Category Archives: inovação

A Azáfama

Com tanta confusão e tão doida aceleração,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
É a “aldeia global”, uma entropia cabal,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
As crianças com um I-Pad, o tempo no smartphone que fede,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
É a música nos elevadores, a fuga a tantos amores,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
Uma rave na tecnolândia, na demanda por paixão cândida,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR,
As televisões na sua azáfama, a calar imaginação que é agora anátema,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
A procura de “informação”, esse vil alçapão,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR
Cada vez mais notícias, fake news e falácias,
NÃO HÁ TEMPO PARA SE PENSAR.
Enfim…,
Não há tempo para amarconsciencia


O Futuro da Terra (Um Mundo de Pobres)

Durante muito tempo nos disseram que se estudássemos conseguiriamos o emprego dos nossos sonhos. Em faculdades públicas ou privadas. Viviamos no império das letras. Embora os estudos informáticos já estivessem a despontar. Era o mercado a girar em todo o seu fulgor. Diziam-nos que alcançariamos um emprego para toda a vida. No entanto não existem, aqui, culpados. Acreditava-se que seria assim. E lá o fizemos para orgulho dos nossos pais. De repente: a realidade. O neo- liberalismo económico avançava e uma retórica diferente começava a surgir da boca de políticos bem instalados: “Acabou o emprego para toda a vida”. Os humanos – felizmente ainda o somos – teriam que se adaptar a novas regras para sobreviver. As empresas de trabalho temporário floresciam assim como os contratos a termo incerto. A direita em todo o seu explendor na certeza da auto- regulação dos mercados como se não existisse vida por trás a idealizá-los e a fomentá-los.

Durante muito tempo os que ingressassem – ou quisessem ingressar – em informática eram os verdadeiros “tó-tós” da turma. Mal sabiamos nós que num par de décadas tudo iria mudar de rumo e de disposição civilizacional. As letras, a história e a filosofia não davam dinheiro. Tudo se começou a reduzir a números e à linguagem computacional:”010001100011111111110”. Nos últimos tempos uma nova febre: as “start-ups”. O capitalismo a dar mais uma cartada – talvez uma das últimas – e a prometer que o empreendedorismo por conta própria é que era: era uma espécie de salvação. Uma “disrupção” como fala a gente para os lados de Silicon Valley. Uma promessa que não passa de selvajaria total. Todos contra todos na demanda de trocados. Agora, para se trabalhar, tem que se ser “único”, “original”, “imaginativo” e construir uma empresa. “Bater punho”, na designação de um fraco “guru” das redes sociais bracarense, Miguel Gonçalves, que foi alvo de chacota por todo o país devido à célebre expressão. Embora, há que dizê-lo, tenha sido nomeado “Embaixador do Impulso Jovem”, uma categoria inventada por Miguel Relvas, ministro dos assuntos parlamentares do governo de Passos Coelho.Um dos pontos baixos – no meio de muitos – deste último.

E aqui chegamos ao ponto principal: lembro-me bem de quando fazia rádio na RUM (97.5) entre os anos de 1994 e 1997 e em que o ambiente era de festa e de criatividade. Existiam inúmeras colaborações e as ideias fluiam. Até chegarem os computadores para substituirem os mini- discs. Uma grande quantidade de gente foi dispensada e começaram as playlists a funcionar. A Rádio Universitária do Minho descaracterizou-se e muitos programas passaram a serem gravados de dia para passarem à noite sempre com os mesmos locutores. Foi a primeira vez que fiquei de pé atrás com a informática. Ela, “quando quer”, destrói valores.

A Lei de Moore diz-nos que a tecnologia duplica em potência de dois em dois anos. Isto significa que, talvez, no espaço de uma década já não percebamos nada do que se está a passar – e já está ser dificil acompanhar o jargão da computação (A Lei de Moore, apesar de tudo, é uma profecia que funciona sob a lei do mercado. Seria, por isso, possivel regulá-la e abrandá-la se politicos os ou senhores do MIT estivessem interessados nisso. Mas não estão).Mas gostava de saber, nessas condições, como vamos trabalhar. Conseguiremos estudar o suficiente para competirmos com algoritmos e a Inteligência Artificial? Será dificil.

