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Sexofobias

Segundo Frei Bento Domingues, numa crónica do jornal Público disponibilizada no passado dia 15, vem aí a “terceira igreja”: parece que o Papa Francisco recusa “fazer da fé cristã uma tristeza”. Está a – vou citar de forma reconstruída – “irritar não só a alta finança, mas também os movimentos que tentam recuperar o medo do pecado e a ameaça do inferno com o auxílio de eclesiásticos vestidos e calçados a preceito”. Esperemos que sim. Conhecemos a História e, apesar do progresso, sabemos o que nos costuma trazer a vontade de “austeridade” em épocas de crise económica e financeira. Cresce, também, o racismo. Como surgem, aqui e ali, erupções de ultra- nacionalismo. Regressa, portanto, o homem do costume: com batina ou sem batina; chefe de estado ou “cidadão”. Júlio Machado Vaz, numa das últimas crónicas para a Antena 1, discutiu – afirmando, pelo meio, que vivemos “numa sociedade pouco erótica” – um estudo que dá conta de uma ligeira descida no número de relações sexuais nos últimos 20 anos. Acompanhada por uma perda do aprofundamento relacional. Devido à crise mas, também, ao excesso de distracções tecnológicas e de entretenimento mediático. Os ares dos tempos parecem anunciar, por isto, uma nova conspiração contra o corpo: uma fuga do baixo ventre para o cérebro. Não será por acaso, aliás, todo o favorecimento civilizacional actual do racionalismo e da neurologia contra outras disciplinas: tudo o que é, no fundo, do pescoço para cima. Em direcção à inteligência artificial. A um outro tipo de espiritualidade. Com igreja ou sem igreja: o ser humano disfarça e tenta reconstruí-la com moldes mais refinados: foge da natureza e da Terra através do sintético, do plástico, do “sexo virtual”. Tudo, no fundo, o que não implique carne, pele, qualquer género de líquido corporal: não deixa de nos vir à memória o filme Gattaca, de 1997, realizado por Andrew Niccol. Onde quem tentasse ter relações sexuais segundo métodos naturais – como nós: ainda humanos – era perseguido. Portanto: antes que surjam as circunstâncias do costume – e o bullying, devido à homofobia, aumenta entre gerações mais novas – : há direitos que demoram tempo a conquistar. E, por isso, têm que ser defendidos: sexo por amor, sexo sem amor, com casamento ou sem casamento, heterosexual, bissexual, homosexual, transsexual, a dois ou em grupo, sado- masoquista ou soft, com plástico ou sem plástico, com “brinquedos” ou sem “brinquedos”, com “fidelidade” ou troca de casais: podemos não gostar devido à nossa sensibilidade e à prática individual de cada um. Mas a cada um o seu “sintoma”. Tiremos a “batina”.


História e O Enigma de Sempre

Não houve era que, para melhor se poder orgulhar, não construisse uma arrogância. Como a nossa: que se ri – diz-se “superior”: como se falasse relativamente a um macaco qualquer (e mesmo assim…) – dos homens, que nos ensinaram, do “passado”. Como não existe idade que não tivesse vivido uma adolescência. Como agora: que desconhece, apesar dos anúncios ou “previsões” que andam por aí, a criação do futuro. Com igual – por um lado, legítimo, e por outro, igualmente injusto – desprezo por nós.

Podemos imaginar: alguns “antigos” fariam, imediatamente, uma comédia com aquilo a que hoje – porque não conhecemos mais nada – denominamos por “felicidade”.

Actualmente: enquanto uma facção, mais fugidia e radical, tenta, a todo o custo e com vários géneros de varrimentos e supressões, comparar o cérebro a um computador – decompondo-o em digitos -, menorizando-o, para que dele se possa, imaginariamente, aproximar; ao mesmo tempo que, num outro lugar, se tenta escapar à dor, ao prazer e ao corpo através de uma tentativa de “digitalização total” do espaço urbano e da sociedade; apesar do historiador David Cannadine ter acabado de editar o livro “The Undivided Past: History Beyond Our Differences” – como nos relata Mark Mazower através do artigo intitulado, muito simplesmente, “The Undivided Past’, by David Cannadine” e disponibilizado no Finantial Times – onde parece defender que, em nome de utópica uniformização social, a história e, portanto, a memória, como foi anteriormente formulada, deve ser alterada – eliminando a diversidade com fins políticos; com vista a uma “igualdade” (tendo-o a ele como molde?) -: a sensação que perdura é a mais básica de todas. A mesma do costume. Apesar de todas as versões; interpretações, opostas, da humanidade; fotografias, privadas, da realidade: não sabemos, muito bem, o que andamos aqui a fazer. A não ser, claro, que nos aldrabemos com certeza.

