Category Archives: música

A Importância da Interpretação e do Contexto no Jornalismo Cultural

Uma das capacidades que mais admiro, nos outros, em época de “postagens”: a de se tentar escrever bem. Para que eu próprio possa ousar, experimentando, evoluir. Contudo: também, simplesmente, a de se tentar escrever. Evitando o texto curto: uma das “doenças” deste século, devido ao excesso, à qual também não escapo de vez em quando. Trata-se de uma luta cultural e civilizacional. De um problema de contaminação habilitado por uma teimosia constante e habitual: a “eficiência” tecno-económica. Dou como exemplo contrário: a aptidão para se pegar numa só foto, como fez Roland Barthes, e de a conseguir dissecar. Como, aliás, o autor o relatou através do livro “A Câmara Clara” que foi editado no ano de 1980. Não constitui tarefa fácil. Passa-se o mesmo relativamente ao cinema: assistirmos a um filme, em sala – para o sentirmos melhor -, e, depois de o deixarmos cerca de uma semana em “pousio” – interior -, a “marinar” e a amadurecer, convertê-lo num texto que caiba, ainda , em página inteira. Como continua a fazer, para nos referirmos apenas ao território nacional, o semanário Expresso pelo menos de vez em quando. Como deixou o diário Público de os disponibilizar há já algum tempo devido a inúmeros factores – e, aqui, a falta de espaço não é dos menores -. Reduzindo, desta forma, a interpretação e o contexto histórico- cinematográfico a umas magras colunas que, apesar de regularmente bem escritas, têm, agora, de se fazer valer através de um estilo mais condensado. Tenho pena. Costumava ser um hávido consumidor de artigos jornalisticos que lhe eram relativos. As interpretações sempre me fascinaram. Por muito distantes, em termos de imaginário simbólico e linguístico, que se encontrem umas das outras. Nisto: o já falecido João Bénard da Costa era rei. Escrevia, sobre filmes, como se pintasse uma tela. Davam-lhe espaço para o fazer. E o sentido, a procura de um sentido que Bénard parecia exigir extrair através do uso de uma palavra quase musicada, só poderia ser conduzido dessa forma. Não interessa, para esta crónica, se existem blogues mais ou menos especializados e direccionados para o tema com textos de igual ou de superior qualidade. A imprensa generalista, com todos os seus suplementos culturais, continua a  representar um outro papel social. Não deveria, por isso, continuar a ser desprezada, como o é actualmente, por constituir uma espécie de aparência, física, real ou imaginária – sublinhando: muitas vezes imaginária; a democracia igualitarista precisa de “inimigos” – aos olhos dos cidadãos de poder e de “controle”. Pura e simplesmente porque, no que respeita à comunicação, quase tudo representa luta, poder e combate cultural. Tentação que, obviamente, não escapa aos inúmeros tweets, blogues e start-ups de cariz informativo – e desinformativo – que são criados diáriamente. A “sociedade reticular”, neste aspecto, aumentou a competição mas, adicionalmente, o nível de paranóia social relativamente ao que é dito e ao que é escrito: pelo outro. A imprensa generalista, nas mãos certas, continua a ser necessária. Apesar de todos os problemas que tem enfrentado em termos económicos e sociais para que nos possa continuar a indicar caminhos de reflexão comuns. Continua a constituir um ponto de encontro necessário que une e concentra visões, um pouco mais gerais, da realidade. Evita o estilhaçamento de vontades comunicativas sem, contudo, acabar com elas. Impede, um pouco, um género de “autismo” muito contemporâneo: o isolamento social favorecido pela tendência para a “personalização” de “conteúdos”. Alguns, nesta fase em que quase tudo parece significar “elitismo”, teriam a tentação de apelidar esta posição que defendo como “tendência para o controle”. Existe, contudo, uma outra