O respeitado historiador Yuval Noah Harari que até ao momento escreveu três livros assinaláveis- “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 respostas para o século 21” – acaba de escrever um artigo no The Guardian intitulado “O significado da vida num mundo sem trabalho”. Tudo devido à automação, à informática e à Inteligência Artificial. Nele fala sobre “o surgimento de um novo tipo de pessoas que irá supostamente aparecer até 2050: “os inúteis”. Serão, pelos vistos, pessoas “desempregradas mas ao mesmo tempo não empregáveis”. O problema será o “surgimento de algoritmos que poderão desempenhar uma série de tarefas melhor que os humanos”. E “as crianças que actualmente estão a estudar serão irrelevantes quando chegarem perto dos 40 anos devido à velocidade da evolução tecnológica”. Segundo Harari essas pessoas receberão uma espécie de rendimento básico universal – com o qual eu concordo mesmo que tenha consciência que será uma ninharia -. Servirá para sossegar as consciências? A grande questão será: como manter essas pessoas ocupadas para que sintam um sentido para a vida? É aqui que surge o disparate de Harari: segundo ele, as pessoas deverão fugir do dia a dia e dedicarem-se aos jogos de computador e à realidade virtual comparando tais actividades a religiões. Diz ele: “O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas? Muçulmanos e cristãos atravessam a vida a tentar ganhar pontos no seu jogo de realidade virtual favorito. Se reza todos os dias, obtém pontos. Se se esqueceu de orar, perde pontos. Se, no final da sua vida, ganhar pontos suficientes, depois de morrer, vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso)”. A sério? É este o programa que Yuval tem para nos oferecer? Um rendimento básico e jogos de computador? Duas observações: como pôr todas as nações de acordo – numa época de desacordo e de contração da colaboração universal – até 2050? E, especialmente, como é que familias a receberem o rendimento básico terão dinheiro para os caríssimos jogos de computador? Um planeta de alienados é o que nos é proposto aqui.

E chegamos aqui a um ponto fulcral. Há uns tempos fui assistir a uma palestra no agora infelizmente encerrado Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, em Braga, que era também uma reunião de pessoas ligadas à computação. E houve nisto algo de assustador: todos tinham a certeza que os informáticos seriam ultrapassados por aquilo que estão a criar. A única coisa com a qual não estavam de acordo era o “quando”. Uns apontavam para o espaço de uma década. Outros para daqui a 50 anos. Portanto: eles próprios poderão perder o emprego. Há mesmo quem advogue que as máquinas chegarão a um ponto de invenção em que elas começarão a construir uma realidade que nós, humanos, não conseguiremos acompanhar nem compreender.

Os relativistas do costume dirão que “não”. Que tudo vai bem e que se tivessem um telescópio para ver o futuro encontrariam alguma luz. Acontece que estes até podem ter razão. Porque esperam no sofá enquanto outros trabalham ou esclarecem leitores sobre a realidade.Como diz o polémico e grande psicanalista esloveno Zlavoj Zizek – principalmente numa altura em que a rapidez e a desinformação abundam -: “é tempo de não actuarmos para podermos pensar”.


Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural II

Não me parece que seja, exactamente, a quantidade de leitura – uma leitura tendencialmente fragmentada – a determinar, hoje, aquilo a que poderemos apelidar de “conhecimento”. A sociedade actual, no meu entender, sobrevaloriza- a na forma como a “informação” está a ser transmitida e arquitectada. Isto: se existir “actualidade” numa época que se orgulha de não parar de “inovar”. E, por isso, de não parar para pensar. Em última análise: de não parar. Sabemos que existe, hoje em dia, uma maior distribuição de “factos” – muitos deles contraditórios -, de artigos noticiosos e, como não poderia deixar de ser, de um excesso de publicidade que por vezes se encontra semi- encapotada através daquilo que se convencionou agora apelidar de “publicidade nativa”: um novo género de “product placement” que compõe editoriais de inúmeras publicações. As audiências, apesar de tudo, são maiores. Todo o género de “conteúdos” chega onde anteriormente não tínhamos sonhado. Mas, contudo, as diversas redes sociais – principalmente o facebook -, que foram e que continuam a ser propagandeadas como uma espécie de promessa nesse sentido, “nada mais” fizeram, até agora, do que afastar muitas pessoas de uma leitura mais atenta, mergulhada, imaginativa e emocional. Fomos, assim, lançados para uma espécie de aparência onde tudo parece valer o mesmo. A popularização do selfie – designação habitual para a menos sofisticada, e bem portuguesa, expressão “auto- retrato” – substitui, mais um pouco, a paciência para o texto longo e demorado. Para um salto no interior. “Informação”, para além do mais, tem, nos dias de hoje, um sentido mais ou menos duvidoso. Não falamos, exactamente, de literatura nem de jornalismo de investigação. No léxico dominante e determinado por Sillicon Valley tanto pode designar um tema musical de três minutos, um vídeo de seis segundos, uma fotografia ou um jogo de computador que são tendencialmente produzidos para se poderem encaixar nos métodos standardizadores de distribuição agora prevalecentes. As redes sociais, aqui, são menos democráticas pelo simples facto de encurtarem o tempo de exposição de uma mensagem que poderia ser mais elaborada. Pelo contrário: ela é menorizada. Mas é principalmente através delas que se faz, hoje, a batalha pela exposição e pela chamada de atenção cultural. Isto leva-nos, inevitavelmente, a um certo “desprezo” pela qualidade a favor da quantidade. De fora ficam, normalmente, os artigos longos – mesmo que existam tentativas para os reestabelecer e reinventar -, os ensaios, os livros e tudo aquilo que é mais aprofundado. Ficam, portanto, mais ou menos ausentes dos ciclos de distribuição digital os escritos que não são confeccionados para a difícil leitura proporcionada pelo ecrã de um computador. Também os temas musicais são cada vez mais orientados para um formato mais pop, menos experimental e, por isso, menos político, contestatário ou mesmo “subversivo”. São produzidos para serem colocados, por exemplo, no You Tube. Para que consigam captar a atenção de um ouvinte aos primeiros segundos de audição. A arte, a informação e a cultura transformam-se, deste modo, cada vez mais num sub-produto económico a ter de se render a ultra- velozes formas de promoção. O que acaba, em certa medida, por lhes retirar um sentido último. Não apenas estético. Mas como arma, mais ou menos eficaz, de combate ao instituído e ao estabelecido. Existe, por isso e com toda a certeza, mais informação disponível a nível mundial. Mas é, essencialmente, conhecimento que não circula eficazmente. É mantido bem afastado pela indústria do curto- prazo.


