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A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.


“Transparência”: A Era do Voyerismo

Existe um determinado ambiente – que a tem tornado cada vez menos diversificada – que se vem estendendo a vários domínios da indústria mediática e televisiva. Predominam os voyerismos. Desde o inaugural, embora muito “virgem” para o panorama actual, Big Brother que se generalizaram, e “sofisticaram”, todo um naipe de “conteúdos” que, apesar de serem bem preparados, nos querem fazer crer que mostram uma suposta realidade humana. Existe uma pretensão: parece que, nesta época de “transparência” e de rara confidencialidade, nos “temos” de “observar”, continuamente, uns aos outros. Experienciamos, através do visionamento de uma série de “produtos” – que, com pequenas variações, parecem, de facto, montados em cadeia -, a ilusão de entrarmos em contacto com o ser humano como ele “realmente” é. Dando-nos, assim, uma, já não rara, oportunidade para podermos fazer todo o tipo de comentários sobre os intervenientes. Contudo: em circunstâncias bastante condicionadas. O Homem, naturalmente, já representa. Ele é, de forma inconsciente ou consciente, uma espécie de avatar – para utilizar, aqui, o jargão em voga – ambulante. Mas para poder “vencer” e não ser expulso: põe-se bem controlado. Bem comportado. De certa forma: “aprisionado”. Limitado por directrizes internas. Por um guião meticulosamente projectado para cada uma das emissões. Pelas múltiplas câmaras que são estrategicamente colocadas nos vários cantos da “casa”, da “quinta” ou do “bar”. Através da “reality tv” nunca sabemos, ao certo, onde pára a verdade. Cada um dos, meticulosamente escolhidos, concorrentes utiliza um tipo de imagem – até cair – que deseja projectar para o “exterior”. É competição que se extrema. Que entrou, posteriormente, noutros campos “comunicacionais”. As redes sociais amplificaram este novo género de controle civilizacional. E, talvez por isso, multiplicam-se os perfis que nem sempre correspondem à “realidade” de cada um dos usuários. A espionagem global arranja, deste modo, alguns anti- corpos. Mas se nos confiscamos, agora mais afincadamente, uns aos outros: porque deixaria um estado, ou uma qualquer empresa do sector tecnológico, de o fazer? Foi este o golpe de génio. Dando-nos as “armas” para que nos posicionemos no mesmo nível de comportamento social: não nos poderemos queixar de práticas “superiores” de intrusão. Se “eles” o fazem: nós também. Se nós fazemos: “eles” abusam.


Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.


A Atitude “Literária” (A Poesia “Contra” o Número)

The Harbor At Odessa On The Black Sea

Ora: existem, pelo menos, duas hipóteses. Ou desejamos ser “sãos”, “objectivos”, “pós- modernos” e, por essa razão, mais ou menos ignorantes…ou andamos, caminhando por uma fina corda bamba, balançando, como se fôssemos imortais, por cima do abismo. Acontece que, apesar da existência deste – e se tivermos a coragem necessária para o ultrapassar -, é bem possível que reencontremos uma mina de possibilidades para o futuro. Novamente complexas. Mas, também por causa disso, mais poéticas. Procurar o “conhecimento” segundo algumas das “directivas” do momento presente é mais ou menos a mesma coisa, apesar de toda a abundância – principalmente devido a toda a “abundância” -, que ver a realidade através de uma lente, um microscópio ou um qualquer manipulador de imagem: afunila. Muitos efeitos. Mas não se vislumbra o essencial: a espinha dorsal. A repescagem de uma “atitude literária” talvez signifique o recomeço – depois do “fim da história” – da pintura do quadro humano. Em direcção ao futuro. O presente não pode radicar, unicamente, no “tudo vale o mesmo” contínuo. Tal equivale a nadarmos, mais ou menos perdidos, em redemoinhos individuais. Reencontrarmos uma selecção contextualizante e exigente – menos isoladora; menos “anárquica” -, para o tempo presente, é, pelo contrário, mergulharmos num oceano repleto de flora e de fauna por explorar. Redescobrirmos um tesouro perdido – a consistência – pode levar, não ao “reaccionarismo”, mas a uma reelaboração. Que, como uma fisga, nos lance definitivamente numa nova direcção. Contrariamente a algumas teorias afectas à tecno- ciência: qualquer “salvação” não pode ser feita com vista a uma fuga da humanidade por ela própria. Nisto: não há nada de mais conservador que o tempo presente. A tecno- utopia informativa, para já, é completamente “cristã”.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada ( Versão para o Jornal i)