que vai para além desta generalização: uma ultra- valorização do individual em detrimento daquilo que se teima em apelidar, estigmatizando, de “jornalismo tradicional”. Como se este último precisasse de desaparecer em nome dos múltiplos interesses da filosofia concentracionária da oligarquia digital. É jornalismo a tentar ser o que sempre foi: ponto final. Esta posição bastante radical tem incentivado – e criado – o empolamento, não apenas do que se convencionou chamar  de “jornalismo- cidadão” – que pode ser também uma forma de exploração -, do “narcisismo- cidadão”: em direcção ao selfie, ao império da velocidade, da facilidade e da quantidade. Em última análise e em termos gerais: à falta de qualidade informativa, jornalistica e literária. Interessa dar voz à “maioria” em nome de um precário comércio digital. Contudo: somos, agora, mais prisioneiros das estatísticas. Mais escravos das “citações” para nos tornarmos visiveis em motores de busca. Do número de visitas por página. Para tal acontecer: a “classe média informativa” transmutou-se numa espécie de obstáculo a eliminar. As perguntas que mais interessam, sobre o poder, deixam, por isso, de se fazer com a mesma insistência e pormenor. Muito nos começa a passar ao lado. Deveria, por estas razões, continuar a existir um espaço para todos. A análise e a crítica, exigente e profissional, têm sido desvalorizadas por vivermos e defendermos, actualmente, um ecossistema económico- digital “infestado” por “comentários”, “comentadores” e todo um conjunto de ansiosos por veículos publicitários como são as conferências TED Talk. Tentando-se degradar, para que tal seja possível, o que aparenta vir de cima. Mudanças sociais que se tornam insuficientes para uma conveniente – ou inconveniente – compreensão histórica, artística, literária, jornalistica, musical e cinematográfica. Novamente no que se refere a esta última área – poderia utilizar outras para servirem de exemplos mas parece-me suficiente nomear, pelo menos para já, apenas uma – : navegamos, hoje em dia, sofregamente por sítios infestados de cartazes com filmes principalmente americanos: os de terror, as comédias românticas e os filmes de acção. O trio “paralítico” habitual que, grande parte das vezes, é-nos oferecido como se fosse uma espécie de pronto-a-comer sem qualquer descrição, com qualidade, que nos permita situar a obra de uma forma política, social e, por isso, temporal. Um ciclo vicioso que tem favorecido o parco interesse dado ao argumento e à realização – à autoria e ao nome do realizador – por parte de um género de consumidor, de tipo novo e coleccionista, que, acantonado no seu “nicho”, se tem habituado, progressivamente, a uma procura preguiçosa, pouco informada, fragmentada e desconexa: “vê-se o primeiro que aparecer”. Tanto nas salas que ainda resistem em centros comerciais como nos diversos sítios que proliferam pela internet. É a cara, a pose dos actores e a capa mais “atractiva” aquilo que parece interessar cada vez mais. A história do cinema como, aliás, quase toda a história, parece, actualmente, ser pouco necessária à cultura popular. “Formatar o sistema !”: repete-se, por aí, relativamente a quase tudo o que seja manifestação cultural. Mas a presente “revolução”, mais do que “digital”, é social: trata-se da construção de um estado – de um estado, semi- amnésico, de pensamento – que se deseja alheio ao “exterior” e também àquilo que lhe é “anterior”. A “mudança de paradigma”: um rompimento que, embora seja necessário em determinados aspectos, parece querer evitar, em larga escala e apesar de toda a informação e literatura, dispersa e digitalizada, um significado e o passado. É apenas uma da contradicções do presente. Continuamos, contudo, a precisar de jornais. As assinaturas nunca foram tão baratas. Entraram em espírito low- cost.

