Category Archives: comunicação social

O Jornal Público

O jornal Público ( mesmo que continue a ser o melhor dos portugueses) perdeu há vários anos aquilo que o distinguia: a ênfase dada a cronistas prestigiados e com qualidade. Continuo a ser assinante da publicação. Mas não deixo de ficar triste quando tem “opinion makers” enfadonhos e politiqueiros como o João Miguel Tavares. Falta ao jornal aquilo que o distinguia: crónicas como as do Eduardo Cintra Torres ou os do infelizmentemente falecido Eduardo Prado Coelho. Safam-se alguns. Mas não é suficiente.

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A Divina Velocidade

“O tempo é o diabo mas a velocidade é divina”: é este um dos slogans principais de “Sillicon Valley”. E eu diria que resume tudo. Tudo o que é religião actual: a rapidez. Esqueçam o cristianismo, o islamismo, o judaísmo, o budismo e todas as outras. Os senhores da computação são os novos sacerdotes e o que dizem são mandamentos escritos não em pedra mas, sim, num I-Pad. E nós, humildes súbditos, dizemos Amen a todo o tipo de tecnologia que nos traga “conteúdos” cada vez mais instãntaneos. Para que possamos tapar os buracos vazios de um mundo interior que se tornou – e, com a falta de “silêncio”, se vai tornar – cada vez mais complexo. Esqueçam os padres. Redes sociais, jogos de computador, realidade aumentada e a realidade virtual serão as novas hóstias. A nossa sociedade tornou-se voraz e sem espaço para descanso. Tudo se transforma numa chamada colectiva pela atenção. Seja de uma grande empresa ou de um simples cidadão. “Olhem! Reparem! Estou aqui ! Cada vez mais veloz na minha postagem de informação! Também quero ser uma estrela !”. Coitado: mal sabe ele que o mundo se fragmentou em milhares de milhões como ele e, por isso mesmo, os famosos diminuiram de estatuto.

Há, por causa do que acabaram de ler, uma necessidade de se escreverem mais artigos sobre tecnologia para que possamos organizar o mundo de forma mais “compacta”. Precisamos de saber e de perceber o que se está a passar. Mas cuidado com quem escreve. Muitos não passam de gurus da tecnologia cujo primeiro desejo é o da fusão entre o homem e a máquina: a chamada “Singularidade”- algo que Noam Chomsky chama, e no meu entender muito bem, de “ficção ciêntifica”. Em primeiro lugar temos que saber quem estamos a estudar. O bombardeamento de desinformação é de tal maneira grandioso que faz com que desconfiemos dos jornais e, principalmente, dos sites noticiosos. Sim, é certo que as novas tecnologias nos proporcionam novas formas de expressão mas como diz Ignacio Ramonet, ex- director do jornal Le Monde Diplomatique na sua versão francesa, “o problema de do nosso tempo não é a falta de notícias. O problema agora é encontrar aquelas que são fidedignas”.

As redes sociais, por seu lado, vieram dar cabo da leitura de blogues. Que convidavam mais à reflexão através dos seus textos longos e bem pensados. Naquelas tudo é fast food. Nestes estava o verdadeiro e agora utópico espírito da internet através de inúmeros artigos, por vezes, de altissima qualidade escritos por internautas que poderiam, se pudessem, ser verdadeiros comentadores, cronistas ou jornalistas. Já no Facebook impera a barbárie, a confusão, o barulho de postagens mal escritas de quase nulo valor. Para além do facto de se comentarem artigos que não se lêem. Predomina a gritaria. Num estudo feito há meia dúzia de anos provou-se, ainda, que uma grande maioria das pessoas não passam, em termos de leitura, da terceira linha nos artigos clicados.

Recentemente o jornal do Perú intitulado El Comércio conduziu uma entrevista a Martin Rodriguez Gaona que escreveu um livro premiado que se chama “La Lira de las Masas” que reflecte sobre um fenómeno muito particular relativo à poesia em Espanha. Segundo o autor dá-se mais importãncia à espectacularidade do que à profundidade do género em questão. O esquema é simples: os cibernautas põem poemas em redes sociais como o Instagram e consoante os “gostos” que obtêm são convidados pelas editoras para publicarem livros, vendendo-os aos milhares. O que passa a importar não é a qualidade e a profundidade do que é escrito e apenas a popularidade. Tudo num regime de velocidade acelerada. Reflete o autor “Se uma rapariga bonita com uma foto provocante tem 150 mil “gostos” numa postagem e uma conta na rede social com meio milhão de seguidores sabes que com ela vais vender livros. As editoras passaram a ser meras comerciantes. Perdeu-se a reflexão, a escrita pausada e pensada. Os bons poetas não só são minoritários como também se sentem defraudados porque não têm nenhum tipo de retribuição. Nem simbólica nem material.”