Publicações e debates, sobre a “sociedade da informação”, “atrasaram-se” em investigação. Apesar da melhoria no último ano, devido ao caso Snowden , a “discussão” foi conduzida como uma “veneração”. Imperava o “guru da comunicação”: o “optimismo” sobre um paradigma “paradisíaco” que a tecnologia, por si, alcançaria. Parecia, por vezes, uma “seita” em construção. O “panfleto” era quase sempre o mesmo: “o mercado dos gadgets conduz- nos a uma democratização da mensagem”. Mantra que foi emulado, nas redes sociais, por um usuário mais absorvido por questões económicas nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros factores, ignorados pelo cidadão na veloz troca de informação, estão a remodelar o estilo de vida com uma rapidez difícil de descortinar pelos média, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. Existem exemplos. Como os livros de Nicholas Carr ou de Evgeny Morozov. Mas é pouco. Nada disto é novo: o século XIX, com a revolução industrial, assistiu a crença similar. Que se desvaneceu quando se viram as consequências que a tecnologia também trouxe: poluição, duas guerras mundiais ou as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O determinismo científico esquece, facilmente, que o homem não é só Sapiens: é Demens. A “democracia digital”, possibilitadora da difusão da mensagem por parte dos cidadãos, é real. Mas a questão não pode ser colocada, apenas, desta forma. Se se pretende, apenas, a inclusão: pouco é questionado subjectivamente. Porque, contra a narrativa do mercado tecnológico, opiniões divergentes são olhadas de soslaio. E “se pouco é questionado” relativamente ao paradigma comunicacional: não estamos numa democracia social. Mas num igualitarismo de tipo novo: transnacional. Questões que podem ser colocadas não são novas. Foram “esquecidas” neste século. Mas debatidas em obras de filosofia no século XX. O Estaleiro Cultural Velha- a- Branca, de Braga, com um debate conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho no passado dia dois de Maio, evitou o que referi anteriormente. Abordou a história da fotografia para questionar a banalização da cultura da imagem no discurso colectivo e a tendência do momento: o selfie. “Pormenor” que se transcende ao atravessar o espectro informativo: o rápido post “noticioso”, o vídeo de “cinco minutos” para que tenha “mais visualizações” ou a “adolescência” de muito do “jornalismo- cidadão”. Interessa a rápida exposição: o “eu” é a mensagem. O que arrasta consequências ao nível do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem vale o mesmo”: que caminho seguir num cenário de crise económica e social? Precisamos de interpretação. Nada disto traria problemas se não ofuscasse a especialização e a qualidade que a costuma acompanhar. O que passa a “interessar” não é, exactamente, a “cultura”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. Mas talvez seja cedo. Existem épocas de retracção. Nada é certo. Nada é eterno. Precisamos, por vezes, de parar: assistir sem “fotografar”. Pensar. “Fotografar” a seguir.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada

Uma grande parte dos jornais, das publicações que não são académicas – e estas são cada vez menos -, dos sítios na internet e dos debates internacionais, no que respeita à perpétua discussão que é feita, há anos, sobre a construção da desejada “sociedade do conhecimento” e da “sociedade da informação”, “atrasaram-se”, a meu ver, em termos de um trabalho analitico e de investigação. Ou seja: evitaram uma necessária “dissecação”. Apesar de uma melhoria no último ano, devido ao caso das escutas denunciado por Edward Snowden , no que se refere a uma maior quantidade e qualidade de artigos publicados em sítios mais ou menos especializados: o debate continua, tendencialmente, a ser conduzido – e, por isso, reduzido – tendo em vista uma espécie de “veneração” que parece ser indispensável ao espírito económico e ideológico do tempo. Mas abundavam, exceptuando crónicas de autores “isolados”, apenas o fervor, o “optimismo”, a publicidade mascarada e, principalmente, as press- releases sobre um suposto novo paradigma em direcção a um qualquer paraíso que a tecnologia, por si só, iria pelos vistos alcançar. Imperava, essencialmente, o discurso de “mercado”, do “guru” da comunicação a pedir atenção mediática ou 20 minutos num dos palcos da TED Talk: o actual vendedor de ilusões. Estava quase sempre ausente o contra- ponto visionado ou textualmente publicado. O que, não raras vezes, transmitia o aspecto de que existiria uma nova “seita” em formação com toda uma “longa cauda” de seguidores, clones e repetidores. O panfleto era, quase unicamente, o mesmo: “a proliferação do mercado dos gadgets electrónicos conduz- nos a uma democratização da mensagem: fotográfica, jornalística, cinematográfica ou literária”. Mantra que, após ter sido insistentemente propagandeado por todo o tipo de representantes de empresas da área da tecnologia digital e dos blogues que lhes estão directamente ou ideologicamente associados, é agora emulado, a julgar pela “informação” que é partilhada diáriamente através das redes sociais por um consumidor intencionalmente, ou não, desatento mas principalmente absorvido por questões económicas e nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros aspectos importantes, sobre as estruturas e tendências digitais, são constantemente ignorados pelo cidadão “comum” na sua veloz troca de informação, de cartazes feitos no Photoshop com provérbios descontextualizados ou dezenas de fotografias de recém- nascidos. O problema é que são matérias que não versam pontos exclusivamente “digitais”. São complexas, essencialmente sociais e estão a remodelar o nosso estilo de vida a uma velocidade difícil de descortinar por todos nós, por uma comunicação social desatenta por se encontrar em constante competição, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. O que se reflecte numa rara produção crítica quando sobre eles resolvem “avançar”. Os exemplos, de qualquer forma, existem. Como as obras “Experimentum Humanum” de Hermínio Martins, “Crise no Castelo da Cultura” de Moisés de Lemos Martins, “Os Superficiais” de Nicholas Carr ou o incansável trabalho de Evgeny Morozov através de conferências ou da publicação de livros como “The Net Delusion” e “To Save Everything, Click Here”. Mas, dada a enorme torrente de questões que os nossos dias anunciam, é muito pouco.

Nada disto é inteiramente novo. O século XIX, com a revolução industrial a decorrer, a invenção do comboio eléctrico, o telefone ou o telégrafo, assistiu a um género similar de “efervescência”, de crença utópica no “futuro” e na “conectividade” entre os homens. O que só os iria aproximar. Contudo: a miragem foi rapidamente posta no lugar que lhe competia quando se verificaram muitas das consequências que a tecnologia também trouxe ao século XX: uma poluição ambiental cujo máximo estamos neste momento a presenciar, duas guerras mundiais, as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki e vários tipos de genocídios que não pararam de ocorrer até aos dias de hoje. O determinismo científico esquece, muito facilmente, que o ser humano não é só Sapiens. Também é Demens: muito pouco controlável.

De qualquer forma: a “democracia digital”, enquanto possibilitadora de uma difusão, exposição e publicação de uma mensagem que era anteriormente inacessível à maior parte dos cidadãos, não deixa de ser verdadeira. Mas colocadas as questões, simplesmente, desta forma: o assunto parece ficar arrumado. Devido, essencialmente, a um aspecto delicado. Se o que se pretende é, principalmente, a inclusão e a “democratização”: pouco, a partir daqui, poderá ser questionado a um nível subjectivo. Porque, contra a “ditadura” da narrativa redutora do mercado tecnológico digital e da maioria consumidora que lhe está associada, a dissidência e as opiniões divergentes são olhadas de soslaio. Não são censuradas nem são proíbidas. São apenas ignoradas. E “se pouco pode ser questionado” devido a uma quase “invisibilidade” da pergunta incómoda relativamente ao frenético paradigma comunicacional do momento: não é propriamente uma democracia social real, relativamente às questões aqui apresentadas e por muitas “partilhas” que façamos, aquilo que estamos a atingir. Mas, pelo contrário, um igualitarismo e uma massificação de tipo novo. Por ser transnacional. Que engloba, conectando-as, cada vez mais franjas populacionais. Calando-as. Levando-as, devido a uma questão de inclusão, à auto- censura. São movimentos que nascem do standardizado – quase “programado” – discurso ideológico- económico dos “gigantes do digital”. Dos “corredores” filosóficos e políticos de Sillicon Valley. O nosso país, exceptuando casos pontuais, quase não ofereceu, até agora, evolução. Mas, aqui, também relativamente aos meios de comunicação social. A maior parte das publicações continua a ignorar uma série de questões que são, cada vez mais, debatidas “lá fora”. Que não constituem problemas de “futuro” porque o império único da propaganda faz parte do passado. Por outro lado: as perguntas que, a partir de agora, poderiam e podem ser formuladas não são inteiramente novas. Foram, apenas, temporariamente e convenientemente esquecidas neste princípio de século. Muitas delas foram debatidas em obras de filosofia da ciência e da tecnologia no século XX. Precisamos, por isso, de um novo espírito de inovação que faça frente ao conceito de “inovação” simplista de Sillicon Valley. Para que haja, outra vez, menos certezas absolutas, menos vontade de determinismo. Mais dialéctica. Mais História. Para uma nova e urgente integração.