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O Confronto de Bartleby Com o Planeta Terra

“Já tudo foi escrito”: afirmou Bartleby. Essa espécie de homem que não pára de andar em circulos, com os dentes semi- cerrados, sem chegar, efectivamente, a lado nenhum. Como se, realmente, o desejasse. “Tens a certeza?”: contrapôs, entristecido, o Planeta Terra. “Sim ! Repara: muito daquilo que nos foi, e que nos continua a ser essencial foi elaborado, pensado, pintado e escrito – e com todas as cores ! – de uma forma muito mais rica e simbólica a partir da Antiga Grécia. Que vontades dali vieram ! Passámos, entretanto, por uma longa fase negra, embora diversa como em todas as épocas, no que respeita a uma interpretação da “existência” e da “realidade”. Felizmente que muito desse significado, mesmo que encontrado em cacos depois de ter sido marcado na pedra, acabou por ser recuperado. O que favoreceu uma  reabertura e, por isto, uma recriação. Desde a época do Renascentismo, com altos e baixos e através de inevitáveis ciclos, não parámos de, em certo sentido, evoluir. Repara, como exemplo, em toda a tecnologia que conseguimos desenvolver e que estamos, presentemente, a produzir. Mas olha, principalmente, para tudo o que se escreveu, ou se pintou, com a passagem dos séculos. Olhemos, também, para a complexidade. Que se teima agora em perder, em reduzir e em recusar. Que percorreu, por exemplo, o fascinante vulcão de ideias, de sementes e de uma verdadeira “inovação” que construiu todo o século XX. Chegamos a um momento em que, nos domínios das artes e da literatura, pouco parece ser ultrapassável. Acrescentamos, quase unicamente, “estatísticas”. Há quem o defenda e quem o advogue: alguns pretendem, através da retórica, acabar com tudo isso. Será necessário? Em nome de quê e em nome de quem? Com tanta liberdade e andamo-nos a castrar. O quê?? É que, neste momento, recomeçamos a simplificar. Escrevendo, como se costuma dizer, por exemplo, para os lados de Inglaterra, com uma forma cada vez mais “limpida e cristalina”. Dizemos “adeus” às metáforas: a tudo o que foi – e que poderia voltar a ser – realmente individual, emocional e profundo. Abraçamos, outra vez, a superfície moral: “as biologias !”; “as neuro- ciências !”. Ao ponto de já existirem alguns robôs a “escrever”, a “decidir”, a “criar” por nós. Existirá algo mais “simples”? Tudo se deseja compreensível: “directo”, “eficaz”, “objectivo”. “Nada que tenha a ver com a natureza humana: fujamos dela !”. E, realmente por tudo isto, a “realidade” torna-se menos explicável. Estamos, novamente, em terrenos do triunfo da “matemática”, da computação, de um “cérebro” sem corpo. Já tudo foi escrito. E, no entanto, nunca existiu tanta “leitura”, nunca se viram tantos “livros” e nunca houve, a circular, tanta “informação”: “dados”, “factos” e “estatísticas”. Numa ausência de mundo, de plantas carnívoras e adocicadas, de música e planetas interiores. Nada de inteiramente novo se faz. Autores contemporâneos, também em nome do mercado, não querem ser contaminados. Têm “medo” de ler determinadas obras porque as consideram “ultrapassadas” – que, muitas vezes, não o estão: apenas para o necessário espírito do tempo que corre; que quer correr -, “antigas” e “tradicionais”. Esta vontade de velocidade: fugindo de quê? Esquecendo o quê? Deixam de as entender. E suspeito que não desejam voltar a compreender. Seria tudo demasiado…”.”Complexo, Bartleby ? Chegaste a um ponto fundamental”: retorquiu, desiludido, o Planeta Terra com este outrora grande homem que, para ter amigos, se transformou em homensinho. “Tens ficado com um problema de memória. Anuncias por aí que queres “formatar o sistema”. “Fazer a revolução! “. Dizendo, enquanto andas em circulos e de mãos atrás das costas, que já tudo foi escrito. Existe, contudo, um pormenor importante que também tens “esquecido”. “Qual?”: inquiriu, Bartleby, visivelmente  irritado e desafiador. “Repetes e repetes que já tudo foi escrito. Mas, de certa forma, o único grande problema é teres ficado com as costas demasiado pesadas e, por isso, demasiado quebradas. A questão é que existe algo, para lá do “conhecimento”, que é igualmente importante”. Barleby não tinha a certeza se desejava saber a resposta. Talvez as dúvidas e, ao mesmo tempo, tantas certezas lhe dessem algum jeito para, lá no fundo, não resolver problema nenhum. Talvez gostasse de ter ficado com as costas pesadas. Mas, a medo, avançou: “o quê?”. Planeta Terra: ” Corta a corda, Bartleby ! Olha para lá do “conhecimento”. Utiliza a imaginação. Achas que já tudo foi escrito. Contudo: nem tudo foi inscrito !


Arte e Antídoto

As biografias “apaixonam-me”. Escritas ou filmadas. É um género que nos põe os pés definitivamente assentes na terra – ou ausentes da Terra? – relativamente a figuras que, para o bem e para o mal, nos habituamos a admirar. Têm a faculdade de nos mostrar a realidade, que se tenta esconder, por trás daquilo que se compôs, filmou ou escreveu. Assim como, ao que parece, a “consciência” tem o propósito de confirmar ou de contrariar aquilo que verdadeiramente se sente: uma biografia, bem esmiuçada e detalhada, revela-nos o homem – ou a mulher – que se esconde por trás da “máscara”: de um propósito social. Mesmo existindo um sentido construtivo -: não me parece ser raro o facto de que aquilo que é, por exemplo, escrito constituir uma espécie de panaceia – o antídoto – para os sofrimentos e os desejos, psico- sexuais e amorosos, de um autor. É exactamente neste ponto que começamos a falar em “optimismo”. Expressão, assim como “a razão”, que terá tantos significados como protagonistas. A escrita, a música e o cinema como manifestação de “doenças”. Projecções positivas para o “mal estar”. “Encher o mundo de delírios que entretenham – e enganem – os outros”: diria, desta forma, o melhor paciente. Focos de luz para si próprio. Mas que sirvam, também, os outros com lágrimas, sorrisos e algum enaltecimento. A cada um o seu vulcão: aproveitemos a lava.