O Papel dos “Velhos” Frente aos Jornais em Papel

Sabemos que existe, principalmente, devido a milhares de artigos de “opinião” que pululam, à espera de serem encontrados, pela internet fora. Mas ouvi- lo, directamente, através das palavras de um obcecado com as venturas – mas não com as desventuras; essas: há que ignorá-las – da “digitalização total” é diferente: “Espero que um dia tudo isto vá abaixo !”. “Tudo isto” significava, no seu arrebatado léxico, um desejo. O fim, como se estivéssemos a falar de um simples castelo de cartas, do mais ou menos exausto império das publicações em papel. De tudo o que se convencionou, em poucos anos, apelidar, tentando-o reduzir, de “tradicional”. Ou seja: o fim da matéria e da “alma” com que ainda são produzidas muitas publicações que recusaram, até ao momento, sucumbir ao reino único dos “resultados imediatos”. Da velocidade mercantil de um jornalismo que é, agora, menos pensado. Que, sabemo-lo, tem dado pouco azo à reflexão demorada e mergulhada. A “solução”, em forma de mutação – que nunca vem; que não se sabe, muito bem, para que é que, exactamente, serviria, quem serviria e com que fins sociais -, seria a construção de toda uma arquitectura unicamente “digital”. A normalização de uma ideologia que pretende tentar transformar, em pouco tempo, várias manifestações do real em produtos afectos ao conceito anteriormente referido. Trata-se de uma posição – que, além de comercial, é também política que consegue, por vezes, roçar o absoluto fanatismo. Mas como muito disto parece novo, ficção científica e porque cheira a “inovação” – tecnológica – : deixa-se andar. Porque o “futuro” há-de transformar tudo sempre para melhor. Porque uma fuga para a frente parece ser algo de superior. Porque, afinal, poderá significar uma espécie de aurora: um amanhã de plástico replandescente. Acontece que a “digitalização”, aliada a um precário e ultra- veloz capitalismo, traz “pormenores” pouco “eficazes”: imagino, por exemplo, o que sentirá um “velho” perante as “maravilhas” da implementação tecnológica contínua num mundo em que estará inevitavelmente ultrapassado pelo conceito de “formação para toda a vida”. Fantasio que, por exemplo sem o seu jornal, pelo menos envergonhado. Sim. Num planeta obcecado por produtos e serviços direccionados para a juventude: o papel dos “velhos” – e daqueles,  como eu, que estão prestes a entrar na meia- idade – conta. Importa, por isso, o papel dos “velhos” face aos jornais em papel. Estes, felizmente e apesar de toda a desvalorização de que têm sido alvo, ainda têm uma função – para além da nacional – regional e local. Muitas pessoas passam, ainda, o tempo em cafés “antigos”, como em bibliotecas, a conversarem. A discutirem problemas fulcrais para a cidade onde vivem. Tirarem-lhes as publicações que circulam pelas mesas não significa, unicamente, anularem-lhes o espírito. Significa esvaziarem-se espaços de conversa numa “Europa” que é, neste momento, cada vez menos democrática. Significa isolá-los. Pô- los de cabeça para baixo a tentarem entender algo que, devido à velocidade de produção actual, estará, também e em pouco tempo, ultrapassado. Se é, como se tem propagandeado inúmeras vezes, o conteúdo aquilo que mais importa: devemos, de certa forma, “inverter” – ou, pelo menos, repensar – o discurso. Não precisamos de estar, perpetuamente, a mudar de suporte tecnológico. Nisto: deveriamos ser mais constantes. Mais distantes. Mais pausados. Menos supérfluos. Em nome de uma interacção real: café na mesa, companhia e conversa. Não atiremos os nossos “velhos” para mais um fórum na internet. Há coisas que não são substituíveis.