“Integração” que foi atingida no que relato a seguir: O Clube de Fotografia do Estaleiro Cultural Velha- a- Branca na cidade de Braga, através de um debate que teve lugar no passado dia dois de Maio e que foi conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho, teve a capacidade de inverter a situação e escapar, de forma brilhante, ao que referi em todas as linhas anteriores. Ali: existiram perguntas a serem colocadas e um público jovem que estava, contra todas as generalizações geracionais, aberto ao que estava a ser dito. O encontro começou por versar, resumidamente, o significado histórico e o propósito da fotografia para, aproveitando o “gancho”, questionar o seu estado na sociedade actual: da cultura da imagem à sua entronização no discurso colectivo e, daqui, em direcção à multiplicação, à consequente banalização e, então, a uma das tendências mundiais do momento que é, talvez, o seu ponto mais baixo: o selfie.

Contudo: a discussão acerca do “pormenor” fotográfico transcende-o. Serve de ponto de referência e de espelho a uma máquina mutacional muito maior que atravessa todo o espectro informativo e cultural global: o selfie assume múltiplas formas, mais ou menos encapotadas à primeira vista e encontrando- se, neste momento, em quase todo o lado: no rápido post “noticioso”, no vídeo ou “conteúdo”, de “cinco minutos”, colocado em plataformas como o You Tube para que “possa ter um maior número de visualizações” ou na impulsiva adolescência de muito do que se resolveu apelidar de “jornalismo- cidadão”. Interessa, portanto, a rápida exposição.  De preferência: sem esforço. O “eu” passou a ser a mensagem. O que se poderia dizer passa a segundo plano. Mas ele encontra-se também em fenómenos de audiência televisiva como as inesgotáveis e múltiplas variantes de reality shows ou na proliferação de revistas “cor de rosa” que, na última década, ultrapassaram uma linha vermelha através de uma contínua exploração emocional de “vedetas” onde já não se consegue distinguir o que é realidade do que é telenovela, o que é aproveitamento do que é voluntarismo do actor “para que possa atingir um “valor de mercado”. O que arrasta, inevitavelmente, consequências sociais ao nível político e do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem passou a valer – e a vender – o mesmo”: que caminho seguir, em termos civilizacionais, num cenário de crise económica e financeira? Já o escrevi anteriormente: precisamos de focos de luz. Precisamos de interpretação. Necessitamos de contexto. Onde se encontrem perguntas que interessam.

A inclusão cada vez maior das “margens” – como sinónimo das camadas de uma população que antes do advento da internet não tinha acesso à exposição mediática – não traria problemas se tal não originasse a ofuscasse a especialização e uma certa qualidade superior que a costuma acompanhar. A duração, a originalidade, a dificuldade e a qualidade são preteridas em favor de um “mercado” rápido e precário numa progressão galopante em direcção a uma espécie de ultra- simplificação do discurso. O que passa a “interessar”, em primeiro lugar, não é, exactamente, a “cultura” e o “conhecimento”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. O que esbate e relativiza, em sentido negativo, a importância e a visibilidade do questionamento.

