Category Archives: sabedoria

O Enigma de Bartleby

Bartleby não aspira, nem de longe nem de perto, a uma simples renúncia “ética”. Esta não passaria de máscara se, de qualquer forma, não representasse uma máscara importante. Essencial: por viver de um peso, acerca do qual, não costuma, nem deseja, ter qualquer tipo de conhecimento. Isso implicaria aquilo que mais teme: um reconhecimento. Não falamos aqui, unicamente, de um certo “temor” que faz parte do passado. Do medo absurdo e contemporâneo de tudo aquilo que foi escrito anteriormente. Batleby teme, principalmente, a dor. A dor de ser, afinal, tipicamente humano. Tão humano – tão pouco robot e tão ultrapassável – como todos os antepassados. Quando pega na “pena”, numa caneta ou num amaciador teclado: ele sabe que elevará as plantas carnívoras. As dele próprio. Mas, como projecção e consequência, lembrará isso ao “resto” da humanidade. É, exactamente neste momento, que começa a esfriar. Mais concrectamente: que “finge” esfriar sem, contudo, o desejar. Neste ponto recomeça a “fugir”. Ao mesmo tempo que se auto- designa, por exemplo, como “liberal”. Reiniciando, novamente e contra a própria vontade, uma auto- tortura: um eterno passeio, pelo mesmo círculo, com os dentes semi- cerrados. Ele sabe que a mão, através da escrita, procurará e levantará as emoções mais fortes. Assim como as mais temíveis. Mas, por isso mesmo, encontrará também as mais adocicadas. Bartleby é, no fundo, um “duro”: porque foge do amor. É um “duro”, afinal, para que possa fugir do amor. Inventa, por esta razão, novos “paradigmas”. “Formata o sistema” para não se lembrar e “formata o sistema”, uma e outra vez, para não se sentir. “Não faltava mais nada”: ligações, ardor, arrependimentos. Tudo o que valeria a pena? Muito se poderia escrever sobre o coração de granito que “resolveu” construir. Ele sabe, de qualquer forma, que esta paralisia momentânea terá que ser quebrada. Para que possa reencontrar uma mais “antiga” – ofegante no meio dos escombros – sabedoria. Bartleby, para já – porque é um “duro” -, não sabe mais, furando o papel, do que escrever em rascunho. Escrever a vermelho com poucas linhas. O oposto devolver-lhe-ía a imaginação. Mas mostrar-lhe-ía, simultãneamente, ilusões desfeitas e ilhas perdidas. Sente que a “ignorância” a que se resolveu condenar – um tapume ! – lhe trará descanso e alguma “salvação”. Ele terá, contudo, que olhar para trás: abrir os olhos semi- cerrados e enfrentar tudo aquilo que perdeu. Não sejamos, contudo, castradores para com Bartleby como ele é para si próprio. Se escreve a vermelho e com poucas linhas é porque tem uma intenção. Teme odiar-se. Com medo daquela expressão, como ridículo que é, que também ele considera ser, por contaminação, a mais ridícula: Bartleby tem medo de voltar a amar. “O quê?”. Bartleby teria medo de escrever a linha anterior. “Não ! Não ! É pura ética ! Ética pura!”. Deixemo-lo, durante algum tempo, respirar. O cérebro afirma que não. Mas o coração, depois do granito ter sido quebrado, baterá novamente. Será pelo menos, a partir desse momento, meio adepto do sim. E, depois de ter coragem para chorar, adoptará totalmente o sim. A caneta, nesse momento, estará pronta.

Anúncios

%d bloggers like this: