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A Azáfama

Com tanta confusão e tão doida aceleração,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
É a “aldeia global”, uma entropia cabal,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
As crianças com um I-Pad, o tempo no smartphone que fede,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
É a música nos elevadores, a fuga a tantos amores,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
Uma rave na tecnolândia, na demanda por paixão cândida,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR,
As televisões na sua azáfama, a calar imaginação que é agora anátema,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
A procura de “informação”, esse vil alçapão,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR
Cada vez mais notícias, fake news e falácias,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
Enfim…,
Não há tempo para amarconsciencia


Os Superficiais

 

Diz Irenu Au da Google ( segundo o livro “Os superficiais” de Nicholas Carr):” Nosso objectivo é fazer com que nossos usuários entrem e saiam – dos sites – realmente rapidamente. Todas as nossas decisões de design são baseadas nessa estratégia”. Portanto, como se deve depreender não é o interesse pela leitura que move a empresa. Pelo contrário. O que interessa é a velocidade de clicks para que possam ganhar os absurdos lucros que a empresa obtém anualmente. Por causa dessa mesma velocidade os humanos perdem capacidade de concentração. O que não é bom para a leitura. Quanto mais para a aprofundada.


Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.


A Importância da Interpretação e do Contexto no Jornalismo Cultural

Uma das capacidades que mais admiro, nos outros, em época de “postagens”: a de se tentar escrever bem. Para que eu próprio possa ousar, experimentando, evoluir. Contudo: também, simplesmente, a de se tentar escrever. Evitando o texto curto: uma das “doenças” deste século, devido ao excesso, à qual também não escapo de vez em quando. Trata-se de uma luta cultural e civilizacional. De um problema de contaminação habilitado por uma teimosia constante e habitual: a “eficiência” tecno-económica. Dou como exemplo contrário: a aptidão para se pegar numa só foto, como fez Roland Barthes, e de a conseguir dissecar. Como, aliás, o autor o relatou através do livro “A Câmara Clara” que foi editado no ano de 1980. Não constitui tarefa fácil. Passa-se o mesmo relativamente ao cinema: assistirmos a um filme, em sala – para o sentirmos melhor -, e, depois de o deixarmos cerca de uma semana em “pousio” – interior -, a “marinar” e a amadurecer, convertê-lo num texto que caiba, ainda , em página inteira. Como continua a fazer, para nos referirmos apenas ao território nacional, o semanário Expresso pelo menos de vez em quando. Como deixou o diário Público de os disponibilizar há já algum tempo devido a inúmeros factores – e, aqui, a falta de espaço não é dos menores -. Reduzindo, desta forma, a interpretação e o contexto histórico- cinematográfico a umas magras colunas que, apesar de regularmente bem escritas, têm, agora, de se fazer valer através de um estilo mais condensado. Tenho pena. Costumava ser um hávido consumidor de artigos jornalisticos que lhe eram relativos. As interpretações sempre me fascinaram. Por muito distantes, em termos de imaginário simbólico e linguístico, que se encontrem umas das outras. Nisto: o já falecido João Bénard da Costa era rei. Escrevia, sobre filmes, como se pintasse uma tela. Davam-lhe espaço para o fazer. E o sentido, a procura de um sentido que Bénard parecia exigir extrair através do uso de uma palavra quase musicada, só poderia ser conduzido dessa forma. Não interessa, para esta crónica, se existem blogues mais ou menos especializados e direccionados para o tema com textos de igual ou de superior qualidade. A imprensa generalista, com todos os seus suplementos culturais, continua a  representar um outro papel social. Não deveria, por isso, continuar a ser desprezada, como o é actualmente, por constituir uma espécie de aparência, física, real ou imaginária – sublinhando: muitas vezes imaginária; a democracia igualitarista precisa de “inimigos” – aos olhos dos cidadãos de poder e de “controle”. Pura e simplesmente porque, no que respeita à comunicação, quase tudo representa luta, poder e combate cultural. Tentação que, obviamente, não escapa aos inúmeros tweets, blogues e start-ups de cariz informativo – e desinformativo – que são criados diáriamente. A “sociedade reticular”, neste aspecto, aumentou a competição mas, adicionalmente, o nível de paranóia social relativamente ao que é dito e ao que é escrito: pelo outro. A imprensa generalista, nas mãos certas, continua a ser necessária. Apesar de todos os problemas que tem enfrentado em termos económicos e sociais para que nos possa continuar a indicar caminhos de reflexão comuns. Continua a constituir um ponto de encontro necessário que une e concentra visões, um pouco mais gerais, da realidade. Evita o estilhaçamento de vontades comunicativas sem, contudo, acabar com elas. Impede, um pouco, um género de “autismo” muito contemporâneo: o isolamento social favorecido pela tendência para a “personalização” de “conteúdos”. Alguns, nesta fase em que quase tudo parece significar “elitismo”, teriam a tentação de apelidar esta posição que defendo como “tendência para o controle”. Existe, contudo, uma outra que vai para além desta generalização: uma ultra- valorização do individual em detrimento daquilo que se teima em apelidar, estigmatizando, de “jornalismo tradicional”. Como se este último precisasse de desaparecer em nome dos múltiplos interesses da filosofia concentracionária da oligarquia digital. É jornalismo a tentar ser o que sempre foi: ponto final. Esta posição bastante radical tem incentivado – e criado – o empolamento, não apenas do que se convencionou chamar  de “jornalismo- cidadão” – que pode ser também uma forma de exploração -, do “narcisismo- cidadão”: em direcção ao selfie, ao império da velocidade, da facilidade e da quantidade. Em última análise e em termos gerais: à falta de qualidade informativa, jornalistica e literária. Interessa dar voz à “maioria” em nome de um precário comércio digital. Contudo: somos, agora, mais prisioneiros das estatísticas. Mais escravos das “citações” para nos tornarmos visiveis em motores de busca. Do número de visitas por página. Para tal acontecer: a “classe média informativa” transmutou-se numa espécie de obstáculo a eliminar. As perguntas que mais interessam, sobre o poder, deixam, por isso, de se fazer com a mesma insistência e pormenor. Muito nos começa a passar ao lado. Deveria, por estas razões, continuar a existir um espaço para todos. A análise e a crítica, exigente e profissional, têm sido desvalorizadas por vivermos e defendermos, actualmente, um ecossistema económico- digital “infestado” por “comentários”, “comentadores” e todo um conjunto de ansiosos por veículos publicitários como são as conferências TED Talk. Tentando-se degradar, para que tal seja possível, o que aparenta vir de cima. Mudanças sociais que se tornam insuficientes para uma conveniente – ou inconveniente – compreensão histórica, artística, literária, jornalistica, musical e cinematográfica. Novamente no que se refere a esta última área – poderia utilizar outras para servirem de exemplos mas parece-me suficiente nomear, pelo menos para já, apenas uma – : navegamos, hoje em dia, sofregamente por sítios infestados de cartazes com filmes principalmente americanos: os de terror, as comédias românticas e os filmes de acção. O trio “paralítico” habitual que, grande parte das vezes, é-nos oferecido como se fosse uma espécie de pronto-a-comer sem qualquer descrição, com qualidade, que nos permita situar a obra de uma forma política, social e, por isso, temporal. Um ciclo vicioso que tem favorecido o parco interesse dado ao argumento e à realização – à autoria e ao nome do realizador – por parte de um género de consumidor, de tipo novo e coleccionista, que, acantonado no seu “nicho”, se tem habituado, progressivamente, a uma procura preguiçosa, pouco informada, fragmentada e desconexa: “vê-se o primeiro que aparecer”. Tanto nas salas que ainda resistem em centros comerciais como nos diversos sítios que proliferam pela internet. É a cara, a pose dos actores e a capa mais “atractiva” aquilo que parece interessar cada vez mais. A história do cinema como, aliás, quase toda a história, parece, actualmente, ser pouco necessária à cultura popular. “Formatar o sistema !”: repete-se, por aí, relativamente a quase tudo o que seja manifestação cultural. Mas a presente “revolução”, mais do que “digital”, é social: trata-se da construção de um estado – de um estado, semi- amnésico, de pensamento – que se deseja alheio ao “exterior” e também àquilo que lhe é “anterior”. A “mudança de paradigma”: um rompimento que, embora seja necessário em determinados aspectos, parece querer evitar, em larga escala e apesar de toda a informação e literatura, dispersa e digitalizada, um significado e o passado. É apenas uma da contradicções do presente. Continuamos, contudo, a precisar de jornais. As assinaturas nunca foram tão baratas. Entraram em espírito low- cost.


