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Os transhumanos

Quem nos diz que, pela vida fora, teremos que seguir, constantemente, pelo mesmo trilho? Quem desta forma, radical, se mumifica arrisca uma cristalização em termos de personalidade. E, por este motivo, denigre, ofuscando-as, pinturas internas. Escrevo sobre dogmas. Sobre “normas” sociais e religiosas. Falo sobre “normalidade”. Mais concrectamente sobre normatividade sexual. Acerca daquilo que, por vezes, o estado, para assim poder melhor gerir e catalogar, teima em petrificar.Tratamos, portanto, de política: de heteronormatividade. Ao ficarmos mudos perante tal imposição arriscamo-nos à doença fisica e mental. Existem, portanto, momentos em que necessitamos de seguir viagem. E, se assim for necessário, por múltiplas estradas. A bissexualidade, a homosexualidade, o travestismo ou a transsexualidade existem. Muitas vezes habitam em nós de forma velada ou latente. Requerem, por isso, atenção. Como afirma a filósofa norte- americana, perita em matérias como esta, Judith Butler: “vamos viajando”. Nós: os “transhumanos”. Digo eu.

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“Focos de Luz” (Para Além das Máquinas): Registo Retro- Humoristico para uma “Salvação” do Jornalismo

Alguns amigos já me fizeram notar, não sem alguns sorrisos, que vejo, “em todo o lado”, parecenças, nas faces de várias pessoas, com figuras públicas. É verdade. “Não é raro” o momento em que imagino, num autocarro ou a passear distraído por uma rua qualquer, o Woody Allen. Talvez seja, aliás, a personalidade com a qual mais me “encontro”. Também “dei de caras” na cidade do Porto, há muitos anos atrás e à saída de uma paragem de um autocarro, com um actor norte- americano que sempre admirei: o Harvey Keitel. Carregava vários sacos de compras e, ao reparar no meu súbito e incontrolável ataque de riso e no meu inocente e espontâneo dedo indicador apontado, penso que se preparava para me lançar com um qualquer ataque massivo. Imagino que com rolos de papel higiénico. Tive sorte: desistiu a tempo. Engoliu a raiva e foi-se embora para agredir, talvez, outra pessoa qualquer: reparei que tinha o pescoço bastante vermelho. Também “vi” um dia destes e ao entrar numa pastelaria aqui perto de casa, numa das mesas, o nosso escritor Miguel Torga. Estava a beber um café e a ler o Diário do Minho. No regresso de umas bafaradas que fui dar num cigarro que tinha comprado por 20 cêntimos – Sim ! Com a crise: eles estão de volta ! -, num local próximo, disse-lhe: “a sua cara parece mesmo a do Miguel Torga“. “Obrigado”, respondeu. Sem conseguir disfarçar o sorriso que lhe acompanhava o orgulho. Reparei, depois de me sentar e enquanto me concentrava nas múltiplas combinações do pensamento freudiano através de uma pequena biografia de Octave Mannoni , que olhava para mim, de vez em quando, com um ar nitidamente satisfeito. Fantasiei que passaria a andar pelas ruas, a partir desse instante, de uma outra forma. Que iria percorrer e folhear todo o Miguel Torga que temos disponível pelas bibliotecas nacionais. Nesse mesmo café também costumo encontrar muitas vezes sentado na mesma mesa, normalmente sem fazer absolutamente nada, o filósofo José Gil. Está lá quase todos os dias. Limitando-se a olhar, movendo a cabeça vagarosamente, para as pessoas que entram. Imagino,  quando sou eu a entrar, que também repara em mim. O que me deixa num estado mais ou menos delirante – que me é bastante próprio – a perguntar: “será mesmo ele? Refugiou-se nesta parvónia – Braga ! – para quê?”. Também costuma seguir, com os olhos, os livros que costumo levar. O que só me acrescenta “esperanças”. Nunca lhe perguntei nada por não me querer “desiludir”. E, claro, tentar evitar alguma cena absurda. Prefiro fingir que encontro o Miguel Torga e o José Gil.

