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O Triunfo da “Desigualdade” ( A Mosca em Frente à Planta Carnívora)

Por meados dos anos noventa, quando frequentava o liceu Sá de Miranda, mudei-me, com os meus pais, para uma casa que se situava nos arredores da cidade de Braga. Na zona de Palmeira. Morei, entretanto com o passar dos anos, em várias localidades diferentes. Em Portugal e, mais tarde, em Inglaterra. Nunca me esquecerei, contudo, das sensações que experimentei nessa altura. Que transporto desde então. Por exemplo: as que me eram transmitidas pelos canteiros de flores arranjados pela minha mãe. Ou por algumas laranjeiras dispersas pelo jardim. Costumava deitar-me no telhado, logo a seguir ao jantar, enquanto bebia um copo de Martini, quebrando as regras de “boas maneiras”,  sempre a tender para o cheio. Olhava, desta forma, para as estrelas enquanto sentia a intensidade do aroma que vinha das laranjas que tinham crescido nesse primeiro ano. Devo dizer que, até hoje – não vale a pena discutirem comigo sobre isto -, não experimentei melhor sumo. O jardim frontal, exagerando, parecia uma floresta em miniatura, com gnomos aos saltos ou talvez estrunfes, que dava para as traseiras e para uma das paredes laterais de uma pequena habitação, onde morava uma outra família, que “exigia” ser pintada de branco. Lembro-me de, em conjunto com o meu pai, iniciar a “empreitada”. De ter um especial prazer em preencher as linhas e os espaços que circundavam as inúmeras saliências, em pedra cinzenta, que percorriam a parede de um lado a outro. Gostava de o ajudar nesta tarefa. Armávamo-nos, no fundo, em estetas. E, por isso – como todos os estetas -, em ditadores: a nossa estava demasiadamente bem arranjada para acharmos que não tinhamos o direito de impor o nosso “bom gosto” à casa dos outros. O que não foi, de qualquer forma, concluido. Cansados: resolvemos abandonar a tarefa para a podermos retomar mais tarde. O que não voltou, não sei porque razão e apesar de continuarmos ali a viver, a acontecer. Fui, entretanto, para uma Universidade na cidade do Porto estudar jornalismo. Para regressar apenas aos fins de semana. O trabalho continuou, dia após noite, por finalizar. Perguntei-me, durante os anos, porque é que não tinha continuado a fazê-lo sozinho. Era questão que me angustiava. Devo dizer que até hoje, por mais insignificante que pareça, nunca a consegui resolver. Aquela parede tinha que ser pintada até ao fim. Este pormenor, por mais desinteressante que possa parecer a um leitor, é aquele, olhando em retrospectiva, que mais me marcou enquanto ali morei. É uma daquelas sensações que, não podendo ser explicada verbalmente, faz parte daquilo que considero pertencer ao domínio do “incomunicável”. Existe, nela, uma qualquer riqueza interior que parece abraçar outras cores que não o branco – e já o sabemos: o branco esconde; é mistura; espécie de conclusão -. Ela está por trás deste pormenor, aparentemente insignificante, e faz com que “confirme” para mim mesmo – sem precisar de recorrer à estatística – que, por vezes e como num sonho, o mais importante não é aquilo que é discernível: o imediatamente “agarrado” por uma designação. Se calhar: nem com um quadro. Como conseguiria, como “artista” que não sou, transmiti-lo? Isso seria qualquer coisa do domínio da “meta- pintura”: um pintor angustiado que não consegue finalizar uma “Tela Sobre Pintura Inacabada” – talvez a solução fosse, exactamente, não a terminar?. Se determinados escritores têm bloqueios temporários ou definitivos que costumam denominar como “síndrome de Bartleby” – sobre o qual me debrucei em duas crónicas anteriores (1) e ao qual regressarei futuramente – : os pintores teriam, se já não o fizeram, de arranjar designação própria para sintoma semelhante. Alguns “racionalistas” – como “maníacos” do “cérebro” que costumam ser – tentam defender- se. Tornando, assim, a existência mais “interessante” para eles próprios. Contudo: mais desinteressante para outros. Com aquilo que, não raras vezes, apelidam de “razão” ou “progresso”. Como eles o conseguem entender. Por este motivo: têm, quase sempre, muita dificuldade em conseguir atribuir importância à complexidade que se esconde por trás do inominável que pode existir na aparente banalidade de algumas características de um qualquer universo interior. Evitando-o fazer: pretendem, a partir de si próprios, massificar. O que lhes interessa é “quantificar”. Para construir, de preferência, uma sensação – mesmo que falsa – de comunhão.  Não compreender: podem, desta forma, considerar-se “iguais” uns aos outros. Confortáveis numa maioria imaginária. Por não ousarem raspar mais fundo que a superfície da “moral” que distribuem e que forjam para si mesmos. Referem-se, normalmente, a eles próprios como “nós”. Os “bons”: os que estão sempre “certos” através da quantidade. Quanto maior é o número: mais “correctos” acreditam estar. Para isto: necessitam de uma espécie de eliminação das diferenças. Sentem-se, no meio de “clones”, mais quentes e aconchegados. Evitam o “eu” ou qualquer género de especificidade. Dizem, por exemplo, que o pormenor de um sonho é algo que “não se consegue medir”. Ou que “não traz resultados imediatos”. Um poeta, pelo menos, parece perceber – ou querer entender – alguma coisa. Por ser detentor dessa espécie de “superioridade” à qual poderemos chamar de intuição. Ele “sabe”, como subjectivista, a “razão” – a única !; a dele ! – de ser como é. Não lhe interessam as “provas”. Sabe, adicionalmente, porque é que não deseja ser um “racionalista”. Também suspeita porque é que o “racionalista” prefere não ser subjectivista: não estar atento ao pormenor. Enquanto que o “racionalista”, em sentido inverso, não costuma discernir uma coisa nem a outra. Não consegue nomear qualquer flor que tenha dentro de si próprio. A tal não se permite. Porque teme encontrar – e este é o seu maior problema – as plantas carnívoras. Podemos dizer que aqui: ele é quem teme ser mais “mosca”. Pelo contrário. Quando surge o perigo de uma pétala: arranca-a imediatamente. Para, logo de seguida, tapar o orifício. Através de continuada e insistente produção de “cimento”: horrorosamente cinzento. O poeta, de qualquer forma, perderia pouco tempo a tentar-nos “explicar” o que quer que seja. Conhece muito bem as cores que existem. Sabe que as grelhas de interpretação da “realidade” são tão múltiplas como o número de habitantes na Terra. E, quanto a isto, não existe “diplomacia” ou “política” que nos “salve”. Estamos, por isso, “condenados” a não nos entendermos completamente uns aos outros. Por mais “teses” e “estudos científicos” que se tentem. Esta, para mim, é questão essencial: “para que nos servem” todas as “estatísticas” se, grande parte das vezes, nem sequer nos conseguimos provar e explicar a nós próprios? Não há dúvida: a ingénua “sociedade da informação” e a do “conhecimento”, nisto, é demasiado “ocidental”. Precisamos de um “casamento”. Ou então: fujamos dos “racionalistas”. Não sabem pintar: se o fizerem é para se esconderem. Para apresentarem, para divertir a comunicação social e, com isso, fugirem da arte que nunca conseguiriam fazer, um urinol invertido, um quadro branco ou pintado por um macaco qualquer. Se tentarem a música: não terão paciência para nada que nos ofereça demasiadas ondas. Evitarão, principalmente, o mar alto. Negarão Tchaikovsky. Preferirão a monotonia de Vivaldi. Relativamente à música “actual”: pousarão as guitarras. O rock faz vibrar a pele. Mexe, “em demasia”, com as entranhas. Pelo contrário: ligarão, como sempre, os computadores – se possível: ligar-se-ão aos computadores – para construirem, em série, “loops” repetitivos. “Nada de variações”. Se ousarem escrever: sentirão principalmente terror pela metáfora. O que lhes interessa é serem “entendidos”. “Objectivos”: através da “legibilidade” mercantil. A poesia, para eles, lembra dor: emoções que deixaram de conseguir aguentar. Além do mais: parece ser demasiado “feminina”. Um “racionalista” faz-me agora uma pergunta: “esta crónica, que agora termina, foi exactamente sobre o quê”? Respondo: “não precisas de compreender. Não é “produtiva”. Não te vai trazer “resultados imediatos”. Olha para ela como um quadro inacabado. Mas por agora termina…”

(1) As crónicas que menciono no texto presente são “2014: O ano de dizer adeus a “Bartleby”” e “Vontade de Escrever (Contra a Pulsão Negativa)


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