as melhores. São raras as pessoas que conseguem ler, atentamente, artigos até ao fim. É por essa razão que há toda uma quantidade de “especialistas” e de “gurus” a ensinarem a “escrever para a internet” de forma mais simplificada. É também por essa razão que vigoram, hoje mais do que nunca, os “infográficos”. Os cursos universitários actuais também não são mais exigentes. Bolonha simplificou-os. As universidades, por sua vez, transformam-se em “incubadoras” ao tentarem seguir modelos de gestão que se aproximam ao espírito empresarial. O objectivo passa a ser a confecção de “produtos” que vendam. Não necessariamente o conhecimento e a investigação que não trazem títulos chamativos para colocar artigos “científicos”, de consumo imediato, nos jornais académicos em linha. Por outro lado: a internet não foi inventada pela geração dos “80´s”. Nem a Apple. Nem, por exemplo, a Amazon. É preciso ter calma. Há toda uma história humana para trás. A actual “formatação do sistema” não o pode ignorar. Existe, é certo, uma evolução cultural. Mas o ser humano, estruturalmente, continua a ser o mesmo. Não existiu, dos anos cinquenta para os oitenta um salto ontológico. Ninguém irá levantar voo. Ou partir numa nave espacial. Os sonhos, de qualquer forma, são importantes. Mas contra o narcisismo contemporâneo: teremos sempre as desilusões. Nada está acabado. Na presente situação política e económica internacional não esqueçamos, portanto, depoimentos como aqueles que nos oferecem documentários como “48”. Que venha mais cinema assim. Para nos lembrar do que, afinal, todos podemos ser feitos. Em qualquer geração. Veremos a “potencialidade”: quando forem líderes, erigirem novas instituições e quando conseguirem solidificar, através também do passado, um pensamento de futuro. “Formatar o sistema”: sim. Ele precisa. Mas com os olhos bem postos na História. Evoluiu, essencialmente, a técnica. Falta o resto.


“Fight Club”: O Mundo Como “Representação” (Em Direcção à Máquina)

Passeava em Ponte de Lima, numa noite, com um amigo aspirante a filósofo. Tinha lido “cerca de quatro mil livros”. “Incluindo Patinhas”. Não pude deixar de reparar no ar que tentava transmitir. De passo vagaroso e mãos atrás das costas: dizia, a olhar para o chão, que “hoje em dia há falta de porte”. Referia-se, penso, a tipos de personalidade que para ele seriam “distintos”. Lembro-me, na altura, de me ter perguntado que figura – que personagem histórica – estaria ele a tentar representar.

Uma das maiores referências do filósofo alemão Friedrich Nietzsche – que mais tarde resolveu contrariar em quase toda a obra que desenvolveu – foi Arthur Shopenhauer. Que editou, em 1819, “O mundo como vontade e representação”. Contudo: o primeiro, apesar de combater o pessimismo do segundo, não fez, no fundo, outra coisa do que diagnosticar mais ou menos o mesmo aspecto relativamente ao ser humano. A filosofia indiana, com visão e terminologia própria, já o tinha intuído. Através do conceito de “Véu de Maia”. Que significa, no fundo, “Véu da Ilusão”. A psicanálise e a análise bio- energética, no século XX e até hoje, “não fizeram mais” do que o aprofundar e sistematizar. Identificando, na cultura e na civilização, uma rede complexa de inúmeras e mutáveis “representações” e projecções individuais. “Nada está”, afinal, lá. Constituem ilusões para que possamos continuar. Considero que a nossa era, em termos interpretativos, representa uma espécie de passo atrás: as directrizes sócio- económicas não cessam de nos “orientar” – sem consciência – em direcção ao avatar: à “(ir)realidade virtual” ou “aumentada” – “prevista” e desejada, aliás e em força, para o ano de 2014 -. E em termos explicativos: o “monopólio” comunicacional da neurologia, da indústria farmacêutica e de muitas práticas terapêuticas actuais não deixam de nos “reduzir”. O mercado, sabemos, “funciona”. E simplifica. Ficamos, apesar do “progresso” e de todos os meios de comunicação actualmente disponíveis, a saber menos acerca de nós próprios. Sempre a correr e a “produzir”: não temos tempo. Nem disponibilidade para mais.