O Confronto de Bartleby Com o Planeta Terra

“Já tudo foi escrito”: afirmou Bartleby. Essa espécie de homem que não pára de andar em circulos, com os dentes semi- cerrados, sem chegar, efectivamente, a lado nenhum. Como se, realmente, o desejasse. “Tens a certeza?”: contrapôs, entristecido, o Planeta Terra. “Sim ! Repara: muito daquilo que nos foi, e que nos continua a ser essencial foi elaborado, pensado, pintado e escrito – e com todas as cores ! – de uma forma muito mais rica e simbólica a partir da Antiga Grécia. Que vontades dali vieram ! Passámos, entretanto, por uma longa fase negra, embora diversa como em todas as épocas, no que respeita a uma interpretação da “existência” e da “realidade”. Felizmente que muito desse significado, mesmo que encontrado em cacos depois de ter sido marcado na pedra, acabou por ser recuperado. O que favoreceu uma  reabertura e, por isto, uma recriação. Desde a época do Renascentismo, com altos e baixos e através de inevitáveis ciclos, não parámos de, em certo sentido, evoluir. Repara, como exemplo, em toda a tecnologia que conseguimos desenvolver e que estamos, presentemente, a produzir. Mas olha, principalmente, para tudo o que se escreveu, ou se pintou, com a passagem dos séculos. Olhemos, também, para a complexidade. Que se teima agora em perder, em reduzir e em recusar. Que percorreu, por exemplo, o fascinante vulcão de ideias, de sementes e de uma verdadeira “inovação” que construiu todo o século XX. Chegamos a um momento em que, nos domínios das artes e da literatura, pouco parece ser ultrapassável. Acrescentamos, quase unicamente, “estatísticas”. Há quem o defenda e quem o advogue: alguns pretendem, através da retórica, acabar com tudo isso. Será necessário? Em nome de quê e em nome de quem? Com tanta liberdade e andamo-nos a castrar. O quê?? É que, neste momento, recomeçamos a simplificar. Escrevendo, como se costuma dizer, por exemplo, para os lados de Inglaterra, com uma forma cada vez mais “limpida e cristalina”. Dizemos “adeus” às metáforas: a tudo o que foi – e que poderia voltar a ser – realmente individual, emocional e profundo. Abraçamos, outra vez, a superfície moral: “as biologias !”; “as neuro- ciências !”. Ao ponto de já existirem alguns robôs a “escrever”, a “decidir”, a “criar” por nós. Existirá algo mais “simples”? Tudo se deseja compreensível: “directo”, “eficaz”, “objectivo”. “Nada que tenha a ver com a natureza humana: fujamos dela !”. E, realmente por tudo isto, a “realidade” torna-se menos explicável. Estamos, novamente, em terrenos do triunfo da “matemática”, da computação, de um “cérebro” sem corpo. Já tudo foi escrito. E, no entanto, nunca existiu tanta “leitura”, nunca se viram tantos “livros” e nunca houve, a circular, tanta “informação”: “dados”, “factos” e “estatísticas”. Numa ausência de mundo, de plantas carnívoras e adocicadas, de música e planetas interiores. Nada de inteiramente novo se faz. Autores contemporâneos, também em nome do mercado, não querem ser contaminados. Têm “medo” de ler determinadas obras porque as consideram “ultrapassadas” – que, muitas vezes, não o estão: apenas para o necessário espírito do tempo que corre; que quer correr -, “antigas” e “tradicionais”. Esta vontade de velocidade: fugindo de quê? Esquecendo o quê? Deixam de as entender. E suspeito que não desejam voltar a compreender. Seria tudo demasiado…”.”Complexo, Bartleby ? Chegaste a um ponto fundamental”: retorquiu, desiludido, o Planeta Terra com este outrora grande homem que, para ter amigos, se transformou em homensinho. “Tens ficado com um problema de memória. Anuncias por aí que queres “formatar o sistema”. “Fazer a revolução! “. Dizendo, enquanto andas em circulos e de mãos atrás das costas, que já tudo foi escrito. Existe, contudo, um pormenor importante que também tens “esquecido”. “Qual?”: inquiriu, Bartleby, visivelmente  irritado e desafiador. “Repetes e repetes que já tudo foi escrito. Mas, de certa forma, o único grande problema é teres ficado com as costas demasiado pesadas e, por isso, demasiado quebradas. A questão é que existe algo, para lá do “conhecimento”, que é igualmente importante”. Barleby não tinha a certeza se desejava saber a resposta. Talvez as dúvidas e, ao mesmo tempo, tantas certezas lhe dessem algum jeito para, lá no fundo, não resolver problema nenhum. Talvez gostasse de ter ficado com as costas pesadas. Mas, a medo, avançou: “o quê?”. Planeta Terra: ” Corta a corda, Bartleby ! Olha para lá do “conhecimento”. Utiliza a imaginação. Achas que já tudo foi escrito. Contudo: nem tudo foi inscrito !