Relativamente a directivas actuais, como as que apontei no parágrafo anterior, não é que o homem, quanto a mim, ambicione “desaparecer” ou transmutar-se “em pontinhos de luz eléctrica” como a isso aspiram, cheios de horror a si próprios, alguns filósofos ou “profetas” da tecnologia. Mas, como já não abarca nem entende o que, ao longo de milénios, concebeu: necessita resumir-se. Arranjar uma síntese. Que só virá através de nova “mentira”.

Ao entrar numa igreja, como ateu, e olhar, na pedra, para toda a intemporalidade: questionei-me acerca do direito que tenho em criticar aquelas duas ou três pessoas, sentadas na madeira, que precisam de uma narrativa como o homem contemporâneo necessita de plástico; de lamber e de louvar o seu I- PAD. Continuamos – apesar dos slogans; embora os impulsos – na “Era do Desconhecimento”. Como foi. Como será.

Há enigmas que não são moldáveis. Permanecem, como sempre, à espreita. Para fazer desabar qualquer construção ideológica que vier a seguir. O panteão, de qualquer forma, disse-nos a partir daquela época: “cerrar os olhos”; “para a frente”.


Não És Rato Nem És Nada (Homem no Laboratório)

Num tempo em que o indivíduo faz tudo para perder a privacidade – se tornou, definitivamente, produto – em favor de uma mútua – sempre renovada; mais sofisticada – exploração; se converte, tendencialmente, não tanto em “criatividade” mas em filho menor escravo da velocidade: em “indústria criativa”; filma, fotografa e noticia por ambicionar chegar a ser, ele próprio, “informação”; se define como amontoado de dados que serão armazenados que serão comercializados: que espaço sobra, devido a tudo isto, para a autonomia? Para a vontade pessoal?

O artigo, amplamente partilhado nas redes sociais, intitulado “Ratos com os cérebros ligados entre si conseguem comunicar“, da autoria de Ana Gerschenfeld, disponibilizado, dia 28 de fevereiro, na versão em linha do jornal Público: relata-nos um estudo, da equipa de Miguel Nicolelis, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos da América e de Edmond e Lily Safra, do Instituto de Neurociências de Natal, no Brasil, publicado na revista Scientific Reports do grupo da Nature. Nele ficamos a saber que “um rato aprende a desempenhar uma tarefa motora, o outro não”. O primeiro ensina, depois, o segundo. Através de “transmissão intercerebral”. Nomeadamente através da implantação “de eléctrodos no córtex motor e no córtex cerebral”. Ligados por “finíssimos fios eléctricos”. Segundo Nicolelis: “estamos a criar aquilo a que eu chamo um computador orgânico, capaz de resolver um problema de maneira diferente (…) dos computadores convencionais”; “…estamos a criar um único sistema nervoso central…”; “nem sequer é possível prever que tipo de propriedades poderiam emergir quando um grupo de animais começar a interagir como componente de uma rede de cérebros”; “em princípio seria possível imaginar que uma combinação de cérebros fosse capaz de fornecer soluções que um cérebro sozinho seria incapaz de formular”. Nada disto fica por aqui. Segundo noticia o Público, de acordo com as palavras do investigador, “a ligação intercerebral poderá mesmo fazer com que um animal incorpore o sentido do “eu” de outro animal”; “foram detectados, no cérebro do rato descodificador, neurónios que reagiam aos bigodes de ambos” o que “significa que esse rato criava uma segunda representação de um segundo corpo por cima do próprio corpo”.

Isto é, nada mais nada menos, que brainstorming. Para além de determinadas palavras- chave – muito dadas a uma certa economia narrativa – : é imaginário conhecido da ficção cientifica. Que costuma reflectir o medo que o homem tem das próprias criações. Mas, adicionalmente, um desejo. Poderemos, a partir daqui, imaginar, ou não, os efeitos de uma transposição da experiência que vá para além dos ratos. Volto ao parágrafo inicial: que sentido toma – como propósito – um espaço colectivo que, na busca de “soluções”, deixa cair o pessoal?  “Pensar em rede” ou deixar de pensar?


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