A Nossa Ilusão (Um Problema de Tradução)

Assistimos, no momento presente, a um problema de “tradução” que considero ser, tendencialmente, mais ou menos geral: muita gente a “esbracejar” dentro e fora de redes sociais. Mais do que do livro, do artigo de opinião, do “conhecimento” ou da “informação”: podemos baptizá-la, num contexto que é favorável a todo o tipo de catalogações apressadas, de “Sociedade do Comentário”. Há não muito tempo atrás, para dar um exemplo que me parece ser essencial, um tradutor de uma obra específica não teria de conhecer, unicamente, um determinado idioma na perfeição. Ele era “obrigado” a dominar o campo de estudo, a conhecer a fundo o autor a traduzir, ser mais ou menos especialista – no que isto tem de “tradicional”, “antigo” e, portanto, pormenorizado – em filologia para conseguir determinar o contexto temporal e, por isso, moral em que determinada obra, palavra ou expressão teria sido escrita. Se fosse caso disso. O que, em certa medida, “acabou”. É um género de gente que, hoje em dia, serve para “abater”: eles “pretendem” dar cabo da “democracia”: é que, agora, qualquer editora ou start- up pode, gratuitamente ou por “cinco tostões”, contratar um “chacal” que vagueie pela “China”. Isto passa-se em grande parte dos sectores comerciais: “É a crise!”. Favorece-se, para a combater, portanto: mais crise. Não admira que pouca gente se ande verdadeiramente a compreender por mais que tente “comentar” ou escrever: o “problema de tradução” – entendido aqui como “interpretação”: apenas para que na “era da transparência” e da “repulsa” pela metáfora, não sejamos tão “opacos” – tem sido contaminante. Estamos infestados de “roedores” por todos os cantos. Alguém perguntaria: “E os psicólogos? Escapam?”. Alguns – ” mas só alguns” – já conseguiram entrar no século XXI. Não é que esbracejem, como todos nós, mas, por vezes, também preferem não ouvir: o que vai dar mais ou menos ao mesmo. A cada um deles o seu livro, a sua história, a sua escola ou a sua visão. Portanto: o seu autismo. A nossa ilusão.


A Atitude “Literária” (A Poesia “Contra” o Número)

The Harbor At Odessa On The Black Sea

Ora: existem, pelo menos, duas hipóteses. Ou desejamos ser “sãos”, “objectivos”, “pós- modernos” e, por essa razão, mais ou menos ignorantes…ou andamos, caminhando por uma fina corda bamba, balançando, como se fôssemos imortais, por cima do abismo. Acontece que, apesar da existência deste – e se tivermos a coragem necessária para o ultrapassar -, é bem possível que reencontremos uma mina de possibilidades para o futuro. Novamente complexas. Mas, também por causa disso, mais poéticas. Procurar o “conhecimento” segundo algumas das “directivas” do momento presente é mais ou menos a mesma coisa, apesar de toda a abundância – principalmente devido a toda a “abundância” -, que ver a realidade através de uma lente, um microscópio ou um qualquer manipulador de imagem: afunila. Muitos efeitos. Mas não se vislumbra o essencial: a espinha dorsal. A repescagem de uma “atitude literária” talvez signifique o recomeço – depois do “fim da história” – da pintura do quadro humano. Em direcção ao futuro. O presente não pode radicar, unicamente, no “tudo vale o mesmo” contínuo. Tal equivale a nadarmos, mais ou menos perdidos, em redemoinhos individuais. Reencontrarmos uma selecção contextualizante e exigente – menos isoladora; menos “anárquica” -, para o tempo presente, é, pelo contrário, mergulharmos num oceano repleto de flora e de fauna por explorar. Redescobrirmos um tesouro perdido – a consistência – pode levar, não ao “reaccionarismo”, mas a uma reelaboração. Que, como uma fisga, nos lance definitivamente numa nova direcção. Contrariamente a algumas teorias afectas à tecno- ciência: qualquer “salvação” não pode ser feita com vista a uma fuga da humanidade por ela própria. Nisto: não há nada de mais conservador que o tempo presente. A tecno- utopia informativa, para já, é completamente “cristã”.