A Demanda Pela Criatividade Perpétua

O individualismo contemporâneo – ao qual também não escapo – ensina-nos permanentemente o “do it yourself”. Assim como os “benefícios” de um género de competição tecno- capitalista quase inumana que se deseja, por algumas instâncias, cada vez mais descontrolada. É o caso de empresas norte- americanas que adquirem outras – muitas vezes estáveis e que empregam bastante gente – com o único propósito de as fechar “para mostrarem aos mercados” que são “competitivas”: que estão dentro do espírito da perpétua “innovation”. Um absurdo que mais não faz do que exigir da nossa normal fragilidade uma “criatividade” constante e que sejamos todos “empreendedores” para que possamos encontrar o nosso “nicho de mercado”. Teremos, assim, que ter uma “marca pessoal”. Que ser uma “marca”. Um tipo de ideologia que, convenhamos, dá jeito ao estado como o temos actualmente. De privatização da realidade em privatização da realidade: diversos governos arranjam, desta forma e na falta de ideias para relançar a economia, novas estratégias para a própria desresponsabilização. Parece que, como é amplamente defendido há anos, teremos de estar “em formação” até ao fim das nossas vidas. Constantemente a mudar de profissão num planeta que, agora, raramente espera por nós quando finalmente nos sentimos preparados. O individualismo pode, em alguns casos, extrair o melhor que temos em termos “criativos”. Contudo: para conseguirmos sobreviver numa estética mundial que é permanentemente “low – cost”: não é toda a gente que tem a sorte de criar uma “aplicação de sucesso”. Ou que deseja.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada ( Versão para o Jornal i)

Publicações e debates, sobre a “sociedade da informação”, “atrasaram-se” em investigação. Apesar da melhoria no último ano, devido ao caso Snowden , a “discussão” foi conduzida como uma “veneração”. Imperava o “guru da comunicação”: o “optimismo” sobre um paradigma “paradisíaco” que a tecnologia, por si, alcançaria. Parecia, por vezes, uma “seita” em construção. O “panfleto” era quase sempre o mesmo: “o mercado dos gadgets conduz- nos a uma democratização da mensagem”. Mantra que foi emulado, nas redes sociais, por um usuário mais absorvido por questões económicas nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros factores, ignorados pelo cidadão na veloz troca de informação, estão a remodelar o estilo de vida com uma rapidez difícil de descortinar pelos média, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. Existem exemplos. Como os livros de Nicholas Carr ou de Evgeny Morozov. Mas é pouco. Nada disto é novo: o século XIX, com a revolução industrial, assistiu a crença similar. Que se desvaneceu quando se viram as consequências que a tecnologia também trouxe: poluição, duas guerras mundiais ou as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O determinismo científico esquece, facilmente, que o homem não é só Sapiens: é Demens. A “democracia digital”, possibilitadora da difusão da mensagem por parte dos cidadãos, é real. Mas a questão não pode ser colocada, apenas, desta forma. Se se pretende, apenas, a inclusão: pouco é questionado subjectivamente. Porque, contra a narrativa do mercado tecnológico, opiniões divergentes são olhadas de soslaio. E “se pouco é questionado” relativamente ao paradigma comunicacional: não estamos numa democracia social. Mas num igualitarismo de tipo novo: transnacional. Questões que podem ser colocadas não são novas. Foram “esquecidas” neste século. Mas debatidas em obras de filosofia no século XX. O Estaleiro Cultural Velha- a- Branca, de Braga, com um debate conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho no passado dia dois de Maio, evitou o que referi anteriormente. Abordou a história da fotografia para questionar a banalização da cultura da imagem no discurso colectivo e a tendência do momento: o selfie. “Pormenor” que se transcende ao atravessar o espectro informativo: o rápido post “noticioso”, o vídeo de “cinco minutos” para que tenha “mais visualizações” ou a “adolescência” de muito do “jornalismo- cidadão”. Interessa a rápida exposição: o “eu” é a mensagem. O que arrasta consequências ao nível do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem vale o mesmo”: que caminho seguir num cenário de crise económica e social? Precisamos de interpretação. Nada disto traria problemas se não ofuscasse a especialização e a qualidade que a costuma acompanhar. O que passa a “interessar” não é, exactamente, a “cultura”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. Mas talvez seja cedo. Existem épocas de retracção. Nada é certo. Nada é eterno. Precisamos, por vezes, de parar: assistir sem “fotografar”. Pensar. “Fotografar” a seguir.


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