 


Michael Jackson: O “Ilusionista”

Parece-me que, até hoje, aquilo que foi dito e escrito, em termos jornalisticos, sobre Michael Jackson evita algumas questões. O que foi publicado parece-me ficar um pouco aquém de um trabalho psicológico que poderia ser mais exaustivo. Ultrapassando lugares comuns e as habituais dicotomias. Tanto a comunicação social como os fãs, grande parte das vezes, “não fizeram mais” do que amplificar preconceitos: o “demónio” contra o “anjo”; “Rei do Flop” contra o “génio” inatacável. Os jornais, por exemplo, repetiram, durante anos e sem correcta verificação de dados, uma visão que poderiamos denominar como “norte-americana”. Ignorando a “europeia”. A primeira repetia incessantemente que “após os trabalhos Off The Wall, Thriller e Bad, tinha perdido o carisma e a popularidade que o tinham caracterizado”. Talvez tal tenha acontecido, efectivamente, a partir do ano de 1997. Quando foi lançado o trabalho de remisturas, com alguns temas originais, “Blood On The Dance Floor”. Mas, entretanto, parecia ter tido influência, enquanto os discos se continuavam a vender – mais de 30 milhões de cópias para o álbum Dangerous -, uma certa vergonha. Não me parece que o possamos atribuir unicamente às acusações de pedofilia ou a “questões raciais” relativas à mudança da cor da pele. Contribuía para isso também uma certa estranheza favorecida por ele próprio. Dizia-se, publicamente, gostar mais de Prince ou Madonna. Que, apesar do maior número de lançamentos discográficos, vendiam muito menos. Ou tinha-se um certo pudor em admitir a existência de importantes dimensões extra- musicais. De qualquer forma: não é um trabalho exaustivo que proponho através deste artigo. Não pretendo, com ele, ser “científico”. É apenas uma chamada de atenção. Para um dos pormenores que, bem estudados, poderiam fazer parte de um retrato sério e alargado. Não me vou referir a aspectos artísticos. Que embora durante muitos anos, antes da morte, tenham sido esquecidos estão actualmente bem documentados. Mas a questões evitadas por ele próprio. Ou pela imagem que quisemos perpetuar, a nível de imaginário, dentro de nós. Não me vou alongar. Apresentarei apenas alguns exemplos. Como ponto de partida. Que, bem desfiado, pode contribuir para a compreensão daquilo que poderiamos denominar como uma elaborada ficção.

De facto: o cantor constituiu e favoreceu, para os outros e para si próprio, uma espécie de enigma. Um “cubo mágico”. Habituado, desde novo, à indústria musical e a tentar controlar a comunicação social: construiu uma espécie de personagem dividida. Imagem que mais tarde lhe foi devolvida. Espelho “monstruoso” que, no fim, se desmoronou. Se virou contra si próprio. Uma parte do qual, muitos de nós, não hesitamos a apelidar de “infantil”. A nossa natural aversão a qualquer tipo de manipulação externa não nos permite perceber, muitas vezes, que os ingénuos, afinal, fomos nós. Rejeitava, assim, uma definição: não parecia homem nem mulher, branco ou negro, adulto ou criança. Por outro lado, na vida como no palco, combinava sexo com espiritualidade. Gestos calmos com agressividade. Uma misteriosa simbiose do “demoníaco” com o “divino”.