Segundo um artigo do jornal Público publicado a 23 de Junho deste ano, foi inventado “um algoritmo que ajuda a completar romances, receitas e até poemas”. Qual é o objectivo disto? Ajudar pessoas com falta de inspiração. Ora: não há melhor exemplo para a sociedade da rapidez. Desta forma, ninguém tem que lidar com o tédio que os bloqueios criativos impõem nem com a espera necessária para que a inspiração humana surja. Mas afinal qual é a utilidade disto? Para que queremos nós ler o que a Inteligência Artificial escreve? O modelo chama-se GPT-2 e foi alvo de controvérsia no início do ano por ter construído notícias literalmente a partir do zero. Onde pára, então, a humanidade quando aquilo que interessa é que a “velocidade é divina”?

Toda esta rapidez ajuda, adicionalmente, a alimentar o populismo político e a extrema direita. Num mundo em que só se lêem “as gordas” e onde imperam as tão badaladas fake news tudo se pode esperar. As pessoas navegam apressadamente através de um twitter ou de um facebook na demanda de gostos publicando aquilo que parece mais sórdido e mais escandaloso. E os jornais, para não perderem o comboio, seguem pela mesma linha férrea.

Ray Kurzweil,  futurologista em termos de Inteligência artificial e inventor, disse, num documentário, que dentro de mais ou menos dentro de duas décadas a informação andará a uma velocidade tal que teremos que ligar os nossos cérebros uns aos outros para percebermos o que se está a passar. Esta personagem recebe palmas por todos aqueles que acham que o cérebro funciona como um computador. Há que lembrar que também pretende rescuscitar o pai – não se sabe como -, que deseja viver até aos 150 anos – alimenta-se à base de dezenas de pastilhas por dia – e que passeia pela praia para “tentar ver robots gigantes a comer estrelas”, porque são fonte de energia, a olho nu. É alguém que, apesar de decididamente hilariante e delirante, atrai muitos seguidores. Mesmo que muitos neurologistas e psicanalistas lhe digam que não percebe  nada do funcionamento do cérebro e da sua complexidade. Um computador não tem nada a ver com sinapses nem neurónios. Ponto final. E também não se entende como é que vai ser possível ligar os cérebros sem um colapso geral. É que já bastam os nossos problemas interiores. Quanto mais aturar os dos outros. Contudo: acerta numa coisa. A velocidade a que a informação vai girar. Falei, no artigo anterior, da Lei de Moore: a tecnologia duplica de potência de dois em dois anos e a chamada disrupção tecnológica e, por isso, social acontecerá cada vez mais com mais força e rapidez. E, nisso, tem razão: vai ser muito difícil percebermos o que estará a acontecer.Se é que já não percebemos.

O que interessa perceber passa ao largo de muita gente. Os Mão Morta, grupo musical bracarense, não podia estar tão avançado e tão certo em 1997, quando lançou o álbum “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável”, com o tema “Aldeia Global” em que o refrão era o seguinte:”É a Aldeia Global: explicam num júbilo imbecil, prontos a destilarem um rosário das maravilhas dos novos tempos, sem discernirem que “aldeia” sempre foi sinónimo de isolamento e conformismo,de mesquinhez, aborrecimento e mexericos e de que qualquer modo o que verdadeiramente importa se mantém secreto. O que importa é saber onde raio se encontra o poder!

Com a era da desinformação – e, por causa dela, da confusão mental – os psicoterapeutas esfregarão as mãos pelos seus aumentos de poder. Vaticina-se toda uma panóplia de distúrbios psicológicos. Muitas pessoas terão que se dirigir a consultórios de psicoterapeutas para aprenderem a lidar – se lidarem – com a multiplicação tecnológica que surgirá nas próximas décadas e a alienação que se poderá produzir a partir daí.

Eis, então, a minha música, a minha poesia, o meu antidoto e, também, um pouco do meu veneno: do que precisamos, portanto? De menos leitura mas com mais qualidade. De um serviço educativo que impulsione os jovens a olharem a sociedade em que estamos a entrar de soslaio, com distância e desconfiança. Para nos podermos defender dos propagandistas do MIT e de outras conveniências culturais e económicas actuais. Precisamos, para isso, de tempo. De encontrar espaços de silêncio. Para que se possa, também, escrever demoradamente. Lareira – se estivermos no inverno -, um livro e um bom copo de vinho. Parar. Andamos demasiado fascinados com o futuro. E, por isso, demasiado obcecados connosco próprios. Regressemos, portanto, à filosofia.