Contudo: talvez seja cedo. Talvez as ilusões se desmoronem à mesma velocidade com que se criou a utopia ou com a rapidez com que vão à falência as empresas da área do digital. A história, como foi aliás salientado no debate anteriormente mencionado, prova-nos que existem sempre movimentos de retracção. Nada é certo e nada é eterno. Mas para que a história nos mostre isso: precisamos de estar atentos. Para tal acontecer: precisamos, de vez em quando, de pousar o smartphone. Pensar. Assistir sem “fotografar”. Pensar. Para “fotografar” a seguir.


Subserviência Jornalística e “Transparência Total” (Do Medo do Elitismo III)

Uma das características mais vincadas da ideologia comunicacional e civilizacional actualmente em formação é a disseminação invulgarmente rápida, aceite e pouco discriminada de um vago conceito, mas bastante alargado, de “transparência” social. Tem “contaminado” inúmeros sectores. O auto- denominado “jornalista” Julian Assange, por exemplo, defende-o relativamente a todo o tipo de empresas, instituições políticas e económicas. O que constitui flagrante contradição. Porque o evita quando se trata da organização da qual foi fundador: a WikiLeaks. Muitas das corporações e personalidades que tentam promover esta noção são, aliás, mestres da opacidade. Mark Zuckerberg, um dos criadores da standardizadora e monopolista rede social facebook, chegou a afirmar, no ano de 2010, numa entrevista de seis minutos – seis – dada a Michael Arrigton, o fundador norte- americano do conhecido blogue TechCrunch, que a “época da privacidade acabou”: “uma mudança de privacidade para 350 milhões de usuários não é o género de coisas que a maioria das empresas faria. Mas vimo-lo como algo muito importante. Tentamos manter uma mentalidade de principiante e perguntamo-nos o que faríamos se começássemos a empresa neste momento. Decidimos – atenção à determinação que estas seriam as normas sociais”. Ou seja: exactamente o contrário do que tinha dito, dois anos antes, a Marshall Kirkpatrick, o CEO da empresa Little Bird: “privacidade é o vector em roda do qual o facebook opera”. A justificação, segundo foi avançada pelo actual representante da rede social Pinterest, Barry Schnitt, que também foi director do facebook, é a de que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”. Falam e decidem, portanto, como se a noção de responsabilidade pessoal, em todo o processo, lhes fosse alheia. A recolha de dados pessoais privados, entretanto e a nível internacional, tem- se normalizado. Com a nossa desatenção e conivência: segundo uma sondagem, conduzida pelo Pew Research Center em colaboração com o jornal Washington Post, 56 % dos norte- americanos considera ser aceitável o acesso da NSA (Agência Nacional de Segurança) aos registos telefónicos de milhões de cidadãos sem prévio conhecimento. Como forma, claro e como sempre, de “combate ao terrorismo”. E 45 % dos inquiridos admite que o governo deve estender a prática à actividade de todas as pessoas que usam a internet. Os documentos revelados por Chelsea Snowden mostram-nos que os dados são recolhidos através de empresas de telecomunicações como a Verizon. Mas, adicionalmente, através da Microsoft, da Apple, da Google, do Skype ou do facebook. A grande surpresa vem, de qualquer forma, do lado da França. Que, desta vez, evita a habitual posição de resistência face aos Estados Unidos da América. Segundo o título de um artigo, de Maria João Guimarães, disponibilizado no sítio do Público no passado dia 12 de dezembro de 2013: “França aprova espionagem na internet sem necessidade de autorização e em tempo real”. Os serviços de informação e “segurança” franceses terão, assim, acesso à localização e aos conteúdos das comunicações feitas entre os usuários: sem necessidade de autorização judicial. Ainda segundo o artigo: a monitorização alcançará computadores, tablets ou smartphones. Terão acesso aos dados a “polícia, a guarda nacional, agências de informação e de anti- terrorismo, o ministério da defesa, do interior ou o das finanças. O diário francês Le Monde já tinha lançado o alerta: as operações levadas a cabo pelos serviços de informação do país (DGSE) são “…fora da lei e sem qualquer supervisão adequada…;…qualquer pessoa pode ser espiada, em qualquer altura.”