O Delírio de Bartleby

“Já tudo foi escrito”. Já tudo foi escrito? “Sim. É o que dizem professores de literatura, críticos e historiadores. Que já tudo foi escrito”. Realmente, na “sociedade da estatística”, não é a literatura que mais tem interessado. Mas talvez não te devas preocupar muito com os fantasmas do passado que carregas às costas. “Quais fantasmas?”. Bartleby…continuamente a desejares ultrapassar? Fazes, com isso, dois maus serviços: o primeiro a ti próprio. O segundo aos excelentes autores que não merecem a tua mediania. Contenta-te com o que tens e deixa os outros respirar. Ou preferes deixar de ler os grandes mestres para que te possam ouvir a ti? Isso está na moda. Talvez o que esteja mais na moda. Aceita que não és assim tão bom. És bom. Mas talvez não como desejarias. Tenta escrever a seguir. Existe sempre uma originalidade que podes adquirir na mistura entre o que és e tudo que leste até agora. Fundarás, com isso, uma escola pessoal. Nunca conseguirás ler todos os livros que existem e que foram escritos até agora. Isso quase em nenhuma época foi possivel e é tarefa cada vez mais complicada. De certa forma: a humanidade tem de recomeçar continuamente devido a uma certa “falta de capacidade”. “Dizem que um dia teremos os cérebros todos ligados e assim poderemos processar toda a informação”. Informação…informação. A obssessão pelo momento. O que falta é comunicação. Escreve. E deixa lá as múltiplas teorias contraditórias da tecno- ciência. Muitas delas são delírios iguais a quaisquer outros. Tu, depois de leres o jornal diário, ficas mal disposto com o que se passa entre Gaza e Israel e estás á espera que um ser humano não caia para o lado depois de uma conecção com outros cérebros? Dizes que não acreditas em histórias da carochinha: a verdade é que arranjaste uma nova. Ponto final.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada ( Versão para o Jornal i)

Publicações e debates, sobre a “sociedade da informação”, “atrasaram-se” em investigação. Apesar da melhoria no último ano, devido ao caso Snowden , a “discussão” foi conduzida como uma “veneração”. Imperava o “guru da comunicação”: o “optimismo” sobre um paradigma “paradisíaco” que a tecnologia, por si, alcançaria. Parecia, por vezes, uma “seita” em construção. O “panfleto” era quase sempre o mesmo: “o mercado dos gadgets conduz- nos a uma democratização da mensagem”. Mantra que foi emulado, nas redes sociais, por um usuário mais absorvido por questões económicas nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros factores, ignorados pelo cidadão na veloz troca de informação, estão a remodelar o estilo de vida com uma rapidez difícil de descortinar pelos média, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. Existem exemplos. Como os livros de Nicholas Carr ou de Evgeny Morozov. Mas é pouco. Nada disto é novo: o século XIX, com a revolução industrial, assistiu a crença similar. Que se desvaneceu quando se viram as consequências que a tecnologia também trouxe: poluição, duas guerras mundiais ou as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O determinismo científico esquece, facilmente, que o homem não é só Sapiens: é Demens. A “democracia digital”, possibilitadora da difusão da mensagem por parte dos cidadãos, é real. Mas a questão não pode ser colocada, apenas, desta forma. Se se pretende, apenas, a inclusão: pouco é questionado subjectivamente. Porque, contra a narrativa do mercado tecnológico, opiniões divergentes são olhadas de soslaio. E “se pouco é questionado” relativamente ao paradigma comunicacional: não estamos numa democracia social. Mas num igualitarismo de tipo novo: transnacional. Questões que podem ser colocadas não são novas. Foram “esquecidas” neste século. Mas debatidas em obras de filosofia no século XX. O Estaleiro Cultural Velha- a- Branca, de Braga, com um debate conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho no passado dia dois de Maio, evitou o que referi anteriormente. Abordou a história da fotografia para questionar a banalização da cultura da imagem no discurso colectivo e a tendência do momento: o selfie. “Pormenor” que se transcende ao atravessar o espectro informativo: o rápido post “noticioso”, o vídeo de “cinco minutos” para que tenha “mais visualizações” ou a “adolescência” de muito do “jornalismo- cidadão”. Interessa a rápida exposição: o “eu” é a mensagem. O que arrasta consequências ao nível do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem vale o mesmo”: que caminho seguir num cenário de crise económica e social? Precisamos de interpretação. Nada disto traria problemas se não ofuscasse a especialização e a qualidade que a costuma acompanhar. O que passa a “interessar” não é, exactamente, a “cultura”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. Mas talvez seja cedo. Existem épocas de retracção. Nada é certo. Nada é eterno. Precisamos, por vezes, de parar: assistir sem “fotografar”. Pensar. “Fotografar” a seguir.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada

Uma grande parte dos jornais, das publicações que não são académicas – e estas são cada vez menos -, dos sítios na internet e dos debates internacionais, no que respeita à perpétua discussão que é feita, há anos, sobre a construção da desejada “sociedade do conhecimento” e da “sociedade da informação”, “atrasaram-se”, a meu ver, em termos de um trabalho analitico e de investigação. Ou seja: evitaram uma necessária “dissecação”. Apesar de uma melhoria no último ano, devido ao caso das escutas denunciado por Edward Snowden , no que se refere a uma maior quantidade e qualidade de artigos publicados em sítios mais ou menos especializados: o debate continua, tendencialmente, a ser conduzido – e, por isso, reduzido – tendo em vista uma espécie de “veneração” que parece ser indispensável ao espírito económico e ideológico do tempo. Mas abundavam, exceptuando crónicas de autores “isolados”, apenas o fervor, o “optimismo”, a publicidade mascarada e, principalmente, as press- releases sobre um suposto novo paradigma em direcção a um qualquer paraíso que a tecnologia, por si só, iria pelos vistos alcançar. Imperava, essencialmente, o discurso de “mercado”, do “guru” da comunicação a pedir atenção mediática ou 20 minutos num dos palcos da TED Talk: o actual vendedor de ilusões. Estava quase sempre ausente o contra- ponto visionado ou textualmente publicado. O que, não raras vezes, transmitia o aspecto de que existiria uma nova “seita” em formação com toda uma “longa cauda” de seguidores, clones e repetidores. O panfleto era, quase unicamente, o mesmo: “a proliferação do mercado dos gadgets electrónicos conduz- nos a uma democratização da mensagem: fotográfica, jornalística, cinematográfica ou literária”. Mantra que, após ter sido insistentemente propagandeado por todo o tipo de representantes de empresas da área da tecnologia digital e dos blogues que lhes estão directamente ou ideologicamente associados, é agora emulado, a julgar pela “informação” que é partilhada diáriamente através das redes sociais por um consumidor intencionalmente, ou não, desatento mas principalmente absorvido por questões económicas e nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros aspectos importantes, sobre as estruturas e tendências digitais, são constantemente ignorados pelo cidadão “comum” na sua veloz troca de informação, de cartazes feitos no Photoshop com provérbios descontextualizados ou dezenas de fotografias de recém- nascidos. O problema é que são matérias que não versam pontos exclusivamente “digitais”. São complexas, essencialmente sociais e estão a remodelar o nosso estilo de vida a uma velocidade difícil de descortinar por todos nós, por uma comunicação social desatenta por se encontrar em constante competição, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. O que se reflecte numa rara produção crítica quando sobre eles resolvem “avançar”. Os exemplos, de qualquer forma, existem. Como as obras “Experimentum Humanum” de Hermínio Martins, “Crise no Castelo da Cultura” de Moisés de Lemos Martins, “Os Superficiais” de Nicholas Carr ou o incansável trabalho de Evgeny Morozov através de conferências ou da publicação de livros como “The Net Delusion” e “To Save Everything, Click Here”. Mas, dada a enorme torrente de questões que os nossos dias anunciam, é muito pouco.

Nada disto é inteiramente novo. O século XIX, com a revolução industrial a decorrer, a invenção do comboio eléctrico, o telefone ou o telégrafo, assistiu a um género similar de “efervescência”, de crença utópica no “futuro” e na “conectividade” entre os homens. O que só os iria aproximar. Contudo: a miragem foi rapidamente posta no lugar que lhe competia quando se verificaram muitas das consequências que a tecnologia também trouxe ao século XX: uma poluição ambiental cujo máximo estamos neste momento a presenciar, duas guerras mundiais, as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki e vários tipos de genocídios que não pararam de ocorrer até aos dias de hoje. O determinismo científico esquece, muito facilmente, que o ser humano não é só Sapiens. Também é Demens: muito pouco controlável.

De qualquer forma: a “democracia digital”, enquanto possibilitadora de uma difusão, exposição e publicação de uma mensagem que era anteriormente inacessível à maior parte dos cidadãos, não deixa de ser verdadeira. Mas colocadas as questões, simplesmente, desta forma: o assunto parece ficar arrumado. Devido, essencialmente, a um aspecto delicado. Se o que se pretende é, principalmente, a inclusão e a “democratização”: pouco, a partir daqui, poderá ser questionado a um nível subjectivo. Porque, contra a “ditadura” da narrativa redutora do mercado tecnológico digital e da maioria consumidora que lhe está associada, a dissidência e as opiniões divergentes são olhadas de soslaio. Não são censuradas nem são proíbidas. São apenas ignoradas. E “se pouco pode ser questionado” devido a uma quase “invisibilidade” da pergunta incómoda relativamente ao frenético paradigma comunicacional do momento: não é propriamente uma democracia social real, relativamente às questões aqui apresentadas e por muitas “partilhas” que façamos, aquilo que estamos a atingir. Mas, pelo contrário, um igualitarismo e uma massificação de tipo novo. Por ser transnacional. Que engloba, conectando-as, cada vez mais franjas populacionais. Calando-as. Levando-as, devido a uma questão de inclusão, à auto- censura. São movimentos que nascem do standardizado – quase “programado” – discurso ideológico- económico dos “gigantes do digital”. Dos “corredores” filosóficos e políticos de Sillicon Valley. O nosso país, exceptuando casos pontuais, quase não ofereceu, até agora, evolução. Mas, aqui, também relativamente aos meios de comunicação social. A maior parte das publicações continua a ignorar uma série de questões que são, cada vez mais, debatidas “lá fora”. Que não constituem problemas de “futuro” porque o império único da propaganda faz parte do passado. Por outro lado: as perguntas que, a partir de agora, poderiam e podem ser formuladas não são inteiramente novas. Foram, apenas, temporariamente e convenientemente esquecidas neste princípio de século. Muitas delas foram debatidas em obras de filosofia da ciência e da tecnologia no século XX. Precisamos, por isso, de um novo espírito de inovação que faça frente ao conceito de “inovação” simplista de Sillicon Valley. Para que haja, outra vez, menos certezas absolutas, menos vontade de determinismo. Mais dialéctica. Mais História. Para uma nova e urgente integração.