“Ninguém foi mais longe” ou conseguiu transmitir uma ideia mais ou menos aproximada “tão bem” como Woody Allen. Aquele que é talvez um dos filmes menos conseguidos do realizador de origem norte- americana, Zelig – do ano de 1983 -, apresenta-nos, de qualquer forma, um personagem memorável. Que, na ânsia de ser admirado, “converte-se” naqueles que o rodeiam e nas pessoas que mais respeita e admira. Emulando-os. Deixa de saber, por isso, quem é.

A sociedade do espectáculo, que teve início no século XX, é, a meu ver, “Zelig” por definição. E “culmina”, agora e no fundo, com uma espécie de “impossibilidade”. Contaminados” pela cultura rock, pela indústria cinematográfica, jornalistica ou literária – como anteriormente as conhecemos – : muitos de nós, na vida e agora através de redes sociais, “não fazemos mais” do que operar uma tentativa de reconstrução. Daquilo que gostariamos de ser. Os sinais estão por todo o lado. Apesar de, em termos civilizacionais, as lutas pessoais se direccionarem para novos sentidos – o desejo, por exemplo, de se ingressar no “panteão” onde figuram Julian Assange, Steve Jobs ou Mark Zuckerberg através do desenvolvimento de software ou aplicações informáticas -: a pressa na auto- publicação não deixa de nos sinalizar um “desespero”. As redes sociais apontam-nos infindáveis exemplos. Por exemplo: através da escrita em inglês. Não me parece que a globalização económica, como se encontra, seja a única força a pedir a utilização desta espécie de “neo- esperanto”: é, também, o desejo íntimo de nos romantizarmos. De nos representarmos como as figuras cinematográficas e musicais que nunca fomos e que pensamos que “nunca” chegaremos a ser. Por constituirem um imaginário, também bastante televisivo, do passado. A época da estrela, como foi idealizada, tem um fim. Devido à “democratização” que trouxe o digital. À inveja natural do ser humano que, para não sofrer com a sombra do outro, tudo tenta nivelar. Contudo: a velocidade actual em termos de inovação – bastante “artificial” em termos de adaptação – faz com que muitos de nós ainda não se tenham habituado totalmente. Vivemos, assim, uma espécie de “estertor”. Como o deve experienciar, afinal, o “cristão” que deixou de acreditar em Deus. Tem as raízes culturais e a culpabilidade: mas não a “salvação”. Não deixa de nos vir, com isto, à memória o filme Fight Club, de 1999, do realizador David Fincher. A personagem que desempenha Edward Norton, “contaminado” pelo desejo de ser quem não é, admira e venera Tyler Durden que é representando por Brad Pitt. Porque deseja “foder como ele”, actuar como ele, vestir-se como ele. No fim: descobre que, afinal, um e outro são a mesma pessoa. Imaginação e espécie de alter- ego que construiu. Para não se ver. Não se sentir a si próprio: menos “cinematográfico” e ilusório. Mas infinitamente mais humano e sensível. No fim, depois de se livrar da representação com que inconscientemente se anulou, fica com a rapariga. “Como nos filmes”: ao som dos Pixies. Enquanto explodem prédios que simbolizam empresas de crédito: “Where is my mind?”. Édipo passa por aqui.

Nada disto, é evidente, implica que consigamos ou devamos “desistir”. O passado é o passado: a cada um a sua história e as suas influências. Se existe algo de que podemos ter a certeza é que por muito que as relativizemos, delas, não nos livramos. Como, de resto, aconteceu áqueles que foram, para nós, figuras tutelares. Resta-nos continuar. Ir em novas direcções. Conduzirmo-nos e conduzir a novas construções – humanas – civilizacionais. Sem, contudo, negarmos aquilo que somos. Que fomos. E, principalmente, sem nos esquecermos que, para lá das máquinas e dos clones que tentaremos imitar e com os quais tentaremos, no futuro e em nome da “economia”, competir: fomos crianças. Ainda somos.