Contudo: o que escrevo tem um objectivo um pouco mais concrecto. O trabalho de José Gil, editado pela Relógio de Àgua no ano de 2003 e intitulado “Cansaço, Tédio, Desassossego”, foi apreciado recentemente com o “Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho“. Contou com a promoção da Associação Portuguesa de Escritores e com a da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. Ainda não li, infelizmente, a obra distinguida mas, assim que puder, deito-lhe as mãos. Tenho, na minha pequena biblioteca, apenas um: o já clássico e, para algumas pessoas, irritante – imagino que também, embora não só, por ter constituído, dentro da área do “ensaio”, um sucesso editorial – “Portugal: Hoje, O Medo de Existir”. Várias vezes o dei a entender através de algumas das minhas crónicas: gosto de figuras “maiores”. Que se conseguem destacar e imprimir, culturalmente, pela perseverança, por uma “diferença” possível, por uma tentativa de dissidência e pela originalidade. Pura “megalomania”? Não só. É desta forma que se fazem perguntas. Que se colocam questões que poderão ser determinantes. Contudo: penso que para isto é necessário uma coisa, bastante importante, que hoje em dia está, virtualmente, reduzida: o tempo. E “afastamento”. Tempo para pensar porque tempo para reconstruir. Mas aquilo que mais me captou a atenção no artigo referido foi o nome de Eduardo Prado Coelho. Admito: vieram-me as lágrimas aos olhos com saudades. De quando ainda me dava um enorme prazer comprar o jornal diário Público durante todos os dias da semana: tinha mais páginas, uma opinião com qualidade superior e, principalmente, consistência. As crónicas de Eduardo Prado Coelho eram diárias e, embora algumas fossem mais interessantes do que outras, havia quase sempre aquele pormenor – o detalhe – indispensável. É isto, quanto a mim, que faz o grande artigo ou o grande cronista: o detalhe de excepção. Que, habitualmente, apenas se consegue melhor tecer com vasta leitura e com o passar dos anos. A comunicação social portuguesa, como sabemos, está empobrecida devido a inúmeros factores. Não é raro o facto de serem, exactamente, os “dissidentes”, numa época em que as linhas editoriais se standardizam a todos os níveis, a serem despedidos. Ou, utilizando uma expressão com a qual agora se costuma tentar suavizar, “dispensados”. Os “Eduardos Prados Coelhos” deste mundo não podem morrer. Muito menos serem esquecidos. Pelo contrário: precisam de ser, de vez em quando, novamente enaltecidos. Para que nos continuem a servir de guias e de exemplos. Deviam ser erigidos por uma população que se encontra, actualmente, mais ou menos amorfa e adormecida, pelas redes sociais, em termos jornalísticos e literários. Não me parece que ande, para já, a existir uma grande substituição. Apesar do “nascimento” de alguns nomes que, pelo menos através da imprensa generalista, começam, quanto a mim, a adquirir uma desenvoltura que nos convém seguir. Como considero ser actualmente o caso – uma das minhas recentes excitações – de António Guerreiro. Que vai fazendo um bom caminho através do suplemento y – felizmente existente, ainda, em formato papel – do jornal Público. Num mundo cada vez mais “económico”, apesar, paradoxalmente ou não, da precaridade crescente e contínua, eles precisam de se manter: para que nos possam manter. Por constituirem – e construirem – novas passagens como focos de luz: expressão que tenho utilizado regularmente para os tentar definir. Não existe rua que se possa atravessar convenientemente sem a existência de “tochas”. Hoje “vi” o Eduardo Cintra Torres. Não foi a primeira vez.