“Integração” que foi atingida no que relato a seguir: O Clube de Fotografia do Estaleiro Cultural Velha- a- Branca na cidade de Braga, através de um debate que teve lugar no passado dia dois de Maio e que foi conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho, teve a capacidade de inverter a situação e escapar, de forma brilhante, ao que referi em todas as linhas anteriores. Ali: existiram perguntas a serem colocadas e um público jovem que estava, contra todas as generalizações geracionais, aberto ao que estava a ser dito. O encontro começou por versar, resumidamente, o significado histórico e o propósito da fotografia para, aproveitando o “gancho”, questionar o seu estado na sociedade actual: da cultura da imagem à sua entronização no discurso colectivo e, daqui, em direcção à multiplicação, à consequente banalização e, então, a uma das tendências mundiais do momento que é, talvez, o seu ponto mais baixo: o selfie.

Contudo: a discussão acerca do “pormenor” fotográfico transcende-o. Serve de ponto de referência e de espelho a uma máquina mutacional muito maior que atravessa todo o espectro informativo e cultural global: o selfie assume múltiplas formas, mais ou menos encapotadas à primeira vista e encontrando- se, neste momento, em quase todo o lado: no rápido post “noticioso”, no vídeo ou “conteúdo”, de “cinco minutos”, colocado em plataformas como o You Tube para que “possa ter um maior número de visualizações” ou na impulsiva adolescência de muito do que se resolveu apelidar de “jornalismo- cidadão”. Interessa, portanto, a rápida exposição.  De preferência: sem esforço. O “eu” passou a ser a mensagem. O que se poderia dizer passa a segundo plano. Mas ele encontra-se também em fenómenos de audiência televisiva como as inesgotáveis e múltiplas variantes de reality shows ou na proliferação de revistas “cor de rosa” que, na última década, ultrapassaram uma linha vermelha através de uma contínua exploração emocional de “vedetas” onde já não se consegue distinguir o que é realidade do que é telenovela, o que é aproveitamento do que é voluntarismo do actor “para que possa atingir um “valor de mercado”. O que arrasta, inevitavelmente, consequências sociais ao nível político e do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem passou a valer – e a vender – o mesmo”: que caminho seguir, em termos civilizacionais, num cenário de crise económica e financeira? Já o escrevi anteriormente: precisamos de focos de luz. Precisamos de interpretação. Necessitamos de contexto. Onde se encontrem perguntas que interessam.

A inclusão cada vez maior das “margens” – como sinónimo das camadas de uma população que antes do advento da internet não tinha acesso à exposição mediática – não traria problemas se tal não originasse a ofuscasse a especialização e uma certa qualidade superior que a costuma acompanhar. A duração, a originalidade, a dificuldade e a qualidade são preteridas em favor de um “mercado” rápido e precário numa progressão galopante em direcção a uma espécie de ultra- simplificação do discurso. O que passa a “interessar”, em primeiro lugar, não é, exactamente, a “cultura” e o “conhecimento”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. O que esbate e relativiza, em sentido negativo, a importância e a visibilidade do questionamento.

Contudo: talvez seja cedo. Talvez as ilusões se desmoronem à mesma velocidade com que se criou a utopia ou com a rapidez com que vão à falência as empresas da área do digital. A história, como foi aliás salientado no debate anteriormente mencionado, prova-nos que existem sempre movimentos de retracção. Nada é certo e nada é eterno. Mas para que a história nos mostre isso: precisamos de estar atentos. Para tal acontecer: precisamos, de vez em quando, de pousar o smartphone. Pensar. Assistir sem “fotografar”. Pensar. Para “fotografar” a seguir.


Epílogo: O Cúmulo de Bartleby

Retomo, através desta crónica, o tema alusivo a Bartleby que iniciei no fim do ano passado devido a um livro que me foi oferecido e intitulado “Bartleby & Companhia” de Enrique Vila- Matas. O objectivo é o de fazer uma espécie de remate e o de chegar a uma tentativa de conclusão. O escritor que se nega a si próprio, que se auto- destrói, que se verga e anula perante heranças passadas é, para o autor, uma espécie de doença contemporãnea. Que, na minha opinião, carece de sentido. A realidade actual é mais complexa do que nunca. Nem existe “O Fim da História” como foi, apressadamente, “profetizada” por Francis Fukuyama. Contra as forças ideológicas civilizacionais que nos querem convencer do contrário: precisamos, como sempre, de escrita e interpretação.

I

Sempre tive uma relação especial com a cidade do Porto. Foi lá que nasci. E, de uma forma ou de outra, acabo por regressar. Embora tenha passado a maior parte do tempo da minha vida em Braga, nunca me consegui decidir, muito bem, entre estas duas mulheres. No Porto: agrada-me a forma como alguns cidadãos foram remodelando, pioneiramente nos últimos sete anos, a baixa. Através da utilização de um modelo que se tem espraiado para outras localidades. Mas, dentro de mim – e não é a primeira vez que escrevo isto -, está, especialmente, a “estática” e conservadora Foz do Douro. Andando por lá: poderiamos estar, por exemplo, no ano de 1991. Uma das fases mais relevantes da minha vida foi, exactamente, o verão desse ano. Foi nessa altura que comecei a fumar: cachimbo. Recusava, por orgulho, tabaco “normal”. Teimosia que ultrapassei rapidamente. Por ter experimentado de seguida um cigarro. E, mal senti a primeira “pedrada”, comprei um maço de Marlboro fumando- o, inteiro, nessa mesma noite. Foi na esplanada da Luz. Por onde sirandava, estupidamente, todos os dias. No ano de 1998, enquanto estudava jornalismo na universidade, morei no segundo andar de uma casa de família que se situava na Rua da Cerca. Entretanto foi vendida. Encontrando-se, neste momento, completamente alterada. Mas não resisto a passar por lá. Peço licença à miúda loura que tenta vender os apartamentos entretanto construídos tentando encontrar o que lhe resta do passado – e nisto: sou bem português; um saudosista insuportável – : vestígios de um relvado que entretanto praticamente desapareceu, vozes, ecos e todo o género de lembranças possíveis. O que entretanto foi construído não deixa de ser “interessante”: “limpo” e moderno. Mas, principalmente, branco. Demasiado. As memórias percorrem várias etapas. Por essa razão: ainda a sinto como se também fosse minha. Foi a única possibilidade, aliás, que tive de viver na Foz. A casa da Rua da Cerca tem, contudo, ainda mais história para o meu pai. Lembro-me de, quando se chegava ao terceiro andar, existir um pequeno espaço que me fascinava: uma porta. Logo a seguir ao final do corrimão, virando imediatamente à esquerda, encontrava-se um muito pequeno lance de escadas. E, quando se subia por elas, não se demorava muito tempo a bater-se com a cabeça: a porta tinha sido construída no tecto. A tentação para a abrir era enorme. Pesada mas irresistivel. O meu pai sempre me falara dela: para que servia; que destino lhe tinha dado.