Desde a “era” – como lhe chamam alguns admiradores – do álbum Thriller, de 1982 a 1984, que resolveu, em conjunto com o produtor Quincy Jones, distribuir boatos acerca de si próprio. Para mais tarde os negar. Que perduram ainda hoje em dia no imaginário popular. Como exemplo: que dormia numa câmara de oxigénio para poder viver até aos 150 anos. Ou que tinha tentado comprar os ossos do homem elefante. Negou-o em 1993 numa entrevista a Oprah Winfrey – embora tenha sido confirmado mais tarde pelo detentor – mas afirmou identificar-se com o personagem principal depois de ter visto o filme exactamente: “O Homem Elefante” de 1980 – com o qual David Lynch ganhou o prémio de melhor filme na cerimónia dos British Academy Awards. Ao longo dos anos, avesso à construção de ilusões como sou, não pude deixar de ler inúmeros depoimentos que davam conta deste tipo de estratégias por parte do auto- denominado “Rei da Pop”. Que, pelos vistos e segundo locutores da estação, pediu, via Sony Music, ao canal de música MTV que o tratasse daquela forma a partir do momento do lançamento do álbum Dangerous de 1991. Sei que me arrisco, se fosse lido por algum fanático do cantor – também o fui na minha adolescência – a ser verbalmente “atacado”. Apelidado, imediatamente, de “hater”. Conheço-os bem. Basta consultar qualquer fórum de discussão para percebermos em que espécie de “igreja” acabamos de entrar. Contudo: devo dizer que são algumas destas caracteristicas, ambora não as eleve a ideal, que fizeram dele, para mim, uma personagem artística interessante. Que, para além do trabalho que desenvolveu, o tornaram culturalmente relevante. Como artista que era: desenvolveu- se a si próprio. Um mutante. Não admira, aliás, a popularidade que sempre teve junto da comunidade japonesa. Que, habituados a metamorfoses, clones e robots, o olharam com uma grelha moral distinta da ocidental.

Um outro exemplo: a célebre máscara – eram várias e de todas as cores – que usava frequentemente e que lhe tapava o rosto não era, pelos vistos, apenas e como se dizia, “medo dos germes” – se fosse, aliás, este o caso: não meteria continuamente as mãos na terra para o vídeo de “Earth Song” que foi lançado em 1996 – ou para se proteger do sol por causa da doença de despigmentação da pele da qual efectivamente sofria. Ou devido a uma outra, Lupus, da qual também padeciaambas foram confirmadas por vários médicos e, também, pela autópsia que, após a morte, foi disponibilizada na internet.Servia, adicionalmente e pelos vistos, para criar burburinho. Na expressão dele próprio – segundo um amigo pessoal – : “Dazzle Wazzle”.

A voz que utilizava em público também divergia daquela que usava em privado: bastante mais grave. Fomo-nos, aliás, apercebendo de uma certa diferença nos últimos anos e não faltam vídeos, no You Tube, a confirmá-lo. Segundo o treinador pessoal de voz: conseguia, a cantar, atingir “as notas mais altas mas também as mais baixas”. Contudo: só utilizava, normalmente, as primeiras. Provavelmente para projectar a imagem de fantasia que resolveu conceber. “Não gosto de estar lá em baixo. Gosto de estar lá em cima”: afirmou, quase a cantar e em conversa ao telefone, depois de ter sido “apanhado”, segundo a mesma fonte, a utilizar uma voz “bastante masculina”. Para o confirmar: visualizar o documentário que acompanhou a edição comemorativa dos 25 anos do álbum Bad de 1987. Estamos, portanto, em território “Disney”.

Não era, ao que parece, também o assexuado que todos nos habituamos ou conseguimos compreender. A ex-mulher Lisa Marie Presley, aliás, não deixou de afirmar, em entrevistas, que o cantor bebia vinho, fumava um charro de vez em quando e que era sexualmente agressivo. Gostava, pelos vistos, de representar papeis na cama. Também fez, adicionalmente, referências à suposta “ingenuidade” e ao tom de voz. Afirmando não perceber “porque é que teimava em fazer aquele papel quando aparecia na televisão”.

As tentativas de negação da intenção de iludir ou de chocar acompanharam, também, o lançamento do vídeo- clipe que foi realizado em 1991 por John Landis – realizador de “Um lobisomem americano em Paris” e com o qual já tinha trabalhado no vídeo para Thriller em 1984 – para o single “Black or White” . Na segunda parte do “short- film” – como lhes costumava chamar para os distinguir de uma normal sucessão de passos de dança ou imagens sem significado ou argumento – transforma-se numa pantera negra para depois se transmutar novamente nele próprio. Para, logo em seguida, partir vidros, janelas de carros e simular actos de masturbação ao som de sapateado. Afirmou, mais tarde através de um comunicado, querer “imitar os instintos de uma pantera”. Mas também “combater o racismo”. O vídeo acabou por ser alterado para que fossem colocados símbolos do Klu Klux Klan por cima dos vidros que seriam posteriormente estilhaçados. De qualquer forma: o efeito tinha sido conseguido. O vídeo tinha sido visto, na primeira vez que foi transmitido, por cerca de 500 milhões espectadores. E o tema , ultrapassando Billie Jean, tornou-se no maior sucesso comercial de sempre do cantor.