Uma Flor no Meio dos Escombros

Por vezes não existe outra hipótese, para que possamos desbravar um pouco mais de terreno, do que nos deixarmos levantar. Para, assim, recomeçarmos a navegar. Esta atitude, que considero ser mais ou menos literária, mais ou menos poética e mais ou menos anarquista – em sentido próprio – prefigura uma espécie de amálgama que é, contudo, também uma redefinição. Como saída: a de ir de encontro a renovados  focos de luz. Mais importante do que isto: a construção de novos focos através de uma actividade criativa – não, exactamente, a das “indústrias criativas” – que conduza, no polo oposto, a uma outra criação. Uma re- integração. Para isto: convém , por vezes, saltarmos do barco no qual, então, estamos a circundar. Para mergulharmos em águas profundas, nunca antes visionadas, para a demanda de algumas pérolas. Mas atenção: pelo caminho encontraremos, talvez, tubarões com os dentes cerrados. E, cá por fora, caso tenhamos encontrado uma pequena ilha no meio do oceano, submergiremos no húmus debaixo de uma torrente de chuvas ácidas. Convém, chegados aí, apanharmos com um relâmpago de aviso. Que nos faça ter cuidado com alguns dos altos voos que resolvemos, um dia, escolher. É esse o momento em que o peito se abre: onde estarão, à nossa espera, algumas chamas: as plantas carnívoras. Mas no meio delas, acredito, será encontrada – ou plantada – nova flor. Aí entenderemos: a caneta está pronta. Para que possamos saltar, de novo, de penhasco em penhasco. Desta vez: com uma outra segurança.


Psicanálise e Cristianismo

Não vou generalizar. Porque conheço vários casos que contestam a opinião que aqui expresso. De qualquer forma considero que a religião cristã, sob as suas diferentes versões, pode constituir uma espécie de armadilha. Cujas manifestações mais nefastas podem surgir apenas tardiamente na vida de um adulto. Uma espécie de cancro que durante muito tempo não é visível mas que se espalha pelo espírito e pelo corpo evidenciando-se quando menos o esperamos. O prazer no sofrimento – a sua valorização social como mecanismo de controlo social e familiar ou como tábua de “salvação” pessoal – continua ao fim destes dois milénios. É esta a questão de fundo. A generalização do masoquismo que promove o cristianismo que, por sua vez, favorece o masoquismo continua a ser, a meu ver, um problema civilizacional real. Embora, talvez, de forma um pouco mais sublimada. Podemos não ter uma consciência objectiva de que ele existe. Mas evidencia-se no comportamento diário de muita gente que conheço. Estou neste momento a ler um livro editado no ano de 1976 do psicanalista francês Pierre Solignac intitulado “A Neurose Cristã”. No qual o autor nos relata inúmeras conversas que teve, em sessões de psicanálise, com todo o tipo de religiosos, freiras e padres. Conversas que o levaram a descobrir os perigos da castidade, da moralidade excessiva e da castração psico- sexual para a saúde mental de muitas pessoas. Que acabam por se manifestar em todo o género de doenças e somatizações. O livro divide-se em capítulos como “Doença e Culpabilidade Na Teologia Cristã” ou “A Neurose Cristã e a Civilização”. Problemas graves que, normalmente, os médicos convencionais continuam a não saber tratar por puro desconhecimento acerca do tema ou devido a questões de classe profissional. Tentam não pensar sobre o assunto. Evitando-o ou descartando-o completamente. E, não raras vezes, nem os psicoterapeutas os conseguem compreender eficazmente. Temas que não são amplamente abordados nos dias de hoje devido à resistência que a psicanálise tem encontrado cada vez mais – apesar dos esforços da neuro- psicanálise em recuperá-la – nos diversos meios institucionais e académicos. Nada que Sigmund Freud, aliás, não tivesse antecipado. A verdade é que não se encontram respostas satisfatórias nem se abordam convenientemente temas deste género fora deste campo temático. A sociologia, por exemplo, parece-me pecar por defeito. A psicanálise devia ser erguida a núcleo principal de entendimento. O filósofo e psicanalista lacaniano de origem eslovena Slavoj Zizek afirmou recentemente, num debate que foi emitido numa estação de televisão brasileira, que “talvez a psicanálise nunca tenha sido tão necessária como hoje em dia”. Talvez.


