Category Archives: neurologia

O Robot que Sonha ser um Homem

Não gosto de dormir apenas por uma questão de descanso mental ou corporal – o que acaba, no fundo, por ser mais ou menos a mesma coisa -. Deito-me, quase sempre, com esta espécie de “desígnio”: o de descobrir, através do sonho, as diversas camadas, escondidas, que me compõem. Na minha adolescência cheguei-o a fazer, algumas vezes, com um lápis e um bloco pousados na mesa de cabeceira. Para, se acordasse a meio da noite, escrever palavras- chave que me fizessem retornar e recuperar de manhã aquilo que de outra forma teria inevitavelmente esquecido. E focar-me seguidamente nos pormenores. Existem alguns muito antigos. Vou contar o primeiro de que me consigo lembrar e dar liberdade de interpretação a cada leitor. Penso que devia ter mais ou menos uns quatro anos: estou na sala de estar na casa onde morava com os meus pais quando tocam à campainha. Vou atender e, quando abro a porta, encontro à entrada uma espécie de boi castanho escuro. Fujo com medo em direcção à sala e salto para cima de um dos sofás. O boi, nesse momento, bate-me com os cornos fazendo-me cair imediatamente no chão. Acaba aqui. Devo dizer que ainda não sei o significado completo mas acredito estar perto. “Empreitadas” destas podem demorar alguns anos. Numa pequena parte dos sonhos que tenho costumo visitar, de vez em quando, os mesmos lugares. Ou encontrar as mesmas personagens. Como se as resolvesse visitar. E como se, efectivamente, nos lembrássemos uns dos outros. Nunca nos importamos minimamente com o que se passa “cá fora”. Contudo: nunca os tive daquele género que é habitualmente denominado, por algumas pessoas que conheço, como “recorrentes”. São sempre diferentes. E, de “normal”, não têm nada. Com isto: vem-me à memória uma tarde de 1992, quando tinha 19 anos, em que estava sentado numa cadeira, em casa, e “descobri” uma espécie de “poder”. Que, cheio de medo, rapidamente resolvi abandonar. Reparei, ao tentar lembrar-me do sonho da noite anterior, que o conseguia visualisar cronologicamente e em “marcha- atrás”. Mais ainda: o ponto inicial estava como que colado – como o rolo de um filme para cinema – à parte final daquele que lhe era mais próximo. Isto sucessivamente e como se existe dentro de nós uma caixinha secreta ou, para agradar aos “localistas”, uma “área cerebral” que os armazenasse daquela forma. Penso ter percorrido cerca de uma dezena. De qualquer forma, assustado com a descoberta como fiquei, não continuei. Hoje em dia, bastante influenciado pela leitura de livros de psicanálise, faço-o de forma mais distante. Mas, também, mais elaborada. Escrevo, quando acordo, aquilo de que me consigo lembrar. Para então observar o que me surge posteriormente: as emoções, deformações, ou personagens escondidas com as quais normalmente não queremos entrar em contacto. Alguns “racionalistas”, com toda a sua vontade de ficção e de massificação cultural, fogem, com horror, de tudo isto. Devido ao facto de terem o coração no meio da testa: “inventam”, para si próprios e para os outros, uma série de estudos “cientificos” simplificados. Afirmando habitualmente e por exemplo que “Freud está morto”. O que revela, não raras vezes, mais vontade de “matar” do que de “conhecer”. Dá a sensação, aliás, que, muitas vezes, não leram uma página que fosse do autor. Ficam desta forma descansados. Arrumam a questão. É, por vezes, o mesmo tipo de pessoas que afirma “nunca se lembrar” dos sonhos que tem. O que mostra, na minha perspectiva, o quanto o evitam fazer. Pior é aquele que está convencido de que “nunca sonha”. Acontece, para o “bem” e para o “mal”, que o inconsciente – assim como uma árvore que cresce indiferente ao “progresso”, à moral e à civilização -, não está minimamente importado com o facto de acreditarmos nele ou não. E acaba, mais tarde ou mais cedo, por rebentar como a força de um rio frente a uma qualquer barragem prepotente. Há, assim, uma espécie de especificidade que se perde com a fuga permanente. O sonho pode mascarar, através de simbolos, aquilo que temos de mais arbitrário. Mas devolve-nos aquilo que somos ou que há muito perdemos. Encontramos, por isso e através deles, mais realidade interior do que quando estamos acordados. Ou falsificados por aquilo que apelidamos de “consciência”. Estamos, de dia, demasiadamente “ocupados”: a “produzir” ou a postar “informação”. Não raras vezes: a tentar evitar a imaginação. Não pode, por isso, deixar de nos vir à lembrança um célebre conto chinês: “Certa vez o mestre taoista Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Que voava alegremente aqui e ali. No sonho não tinha a mínima consciência da sua individualidade como pessoa. Era realmente uma borboleta. Repentinamente acordou e descobriu-se deitado ali como pessoa novamente. Foi então que pensou para si mesmo: fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta ou sou agora uma borboleta que sonha ser um homem?”. Podemos, actualmente, ir “mais longe”. Quase acredito, hoje em dia, que a realidade, “lá fora”, tem o mesmo valor face à nossa vida digitalmente “conectada”. Podemos então dizer: fui antes um homem que sonhava ser robot ou sou agora um robot que sonha ser um homem?