a)

Escrevi, algumas vezes, desde o fim do ano de 2013, como referi no início, acerca de um fenómeno que é tipico de quem gosta de escrever, de jornais, de literatura: o “síndrome de Bartleby”. Podemos defini-lo, para agora resumir, como aquilo a que, normalmente, intitulamos, para utilizar jargão actual, de “bloqueio criativo”. Pode ser temporário ou permanente. Um qualquer escritor pode encontrar-se, repentinamente, numa situação que faz com que tente uma espécie de fuga inconsciente para a “inabilidade”. Num repente: deixa de encontrar ideias dentro de si, julga-se em demasia e desiste. Espécie de auto- sabotagem

E esta é, especialmente, época de cansaço: espiritual, civilizacional, político e ideológico. Proliferam a tecnologia, os gadgets e as redes sociais. Mas também todo o género de ultimatos. Não são poucos os livros que, em vez de afirmar, anunciam toda a espécie de “fins”: da literatura, da arte, do homem, da história, do estado social. O que se deseja, actualmente, é a “inovação” – “to change” – sem se saber, exactamente, que direcção tomar e com que fins. Importa avançar por avançar. Sem a procura de uma integração séria com o dado. Com o válido que foi anteriormente estabelecido. Algumas das “transições” propostas começam a parecer-nos ameaçadoras para a liberdade. Existem, já, um sem número de promessas mais ou menos minadas. Não previstas, como sempre, pelos deterministas do costume. Para quem a fuga para a frente é sempre solução superior. A “sociedade da informação” e a da “transparência” estão-nos a levar, rapidamente, para uma reconfiguração social mais ou menos impensável há meia dúzia de anos atrás. Como, por exemplo, a espionagem maciça que nos tem sido revelada por Edward Snowden ou Julian Assange. Nada disto tem a ver com a “liberdade” idealizada pelos fundadores da internet. Nem pelos milhares de “gurus” e “especialistas” que, abusando de um infantilizador powerpoint, nos prometeram maravilhas esquecendo o essencial: a natureza humana e a vontade de controle e de poder que lhe é característica. Tão bem explicadas, por exemplo, pelo filólogo e filósofo alemão, do fim do século XIX, Friedrich Nietzsche. Este homem, muito possivelmente, não se daria bem numa qualquer Ted Talk. Nem com o excesso de ruído que configura a estrutura “informativa” actual. Não se socorreu da “estatística”. No entanto: ele intuiu. É que, para o perceber, tinha algo de fundamental: ar puro, floresta e, essencialmente, silêncio. Fez uma revolução em termos de pensamento. Num mundo em que pouca gente andava obcecado em fazê-las. Hoje toda a gente tem a sua. Quer a sua. E, quando não se tem nada de relevante para mostrar: tenta-se na mesma. Através da tentativa de destruição daquilo que é intemporal. Prepotentemente remetido para ecos do passado. Como se não existisse, lá atrás, algo que nos tenta avisar.

O ser humano sente-se esgotado pela razão, pelo fascismo, pelo comunismo, pelo capitalismo. E, agora, pede às maquinas que o salvem. Que o salvem? Mas de quê? De si próprio? Continuamos, portanto, em terreno “cristão”. Tenta-se, por isso, “formatar o sistema”. Contudo: o peso gigantesco do passado e de tudo aquilo que foi até hoje criado é sombra pesada que desafia, continuamente, a vontade de superação e ultrapassagem actual. O que se faz, então, quando a tal não se consegue chegar? Tenta-se uma negação: um esquecimento que não ouse criar. Distribuir uma espécie de ditadura da banalidade: “Tudo é arte”. “Tudo é literatura”. “Tudo é jornalismo”. É convite permanente à esterilidade. Transforma-se a “criação” em “indústria criativa”. Converte-se aquilo que nos poderia proporcionar algo de “sublime” numa espécie de “tempestade de merda informativa”. E, no caso da banalização da literatura, o “sindrome de Bartleby” pode atingir, na era digital, o cúmulo do ridículo. Já tinha referido, no artigo “Formatação Informativa e Cultura Powerpoint” através da citação de um post do blogue Página 23 de Eduardo Jorge Madureira, a existência de ideias “filosóficas” que tentam, actualmente, denegrir a literatura que foi feita no passado em benefício único dos artigos e textos existentes na internet. Não é caso único. Existe pior. Passo, de seguida, a demonstrar:

No jornal diário espanhol El País foi disponibilizado, no passado dia 15 de fevereiro, um extenso artigo da autoria de Eduardo Lago sobre Kenneth Goldsmith, o fundador da UbuWeb nascido em Freeport, no estado de Nova York, no ano de 1961. É, pelos vistos, um teórico da “escrita não criativa”. A plataforma digital que criou em 1996 tem o objectivo de armazenar o legado completo da vanguarda clássica. Transformou-se, com o tempo, no arquivo de arte de vanguarda com maior número de “conteúdos” da internet. Entre os seus heróis estão John Cage, Walter Benjamin, Sol LeWitt e, como não podia deixar de ser, um dos grandes mestres da vulgaridade: Andy Warhol. Segundo o próprio Goldsmith, “o mundo é cada vez mais warholiano – nisto: não podiamos estar mais de acordo -…a nova escrita consiste em não escrever, a nova leitura, consiste em não ler. A nossa relação com a linguagem mudou”. Começa, pelos vistos e aqui, uma qualquer “fenomenal” revolução da qual não nos tinhamos apercebido. Esquece-se, contudo, de mencionar que, por trás de uma enunciação ou, vá lá, de uma análise social se esconde, sempre, outra coisa: um desejo. Porquê esta preocupação em afirmá-lo? Cria-se o que se defende. Nem que seja a criação de uma destruição. Este homem entrou num beco sem saída. E, na falta de melhor, dá vivas à própria anulação. Distribuindo o que lhe é próprio – a falta de ideias – ao resto da humanidade. Goldsmith, de qualquer forma, não é totalmente virgem: estudou na Escola de Desenho de Rhole Island. Formou-se como escultor e, ainda segundo o artigo, aproximou-se da poesia conceptual. O que fez com que se interessasse, a seguir, pela literatura. Há quem se importe com o trabalho que tenta desenvolver: Foi convidado pela Documenta de Kassel para apresentar o arquivo enquanto “produto artístico”. Que é, agora, visitado com frequência por escritores, hackers, músicos, poetas e todo o tipo de cineastas. Goldsmith foi, adicionalmente, nomeado como Poeta Laureado da MoMa. Para a qual desenvolveu um projecto: colocou duzentos escritores a lerem diante de pinturas com o objectivo de descontextualizar o museu para que perdesse a aura institucional. Para que se convertesse num espaço “relacional”. Talvez se tenha transformado, momentaneamente, em algo interessante: “liam diante de um quadro de Pollock ou Matisse…entrando em conversa com grandes artistas do passado. Contudo: é tendência que não deixa de se generalizar. Está na moda: a administração do jornal francês Liberation, por exemplo, também pondera, contra a vontade dos jornalistas – que também devem “cheirar” a “instituição” -, descaracterizá-lo e convertê-lo em mais uma rede social e num “espaço multi- cultural”. Goldsmith considera que a “arte” ultrapassou a literatura. Como se achasse que, afinal, literatura não é arte. Mas é ideia comum. Se a óptica for a de que só é arte o que quebra barreiras. Ficando, desta forma, o passado continuamente desclassificado. A era da internet, para Goldsmith, introduz uma novidade. Porque, para ele, constitui “uma máquina gigantesca que não faz mais do que gerar escrita. Ao nível mais profundo e elementar, tudo o que existe na internet se reduz a um código alfanumérico que é a base material de todos os suportes que conhecemos: fotografias, canções, vídeos e livros. Quando alguém envia um artigo em formato JPG e não se recebe bem, aparece no ecrã um código binário alfanumérico. Se se pensa bem, o motor que propulsiona a internet é a literatura”. A confusão “conceptual”, neste caso, não poderia ser maior. Fica-se a entender o que, para o “poeta”, significa “literatura”. Acrescenta: “…a literatura, como meio, imita os computadores e isso não podia ser mais interessante”. A inversão é total: é, mais uma vez, a tentativa de fazer com que máquina “ultrapasse” ou “negue” o homem que a cria. A criatividade e a originalidade, no projecto de Goldsmith, desaparecem. O objectivo é o da erosão da individualidade e da subjectividade: “nunca utilizo a primeira pessoa, nunca expresso emoções subjectivas, tento ser mecânico. Converti-me num copista, não escrevo textos originais, copio textos que já existem”. Prestemos atenção a algumas das suas “obras”: Para “Soliloquio”, do ano de 2001, transcreveu todas as palavras que pronunciou durante uma semana. “Dia”, publicado dois anos depois, reproduz, com anúncios incluídos, todas as palavras que fizeram parte da edição do New York Times do dia um de setembro do ano 2000. Goldsmith também tem a sua triologia: “O tempo” de 2005, “Tráfico” de 2007 e “Desportos” de 2008. Para o primeiro trabalho foram transcritos todos os boletins metereológicos – com a periodicidade de um por dia – transmitidos durante o período de um ano. O segundo faz uma recolha de todos os noticiários retransmitidos a cada dez minutos por uma estação de rádio durante 24 horas. O terceiro faz a transcrição de um jogo de baseball disputado entre os Yankees e os Red Socks. O resultado foram três livros. Cada um com 150 páginas. Goldsmith, apesar de toda a inutilidade, admite não ter leitores e que os seus livros são “muito chatos”. E afirma que o objectivo é o de se “pensar acerca de coisas que nunca pensamos”. E que “a medida do êxito de um livro destes é a quantidade de debate que gera”. Afirma, também, que “a missão do poeta de hoje é a de não escrever poesia”. Tece considerações sobre o deficit de atenção a que está a conduzir a leitura na internet devido ao excesso de informação. Para ele, esta espécie de “incapacidade” geral é, também, “uma nova forma de vanguarda. Não há sentido em trazermos novos textos ao mundo”. Não nos enganemos: este homem deseja que paremos de escrever. Pode ser, contudo, que exista “salvação”: para explicar tudo isto teve que recorrer ao formato do ensaio. Sem “transcrições”. Sem copy- past. Como, por exemplo, “Escrita não criativa”. Ou “A Vingança do Texto”. Goldsmith não se anuncia, portanto e apenas, como Bartleby ou candidato a Bartleby. Deseja, talvez para a configuração de um mundo mais “democrático”, que abandonemos, de vez, a escrita e a leitura. Que sejamos, como ele, todos Bartleby´s. Todo este discurso, sabemo-lo, não passa de lixo interpretativo. Pequena vontade de revolução individual. Num planeta infestado de pequenas revoluções individuais. A pergunta é simples: qual o objectivo social de todo o esforço e trabalho de Goldsmith? Para que nos serve tudo isto para além de nos tentar convencer a uma desistência, a uma renúncia ao interior e à individualidade do ser humano enquanto criador? De favorecer uma negação da literatura enquanto “política” e arte ou, pelo menos, de arte em potência? De um evitamento da análise do mundo que se encontra neste momento em constante reconfiguração? É que, exactamente pela complexidade que ele agora apresenta, nunca precisamos tanto de interpretação: séria e integradora. Quererá Goldsmith deixar de entender? O filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek afirmou recentemente, numa entrevista a um canal brasileiro, que “nunca precisamos tanto da psicanálise como hoje em dia” e poder-lhe- ía responder, como num vídeo a que se pode aceder facilmente através do You Tube, “Não actues. Pára para pensar.”