Quando o, agora mais ou menos esquecido, álbum duplo History foi lançado, no ano de 1995, Michael Jackson utilizou dinheiro do próprio bolso para filmar um vídeo promocional introdutório, sem música, para anunciar o regresso. Inicialmente concebido para ser projectado em cinemas e intitulado “The Great Redemptor of Eastern Europe”: é uma megalómana combinação de estética fascista e comunista. Baseada, visivelmente e visualmente, no filme “O Triunfo da Vontade” que Leni Riefenstahl dirigiu em 1935para a propaganda nazi alemã. O que não quer dizer que acreditasse em tais ideologias. Algumas semanas mais tarde, numa entrevista à jornalista norte- americana Diane Sawyer para o canal ABC, negava qualquer tipo de mensagem política: ” fala sobre amor”. Quando confrontado, na mesma emissão, com as palavras de um crítico de um conhecido jornal – qualquer coisa como “nunca se viu tamanha auto- glorificação, até hoje, feita por parte de um artista pop” – , não hesitou. Afirmou espontaneamente e com um grande sorriso: “Óptimo ! Cairam na minha armadilha !”. Portanto: “limbo”. Nem guerra nem amor. Existem, além destes, bastantes mais exemplos.

Não deixa de nos ficar a sensação, por isso, que o acto final constituiu, também ele, uma espécie de fingimento. Não me refiro relativamente à morte. Contudo: o contrato inicial relativo à digressão que iria ter início em julho de 2009 referia-se a, apenas, dez concertos consecutivos. Com 50 anos de idade, uso recorrente de várias drogas psiquiátricas e onze anos de ausência dos palcos: viu o número, repentinamente, ser aumentado para 40 datas. Os ensaios e a preparação física iniciaram- se em contra- relógio. O cansaço era visivel no documentário que foi lançado posteriormente e intitulado “This is It”. Sentia-se, de qualquer forma, uma contradição: tentava esforçar-se, através do uso da voz e de alguns passos de dança, como se estivesse diante de uma plateia. O que nunca tinha feito anteriormente. Podemos tentar atribuí-lo ao facto de, no fundo, encontrar-se no meio de um conjunto de dançarinos mais novos e, por isso, com mais energia. Contudo: se visualizarmos as imagens de ensaios de épocas anteriores não podemos deixar de reparar que o cantor não tentava provar absolutamente nada. Como se estivesse apenas a visualizar o que iria apresentar futuramente. Para, repentinamente, “explodir” no primeiro concerto. Esta “especulação” não surge sem algumas evidências. Podemos tomar contacto com uma delas através do vídeo das filmagens de um documentário emitido no ano de 2003. Onde não conseguia disfarçar o cansaço relativamente ao esforço exigido pelas digressões. Quando lhe pediram para dar uma resposta que estivesse de acordo com aquilo que se esperava dele: tentou durante alguns segundos. Mas foi interrompido por um ataque de riso geral.

Não existem, como sempre, verdades ou realidades absolutas. Resta-nos o “mito” e a História: sempre ilusória. Sempre mal contada. Sempre individualmente interpretada. Este “rascunho” que acabo de apresentar não escapa a tal categorização.

Como nota final: a conjuntura, artística, actual não permite o tipo de “poesia” que idealizou e concebeu. Nãonos devolve qualquer tipo de mistério. A economia de curto- prazo, em diversos sectores, pede rapidez, “resultados imediatos” e, acima de tudo, “transparência”. Menos espírito e mais proximidade. Não impulsiona nem favorece a criação pormenorizada e planeada que atravessava, anteriormente ao advento da ideologia da “digitalização total”, a vida de um projecto cultural de longo prazo. Já não somos, afinal, criadores. Somos “criativos”. Ganha-se, com isto, quantidade. Mas perde-se “mundo” e densidade: a companhia de figuras “maiores”. Precisamos, actualmente, de “formatar o sistema”. Convém, contudo, não esquecermos alguns destes exemplos. Porque nos transmitiam, pelo menos, uma sensação de continuidade. De preserverança. Em época de crise: é dela que precisamos.

De qualquer forma: não estamos “imunes”. A época da televisão e, por isso, da “ilusão” como a conhecemos, pode ter acabado. Não nos podemos esquecer, de qualquer forma, que ela foi multiplicada e transferida para aquilo que determina a actualidade: a sociedade do gadget e do ecrã “perpétuo”. De “santos” não temos nada.


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