Os grupos de discussão que proliferam através da internet não parecem querer escapar a esta nova, veloz, alarmante e acrítica transmutação de valores morais que parecia inconcebível há poucos anos atrás. Está, portanto, “tudo” em aberto. Relativamente ao jornalismo: não é apenas com o “livro de estilo”, que tem sido progressivamente “moldado” conforme conveniências comerciais momentâneas, ou com o código deontológico que uma parte dos “profissionais” se deixou de preocupar. Em grande parte dos comentários que se podem encontrar nos fóruns de discussão: o antigo “império” – anterior “quarto poder” -, em nome de uma forçada “democracia digital” na qual tudo se parece equivaler, auto- destrói- se. Para não ser “acusado” de “elitismo”: deseja destruir-se. Para que se possa sentir aceite e integrada: é “classe” que já o não deseja ser. Para não afastar leitores ou não “ofender” o “jornalista- cidadão” – como se o jornalista profissional não fosse, ele próprio, um “cidadão” – com o seu mais recente I- Pad ou smartphone na mão: expõe-se, escreve mal e distribui todo o género de tweets “opinativos”. Indo de encontro ao impulso e à conversa que, anteriormente, se ficava, elegantemente, pelo escritório. Pela “mesa de café”. A “internet”, como a economia, que se “auto- regule”. As portas estão, portanto e a partir deste momento, “escancaradas“. Para que tenhamos acesso directo a um making- of. Ao “espectáculo” de uma “dissecação”. Onde prolifera, não raras vezes, o insulto. Não apenas durante a “conversa” que deveria dizer respeito exclusivo ao sector. Mas também em matérias de índole privada e pessoal. Poderiamos afirmar: existe, aqui, qualquer coisa aproximada a um desejo em se ser observado. De actuar e querer ser parte integrante de um qualquer big brother menor. Ou, então, ainda é pura ingenuidade. Inconsciência pessoal derivada da propaganda e do “discurso de guru” que faz já parte dos primórdios da internet. Uma desistência. Ou uma vontade, propositadamente mal informada, em se ser direccionado pelo rebanho digital. Própria de uma estrutura tecno- social que, por ser tão veloz em termos de transformação e, por isso mesmo, tão lenta no que respeita à sua interpretação, nos converte a “todos”, relativamente às perguntas que deveriam interessar, em silênciosos seguidistas nos mesmos padrões morais: “A transparência !”. Estamos já demasiado inseridos. Demasiado incertos. Demasiado preocupados e atafulhados com a ideia de “inovação”: esta, monótona, expressão tão “TEDtalk” – é, de facto, demasiada “conversa” -. Demasiado receptivos a códigos que se atropelam uns aos outros – há já quem lhes chame “poesia” -. Pensando sermos perpetuamente “adaptáveis”. Como se fôssemos software: população metamorfoseada em inúmeras “aplicações” indistintas. A inquirir, quase unicamente, o que já é de fora. Terra estranha: as instituições e os modelos agora denominados – por vezes: “insultados” – como “tradicionais”.

Toda esta abertura e “transparência” é “estética” que tem vindo, também, a proliferar através da denominada “imprensa cor de rosa”. Mas, adicionalmente, em “primos” anteriormente inofensivos: as publicações sobre média e televisão que, há um par de décadas atrás, por exemplo, entrevistavam. Sem a devassa emocional que entretanto se cristalizou. Permitindo a Barry Schnitt, lá está, afirmar, então, que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”.  O “protagonista” – a “figura de capa” – já não espera, desta forma, pela pergunta. Não se defende. Tornou-se cúmplice e voluntário. E o “consumidor” – incansável voyer da “informação” -, armado com um “microscópio” e um “bisturi”, fica à espreita. Com todo o lixo e as “entranhas” a serem- lhe oferecidas de bandeja na mão. O jornalista, que esperava respeito por parte do público, acaba, deste modo, por ser o primeiro a impedi-lo. Exactamente na época em que se tenta, demagogicamente, destruir, a todo o custo, a figura do mediador cultural – o agora desprezado “middle man” – em diversas áreas. Para que se possa atingir a utópica “nivelação”.

Pergunto-me o que andam a fazer todos os profissionais que resolveram, num repente, também aderir a esta ideia de “transparência total”. Ultrapassando, não raras vezes, uma linha vermelha. Perdendo tempo, “tinta”, esforço e espaço –  público e individual – a oferecer questões privadas e matérias pessoais. Que, num mundo ideal, diriam apenas respeito a um qualquer recôndito universo interior. Mas constituem, agora, uma parte das excrecências de um planeta que se tornou e se quer ultra- mediatizado. No qual quase tudo se tenta apresentar como “informação”. Como tendo relevância pública. Ou interesse político.