II

Costumava regressar à casa da Rua da Cerca numa época em que já não vivia lá ninguém. Era preciso ter cuidado com os degraus, meio partidos, de madeira. Os quartos não passavam de uma espécie de armazém a abarrotar de colchões velhos, caixas de papelão cheias de objectos em desuso, revistas poeirentas, pressianas estragadas e mal corridas. Mas gostava de ficar a olhar para eles. Para o que acontecia, ali, no passado. Sou adepto de “fantasmas”, antiguidades, velharias e lugares proíbidos. Agradam-me as ruínas, as silvas e as teias de aranha de espaços em decadência. De ver o pó: o fumo a dançar e a rodopiar nos pequenos feixes de luz que saem das frinchas apodrecidas das janelas. A porta, no tecto, lá estava. E, como sempre, a pedir uma visita. Como aquele género de pequenos clubes que julgamos secretos e que fazemos em criança com amigos em sótãos ou garagens. Mais uma vez: aproximava-me do pequeno lance de escadas para a tentar abrir. E, como sempre, exigia bastante esforço. Tornava-se ainda mais irresistível depois de totalmente aberta. Porque, quase sempre que tal acontecia, havia a luz solar forte que encandeava. Preparava-me então para subir.

b)

Voltando ao livro de Enrique Vila- Matas: para um último exemplo – o mais radical que encontrei – de um típico Bartleby. Para não sermos totalmente injustos com o presente: Goldsmith pode constituir uma figura caricata e esclarecedora do tipo de civilização cultural que tentamos construir. Mas o seu “programa”, estupidez e anulação são absolutamente irrelevantes se forem comparados com a do senhor Chanfort. Foi um homem dedicado à literatura que conheceu, sem esforço algum, êxito durante a vida. Amavam-no as mulheres e os grandes salões estavam-lhe destinados. Ganhou, adicionalmente, o apreço de Luís XVI e de Maria Antonieta. E entrou, ainda bastante jovem, para a Academia Francesa. Contudo, apesar de todos os privilégios, desprezava o mundo. Como, igualmente, se odiava a si próprio: “O homem é um animal estúpido, a julgar por mim”. Albert Camus escreveu, sobre Chanfort, o seguinte: “…a destruição do seu corpo é pouca comparada com a desintegração do próprio espírito. Isto é, finalmente, o que determina a grandeza de Chanfort e a estranha beleza do romance que não escreveu, mas do qual nos deixou os elementos necessários para podermos imaginá-lo”. O único livro que publicou não foi, de facto, um romance. Intitula-se “Máximas e Pensamentos, Carácteres e Histórias”. Odiava a sociedade do seu tempo e, ainda segundo Camus,”…a sua extrema e cruel atitude conduziu-o a essa derradeira negação que é o silêncio”. Declarou no seu livro: “todos os dias engrosso a lista de coisas de que não falo; o maior filósofo seria aquele cuja lista seria a mais extensa”. Negou, adicionalmente, a obra de arte, o que o extremou e o conduziu a esse prolongado silêncio. Terminou em suicídio:” Chanfort levou o “Não” tão longe que no dia em que pensou que a Revolução Francesa – da qual fora inicialmente entusiasta – o tinha condenado, disparou um tiro que lhe rebentou o nariz e lhe vazou o olho direito. Ainda com vida, voltou à carga, degolou-se com uma navalha e golpeou a sua carne. Banhado em sangue, esgaravatou no peito com a arma e, por fim, depois de abrir as curvas das pernas e os pulsos, caiu sobre um autêntico lago de sangue. Mas, como já foi dito, tudo isto não foi nada comparado com a selvagem desintegração do seu espírito”. Chanfort, num texto intitulado “Produtos da Civilização Aperfeiçoada”, propunha a seguinte questão: “Por que não publicar?”. Ficam, aqui, algumas das respostas: “Porque me parece que o público possui o cúmulo do mau gosto e o desejo de difamação”; “Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia”; “Porque o público só se interessa pelos êxitos que não aprecia”.

III

A luz que surgia do pequeno espaço para o qual se entrava depois de abrir a porta era, de facto, o que mais atraía ao início. Mas depois de subir deparava-me com uma pequena sala, mais ou menos rectangular e de tecto baixo, com um colchão velho e rodeada por pequenas janelas envidraçadas. Parecia uma pequena embarcação. De onde se podia ver, a toda à volta, “quadros” da Foz do Douro. E, principalmente, as ondas do mar. Aquele lugar só poderia ser inspirador para uma criança. Chamavam-lhe “O Mirante”. E, segundo me contou, foi ali que o meu pai concebeu e produziu o seu próprio jornal com uma velha máquina de escrever. Intitulava-se, justamente, “O Mirante”. Fazer um jornal enquanto se olha para o mar. Para um obcecado pela imprensa como eu: não existe melhor cenário do que este . Fazer um jornal a olhar para o mar, literatura a olhar para o mar, escrever a olhar para o mar.

Não tenhamos dúvidas: para resolver qualquer angústia bastam os pés no oceano. Não há “bloqueio criativo” ou “síndrome de Bartleby” que, nas ondas, não se desfaça. É o que Goldsmith e, provavelmente, Chanfort deveriam ter feito. Embora com uma força comparável à desistência que tentam, a todo o custo, difundir: serem deitados ao mar. Para que pudessem regressar afirmativos. A dizer “SIM”: à escrita e à literatura. De tão obcecados com a forma: esquecem-se do que poderiam contar. Basta olhar em volta. Evitemos, por isso, uma contaminação. Vamos escrever; fazer um livro; fundar um jornal. Deixemos a “revolução” para os adeptos da negação.


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