Sexofobias

Segundo Frei Bento Domingues, numa crónica do jornal Público disponibilizada no passado dia 15, vem aí a “terceira igreja”: parece que o Papa Francisco recusa “fazer da fé cristã uma tristeza”. Está a – vou citar de forma reconstruída – “irritar não só a alta finança, mas também os movimentos que tentam recuperar o medo do pecado e a ameaça do inferno com o auxílio de eclesiásticos vestidos e calçados a preceito”. Esperemos que sim. Conhecemos a História e, apesar do progresso, sabemos o que nos costuma trazer a vontade de “austeridade” em épocas de crise económica e financeira. Cresce, também, o racismo. Como surgem, aqui e ali, erupções de ultra- nacionalismo. Regressa, portanto, o homem do costume: com batina ou sem batina; chefe de estado ou “cidadão”. Júlio Machado Vaz, numa das últimas crónicas para a Antena 1, discutiu – afirmando, pelo meio, que vivemos “numa sociedade pouco erótica” – um estudo que dá conta de uma ligeira descida no número de relações sexuais nos últimos 20 anos. Acompanhada por uma perda do aprofundamento relacional. Devido à crise mas, também, ao excesso de distracções tecnológicas e de entretenimento mediático. Os ares dos tempos parecem anunciar, por isto, uma nova conspiração contra o corpo: uma fuga do baixo ventre para o cérebro. Não será por acaso, aliás, todo o favorecimento civilizacional actual do racionalismo e da neurologia contra outras disciplinas: tudo o que é, no fundo, do pescoço para cima. Em direcção à inteligência artificial. A um outro tipo de espiritualidade. Com igreja ou sem igreja: o ser humano disfarça e tenta reconstruí-la com moldes mais refinados: foge da natureza e da Terra através do sintético, do plástico, do “sexo virtual”. Tudo, no fundo, o que não implique carne, pele, qualquer género de líquido corporal: não deixa de nos vir à memória o filme Gattaca, de 1997, realizado por Andrew Niccol. Onde quem tentasse ter relações sexuais segundo métodos naturais – como nós: ainda humanos – era perseguido. Portanto: antes que surjam as circunstâncias do costume – e o bullying, devido à homofobia, aumenta entre gerações mais novas – : há direitos que demoram tempo a conquistar. E, por isso, têm que ser defendidos: sexo por amor, sexo sem amor, com casamento ou sem casamento, heterosexual, bissexual, homosexual, transsexual, a dois ou em grupo, sado- masoquista ou soft, com plástico ou sem plástico, com “brinquedos” ou sem “brinquedos”, com “fidelidade” ou troca de casais: podemos não gostar devido à nossa sensibilidade e à prática individual de cada um. Mas a cada um o seu “sintoma”. Tiremos a “batina”.


A Vida Como “ExistenZ”

No passado dia 13 estive à conversa, numa mesa de café, com um amigo de longa data que partilha comigo algumas ideias em termos sociais. Com uma diferença: sabe muito mais do que eu. Ofereceu-me um livro que, imaginou à partida, iria gostar: “Crise no Castelo da Cultura: Das Estrelas para os Ecrãs” de Moisés de Lemos Martins. Deparei, ao folheá-lo, com textos e imagens de “ExistenZ”: o filme que David Cronenberg realizou e que esteve em exibição em Portugal no ano de 1999. A protagonista, Allegra Geller, é designer de jogos de computador. Cuja mais recente criação transporta o usuário para uma realidade alternativa através de uma espécie de cabo que liga uma consola bio- tecnológica – reparem no pormenor: tem que ser mimada para funcionar – a um “bio- port”: uma espécie de orifício enxertado no fundo das costas com algo aparentado a um berbequim. O jogo de espelhos é tal que, no fim, quem se aventura já não sabe onde se encontra porque, pelo caminho, encontra novas consolas que o transportam a outras dimensões. Um olhar mais aprofundado levou-me a uma questão. Ao pensarmos sobre a nossa história pessoal, do nascimento ao momento presente, somando todas as experiências vividas, pessoas que conhecemos e com as quais nos relacionamos, felicidades, dores e infernos, beijos, abraços, lutas e discussões: quem somos e com quem estamos realmente? Qual o número de projecções, nossas e do passado, é que fazemos nos outros e em cada um dos momentos da vida? Qual a dose efectiva de “realidade” que existe em todos os julgamentos que fazemos? Qualquer pessoa que tenha uma dose mínima de consciência de si sabe que isto se passa desta maneira: não precisamos de qualquer tipo de  realidade virtual. Nascemos no “ExistenZ”.


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