Entretanto: uma grande parte dos usuários, enquanto “consumidores” não pagantes, costuma utilizar todo um leque variado de argumentação “criativa” e muito conveniente – embora nada original; é retórica copiada atrás de discurso repetido – para que, na sociedade, bastante falida, da “gratuitidade” cultural, possa, sem peso na consciência, não financiar o jornalismo – seja ele de que estilo for; de investigação ou não -, a música ou a literatura. Das quais usufrui permanentemente. Para depois, como se fizesse algum tipo de favor para lá de a si próprio, poder “partilhar”. Favorecendo uma desvantagem competitiva e, também, democrática relativamente a outros sectores e a outras profissões. Porque acredita – e, contra todas as evidências, quer, como é lógico, continuar a acreditar -, ainda, que o valor da publicidade distribuída pela internet tem sido suficiente para sustentar veículos de informação com qualidade. Que nos dignifiquem enquanto sociedade global que procura estabelecer e perpetuar um ideal democrático. Contudo: não o tem sido. E algumas das técnicas publicitárias – como a “native advertising” – ou narrativas – como a recente “experiência” Snow Fall levada a cabo pelo New York Times utilizadas como forma, desesperada, de captar a atenção do leitor só fazem o jornalista cair numa mais ridícula subserviência. Perante a quantidade e o tédio “informativo”: o consumidor exije brincar. A internet, relativamente à promessa que foi inicialmente idealizada, “faliu”. Mas uma parte da comunidade jornalistica, para além de não ter feito quase absolutamente nada, em termos “educativos”, de reportagem ou de artigos de opinião, para tentar convencer o consumidor do contrário – o que nos poderia ter conduzido a uma necessária, atempada e, pelo menos, mais independente troca de ideias e abertura de pensamento -, não conseguirá, desta forma, recuperar tão cedo a credibilidade que tem vindo a perder. O que ela procura, agora, são “novas formas de narrativa”. Favorecendo, assim, ainda mais a indiferenciação cultural promovida e desejada pelos gigantes do digital. Para que, estes sim, possam crescer. Que têm como um dos principais interesses o favorecimento de uma economia de curto- prazo – e de curto-prazo, exactamente, porque não funciona eficazmente – que promova uma espécie de “atenção desconcentrada”: a “lincagem” e o salto constante entre o texto curto “escrito para a internet” – simples e fácil de digerir -, imagens em movimento, diferentes técnicas publicitárias e o actual excesso de “info- gráficos”. Este “irmão”, menos rudimentar mas não menos infantilizador, do powerpoint.

O profissional da comunicação está, assim, mais “acessível”. O jornalismo mais “compreensível”. Para que a “realidade” se possa, mais uma vez, equilibrar. O que não chega a acontecer: o efeito pode, na realidade, ser o oposto. Por trás do discurso, da ilusão e da aparência de uma “igualdade”: o resultado é o enaltecimento do “digito”. Para que possa, desta vez, reinar o informático e a “matemática”. Dá-se, assim, força a uma diluição pretendida. Desvalorizando-se a complexidade textual e interpretativa. Este é “redemoinho” que impede um pensamento verdadeiramente distanciado sobre a profissão. Submersos – e nadando mal -, na Matrix“, como estamos: como separar águas? Não estamos a facilitar a vida ao historiador do futuro. Para encontrar o que verdadeiramente importa: ele precisará das mais pesadas botijas de oxigénio. Para descobrir uma âncora que nos valha. A nós: “…the people”.

Mas que podemos, afinal, contra uma economia que falha? E o “valor de mercado”? Esse avatar em que estamos, para já, transformados. Tudo isto, de qualquer forma, é presente. Chegará o tempo em que o próprio informático terá que começar a olhar por si. Que se defenda – e nos defenda -, nessa altura, relativamente ao que ajudou a construir. Ou então: que esqueça tanto determinismo e chame, mais uma vez, pelo nome das ciências sociais e humanas. Aí sim: para uma verdadeira nivelação.


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