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Viagem ao Centro da Terra: Neuro- Psicanálise e “Integração”

Interrompi a leitura, há quase dois anos, do último livro de António Damásio intitulado “O Livro da Consciência” – ao que parece: uma obra que faz o ponto da situação do trabalho desenvolvido até agora desde o aclamado “O Erro de Decartes” de 1995 – . Parei no início da página 155. Onde começa o capítulo “Como sentimos uma emoção?”. Encontra-se à espera, desde então e no meio de outros, na mesa de cabeceira. Até agora. De vez em quando perdemos o interesse relativamente a um tema, sem percebermos muito bem porquê – embora acredite que existe quase sempre uma razão subjectiva para além do habitual “não me apetece” -, para o recuperarmos, sem “escolhermos” conscientemente a data e o momento, de repente. Devo dizer que a neurologia é das áreas que menos me entusiasma. Há  sempre, nela, qualquer coisa de incompleto em termos explicativos. Muitas das interpretações que são dadas a partir de estudos acerca dos quais temos conhecimento a partir da comunicação social parecem-me, quase sempre, ingénuas. Para não dizer pretensiosas perante muito do que se escreveu anteriormente. Mas vivemos um tempo em que impera a “especialização”. O que impede, não raras vezes, um conhecimento em direcção a algo mais geral e integrado.  A pressa na publicação de artigos “científicos” para se ser “citado” ou para dar visibilidade ao jornal académico na economia digital – que vive da barata publicidade que lhe oferece a quantidade – não ajuda. Como também o, cada vez mais reduzido, espaço disponível nos jornais generalistas: tudo tem que ser “objectivamente” explicado. Mas António Damásio, como todos os neurólogos sérios, sabe o que anda a fazer. Não se fecha: tenta uma ponte com o pensamento de Sigmund Freud – e com aqueles que o seguiram ou desenvolveram – através da neuro- psicanálise. O inventor da prática psicanalítica foi, a seu tempo, também médico neurologista. Mas considerou, na altura, que a área estava longe de trazer resultados satisfatórios em termos de entendimento do ser humano. Há quem diga que, apesar do progresso, o mesmo se continua a passar hoje em dia. Há características, menos quantificáveis, que a tecnologia, sozinha, continua a não conseguir apreender. Quando “defendo” a psicanálise não o faço em nome da “terapia”. Mas sim como corpo teórico. Como “teoria geral da acção humana”: expressão normalmente utilizada pelo antropólogo português José Gabriel Pereira Bastos no programa, da portuense Rádio Manobras, “Conversas Freudianas”. Falando, portanto, em emoções: há qualquer coisa nestes autores que parece ultrapassar tudo o que normalmente é explicado noutras disciplinas. Não apenas ao nível da complexidade. É qualquer coisa que nos transporta quase a um último sentido. O resto, embora vasto e interessante, parece ficar à tangente e tocar, apenas, a superfície. E acaba, não raras vezes, por desapontar. Para utilizar uma analogia nada sofisticada: é mais ou menos como uma “raspadinha” que fica por esfregar. Com esta atitude, contudo, perde-se quase “tudo”: ganha-se “racionalidade”. Uma “explicação” resumida. Mas perde-se “poesia” e unicidade: a tempestade que falta e que talvez só consigamos encontrar nos escritos de um filósofo como o alemão Friedrich Nietzsche. Sobre o qual Sigmund Freud afirmou um dia, aliás, ter “mais conhecimento penetrante acerca de si próprio que qualquer outro homem que tenha até hoje existido ou que venha a existir”. Convém, por isso e periodicamente, abandonarmos as “especializações” e a “objectividade”. O “racionalismo” pós- moderno, não raras vezes, tem qualquer coisa de paradoxalmente “irracional”. Pouco intuitivo. Aparenta ser, de certa forma, um “sistema defensivo” contra a realidade última das coisas. Que nos impede de ver um pouco mais longe. Para conhecermos o corpo, o que está por trás da “pele” e da consciência; para encontrarmos consistência: precisamos, por vezes, de ser subjectivos. Pegarmos num candelabro e, acompanhados por uma banda sonora de um dos primeiros filmes russos que foram realizados, a preto e branco, prepararmos uma descida aos infernos: fazer uma viagem ao centro da Terra, ainda em chamas, para apanharmos todas as plantas carnívoras. Isto é, para utilizar uma expressão de António Damásio, “consciência de si”.


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