Category Archives: computação orgânica

A Vida Como “ExistenZ”

No passado dia 13 estive à conversa, numa mesa de café, com um amigo de longa data que partilha comigo algumas ideias em termos sociais. Com uma diferença: sabe muito mais do que eu. Ofereceu-me um livro que, imaginou à partida, iria gostar: “Crise no Castelo da Cultura: Das Estrelas para os Ecrãs” de Moisés de Lemos Martins. Deparei, ao folheá-lo, com textos e imagens de “ExistenZ”: o filme que David Cronenberg realizou e que esteve em exibição em Portugal no ano de 1999. A protagonista, Allegra Geller, é designer de jogos de computador. Cuja mais recente criação transporta o usuário para uma realidade alternativa através de uma espécie de cabo que liga uma consola bio- tecnológica – reparem no pormenor: tem que ser mimada para funcionar – a um “bio- port”: uma espécie de orifício enxertado no fundo das costas com algo aparentado a um berbequim. O jogo de espelhos é tal que, no fim, quem se aventura já não sabe onde se encontra porque, pelo caminho, encontra novas consolas que o transportam a outras dimensões. Um olhar mais aprofundado levou-me a uma questão. Ao pensarmos sobre a nossa história pessoal, do nascimento ao momento presente, somando todas as experiências vividas, pessoas que conhecemos e com as quais nos relacionamos, felicidades, dores e infernos, beijos, abraços, lutas e discussões: quem somos e com quem estamos realmente? Qual o número de projecções, nossas e do passado, é que fazemos nos outros e em cada um dos momentos da vida? Qual a dose efectiva de “realidade” que existe em todos os julgamentos que fazemos? Qualquer pessoa que tenha uma dose mínima de consciência de si sabe que isto se passa desta maneira: não precisamos de qualquer tipo de  realidade virtual. Nascemos no “ExistenZ”.


Não És Rato Nem És Nada (Homem no Laboratório)

Num tempo em que o indivíduo faz tudo para perder a privacidade – se tornou, definitivamente, produto – em favor de uma mútua – sempre renovada; mais sofisticada – exploração; se converte, tendencialmente, não tanto em “criatividade” mas em filho menor escravo da velocidade: em “indústria criativa”; filma, fotografa e noticia por ambicionar chegar a ser, ele próprio, “informação”; se define como amontoado de dados que serão armazenados que serão comercializados: que espaço sobra, devido a tudo isto, para a autonomia? Para a vontade pessoal?

O artigo, amplamente partilhado nas redes sociais, intitulado “Ratos com os cérebros ligados entre si conseguem comunicar“, da autoria de Ana Gerschenfeld, disponibilizado, dia 28 de fevereiro, na versão em linha do jornal Público: relata-nos um estudo, da equipa de Miguel Nicolelis, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos da América e de Edmond e Lily Safra, do Instituto de Neurociências de Natal, no Brasil, publicado na revista Scientific Reports do grupo da Nature. Nele ficamos a saber que “um rato aprende a desempenhar uma tarefa motora, o outro não”. O primeiro ensina, depois, o segundo. Através de “transmissão intercerebral”. Nomeadamente através da implantação “de eléctrodos no córtex motor e no córtex cerebral”. Ligados por “finíssimos fios eléctricos”. Segundo Nicolelis: “estamos a criar aquilo a que eu chamo um computador orgânico, capaz de resolver um problema de maneira diferente (…) dos computadores convencionais”; “…estamos a criar um único sistema nervoso central…”; “nem sequer é possível prever que tipo de propriedades poderiam emergir quando um grupo de animais começar a interagir como componente de uma rede de cérebros”; “em princípio seria possível imaginar que uma combinação de cérebros fosse capaz de fornecer soluções que um cérebro sozinho seria incapaz de formular”. Nada disto fica por aqui. Segundo noticia o Público, de acordo com as palavras do investigador, “a ligação intercerebral poderá mesmo fazer com que um animal incorpore o sentido do “eu” de outro animal”; “foram detectados, no cérebro do rato descodificador, neurónios que reagiam aos bigodes de ambos” o que “significa que esse rato criava uma segunda representação de um segundo corpo por cima do próprio corpo”.

Isto é, nada mais nada menos, que brainstorming. Para além de determinadas palavras- chave – muito dadas a uma certa economia narrativa – : é imaginário conhecido da ficção cientifica. Que costuma reflectir o medo que o homem tem das próprias criações. Mas, adicionalmente, um desejo. Poderemos, a partir daqui, imaginar, ou não, os efeitos de uma transposição da experiência que vá para além dos ratos. Volto ao parágrafo inicial: que sentido toma – como propósito – um espaço colectivo que, na busca de “soluções”, deixa cair o pessoal?  “Pensar em rede” ou deixar de pensar?


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