Página 23

O novo site sobre jornais, informação, comunicação e educação para os média do meu grande amigo Eduardo Jorge Madureira Lopes

 

http://pagina23.pt/?fbclid=IwAR37bwAEUeNun0IYGXdXNWIloOKhPsBTevjuLHu6JEWfit8lTP39sWKg3NU


A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.


“Transparência”: A Era do Voyerismo

Existe um determinado ambiente – que a tem tornado cada vez menos diversificada – que se vem estendendo a vários domínios da indústria mediática e televisiva. Predominam os voyerismos. Desde o inaugural, embora muito “virgem” para o panorama actual, Big Brother que se generalizaram, e “sofisticaram”, todo um naipe de “conteúdos” que, apesar de serem bem preparados, nos querem fazer crer que mostram uma suposta realidade humana. Existe uma pretensão: parece que, nesta época de “transparência” e de rara confidencialidade, nos “temos” de “observar”, continuamente, uns aos outros. Experienciamos, através do visionamento de uma série de “produtos” – que, com pequenas variações, parecem, de facto, montados em cadeia -, a ilusão de entrarmos em contacto com o ser humano como ele “realmente” é. Dando-nos, assim, uma, já não rara, oportunidade para podermos fazer todo o tipo de comentários sobre os intervenientes. Contudo: em circunstâncias bastante condicionadas. O Homem, naturalmente, já representa. Ele é, de forma inconsciente ou consciente, uma espécie de avatar – para utilizar, aqui, o jargão em voga – ambulante. Mas para poder “vencer” e não ser expulso: põe-se bem controlado. Bem comportado. De certa forma: “aprisionado”. Limitado por directrizes internas. Por um guião meticulosamente projectado para cada uma das emissões. Pelas múltiplas câmaras que são estrategicamente colocadas nos vários cantos da “casa”, da “quinta” ou do “bar”. Através da “reality tv” nunca sabemos, ao certo, onde pára a verdade. Cada um dos, meticulosamente escolhidos, concorrentes utiliza um tipo de imagem – até cair – que deseja projectar para o “exterior”. É competição que se extrema. Que entrou, posteriormente, noutros campos “comunicacionais”. As redes sociais amplificaram este novo género de controle civilizacional. E, talvez por isso, multiplicam-se os perfis que nem sempre correspondem à “realidade” de cada um dos usuários. A espionagem global arranja, deste modo, alguns anti- corpos. Mas se nos confiscamos, agora mais afincadamente, uns aos outros: porque deixaria um estado, ou uma qualquer empresa do sector tecnológico, de o fazer? Foi este o golpe de génio. Dando-nos as “armas” para que nos posicionemos no mesmo nível de comportamento social: não nos poderemos queixar de práticas “superiores” de intrusão. Se “eles” o fazem: nós também. Se nós fazemos: “eles” abusam.


Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.


A Atitude “Literária” (A Poesia “Contra” o Número)

The Harbor At Odessa On The Black Sea

Ora: existem, pelo menos, duas hipóteses. Ou desejamos ser “sãos”, “objectivos”, “pós- modernos” e, por essa razão, mais ou menos ignorantes…ou andamos, caminhando por uma fina corda bamba, balançando, como se fôssemos imortais, por cima do abismo. Acontece que, apesar da existência deste – e se tivermos a coragem necessária para o ultrapassar -, é bem possível que reencontremos uma mina de possibilidades para o futuro. Novamente complexas. Mas, também por causa disso, mais poéticas. Procurar o “conhecimento” segundo algumas das “directivas” do momento presente é mais ou menos a mesma coisa, apesar de toda a abundância – principalmente devido a toda a “abundância” -, que ver a realidade através de uma lente, um microscópio ou um qualquer manipulador de imagem: afunila. Muitos efeitos. Mas não se vislumbra o essencial: a espinha dorsal. A repescagem de uma “atitude literária” talvez signifique o recomeço – depois do “fim da história” – da pintura do quadro humano. Em direcção ao futuro. O presente não pode radicar, unicamente, no “tudo vale o mesmo” contínuo. Tal equivale a nadarmos, mais ou menos perdidos, em redemoinhos individuais. Reencontrarmos uma selecção contextualizante e exigente – menos isoladora; menos “anárquica” -, para o tempo presente, é, pelo contrário, mergulharmos num oceano repleto de flora e de fauna por explorar. Redescobrirmos um tesouro perdido – a consistência – pode levar, não ao “reaccionarismo”, mas a uma reelaboração. Que, como uma fisga, nos lance definitivamente numa nova direcção. Contrariamente a algumas teorias afectas à tecno- ciência: qualquer “salvação” não pode ser feita com vista a uma fuga da humanidade por ela própria. Nisto: não há nada de mais conservador que o tempo presente. A tecno- utopia informativa, para já, é completamente “cristã”.


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