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“Informação”: O Futuro de uma Ilusão (Artigo publicado na edição do Diário do Minho de 25 de Novembro de 2014)

Estamos possivelmente em vias de “escrever”, inconscientemente, uma espécie de distopia e não desconfiávamos. O mundo, como se encontra actualmente, complexifica-se à velocidade da máquina. Mas não à velocidade do ser humano. Que, “coitado”, continua, apesar de tudo, humano. E não tem tempo nem disponibilidade mental para compreender satisfatoriamente o que se prepara em termos sociais. A maior parte de nós vê a vida concentrada a passar-nos à frente em múltiplos ecrãs sem perceber, no fundo, o que, por trás, significam. Sem entendermos em que direcção nos move uma rede ideológica e comercial que se multiplica. Os anúncios são feitos diáriamente: mais um smartphone, mais um I- Pad, mais um relógio com vídeo- câmara, mais um notebook, roupa com “informação”, os óculos da Google e, muito em breve, a hegemonia da “internet das coisas”. O que significa, basicamente, duas coisas: sensores e vigilância em cada canto e em cada esquina. No meio de tanta informação há um vazio que se agiganta: o de não estarmos em contacto com o nosso próprio e imaginativo interior. Há conversas que são constantemente interrompidas devido ao envio de um sms, pessoas que se levantam da mesa de um jantar para poderem “postar” um novo selfie no facebook para, quando regressarem à mesa, iniciarem mais conversa sobre redes sociais, cabeças que não se desviam do visor do computador quando se pede um abraço ou um simples “olá”. No fundo: a criação de uma sociedade de “autistas” que foge, sempre que pode, da realidade, das emoções e dos outros por causa de mais uma aplicação. No meio disto tudo: há já quem desenvolva aplicações para “tempos mortos”. Para nos “divertirmos” – também no ecrã – enquanto não utilizamos aplicações de trabalho. “Não podemos estar aborrecidos”. Como é que, em meia dúzia de anos, passamos, em “fila indiana”, para toda esta desconectividade real é pergunta que raramente se faz numa TED Talk – por onde passam, pelos vistos, “as mentes mais brilhantes do planeta” desde que falem, apenas, de design, tecnologia e entretenimento em cerca de 20 minutos – ou nas páginas dos jornais. Também comprometidos com a falta de indagação que traz o espírito, curvado, do tempo. Perguntei, há dias, a um psicoterapeuta meu conhecido o que pensava ele de todo o excesso de informação, desinformação, alienação e falta de verdadeiro conhecimento que o movimento ultra- consumista de curto- prazo está a provocar. A resposta foi rápida e orgulhosa: “Sabemos o que vai acontecer. Está previsto. Mais poder para nós, psicoterapeutas”.


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