Uma Questão “Democrática”

Parece-me que há quem faça, para viver melhor consigo próprio, aquilo a que chamo de “inversão de raciocínio”. E quando digo “há quem faça” estou apenas a utilizar uma frase, digamos, “eufemistica”. Ninguém, na “realidade”, lhe escapa: nem aqueles que se consideram os mais “científicos” de entre nós – o que, nos dias de hoje, parece ser a maior aspiração -. É uma forma de suportar a realidade. Dou um exemplo: assisti, no ano de 2012, numa loja da Fnac, em Braga, a um debate no qual se entrevistava Capicua. A conhecida rapper portuguesa.  Quando lhe foi colocada uma questão acerca do facto de os downloads e o actual ambiente de gratuitidade estarem a destruir a música como fonte de sobrevivência: respondeu, de forma mais ou menos envergonhada e atrapalhada, que talvez fosse bom. Porque dessa forma “se poderia dedicar, nas horas livres, ao que mais gosta”. Ninguém reagiu. Espero que Capicua tenha imediatamente reparado no que tinha acabado de dizer. De qualquer forma a resposta mostra que não tinha reflectido, nem sequer anteriormente, sobre o assunto. Ninguém está livre de se enganar para ser um pouco mais aceite. Contudo: as ilusões também existem para que possamos ser um pouco mais aceites por nós próprios. O que, desconfio, vai dar ao mesmo. Ao narcisismo ninguém foge. Por mais que apenas o identifique nos outros. Ele nota-se, principalmente, em quem tem pouco humor acerca de si próprio. Ou em quem, para dar outro exemplo, pareça muito “equilibrado” – o que, desconfio, também vai dar ao mesmo – : quem está constantemente satisfeito em alguma se estará a enganar. O contrário também acontece. Mas tenho visto, naqueles que poderiam ser – e são considerados – os mais “lúcidos” de entre nós, a maior dose de engano e auto- engano – e aqui, por uma questão de segurança, não me vou adiantar -. Parece-me, por isso, característica essencial: o que faz de nós seres “equilibrados” é a crença de que as nossas ilusões não o são. No fundo: uma questão de amor. Uma questão democrática.


O apicultor

Pergunto-me, por vezes, o que levará uma pessoa a desejar ser apicultor. Porque é que alguém escolhe uma profissão que fará com que, provavelmente, seja picado por várias abelhas durante toda a vida. Existem vários no meio de nós: jornalistas, escritores, defensores de direitos humanos, lutadores pelas mais diversas causas. Nada me tira da cabeça que, por trás de qualquer combate, se esconde uma larga dose de masoquismo. Assim como se encontra debaixo do “perfeccionismo”. A verdade é que se sabe, intimamente, que se pode sofrer. Pior: sabe-se que se vai sofrer. Mas continua-se. Como se fosse necessário, continuamente, um shot de tequilha. De qualquer forma é qualquer coisa do domínio de uma semi- consciência. Não se controla: apesar de se saber. Em qualquer corrida para o abismo há sempre, parece-me, um apelo pelo trágico. Como se a vida, no fundo, não passasse de uma representação de uma outra representação. E não existe época mais cinematográfica que a nossa. A fase das grandes estrelas pode ter acabado. Mas o espírito delas, esse, perdura em nós. É isso que faz de nós, hoje em dia, mais “apicultores”.


O Delírio de Bartleby

“Já tudo foi escrito”. Já tudo foi escrito? “Sim. É o que dizem professores de literatura, críticos e historiadores. Que já tudo foi escrito”. Realmente, na “sociedade da estatística”, não é a literatura que mais tem interessado. Mas talvez não te devas preocupar muito com os fantasmas do passado que carregas às costas. “Quais fantasmas?”. Bartleby…continuamente a desejares ultrapassar? Fazes, com isso, dois maus serviços: o primeiro a ti próprio. O segundo aos excelentes autores que não merecem a tua mediania. Contenta-te com o que tens e deixa os outros respirar. Ou preferes deixar de ler os grandes mestres para que te possam ouvir a ti? Isso está na moda. Talvez o que esteja mais na moda. Aceita que não és assim tão bom. És bom. Mas talvez não como desejarias. Tenta escrever a seguir. Existe sempre uma originalidade que podes adquirir na mistura entre o que és e tudo que leste até agora. Fundarás, com isso, uma escola pessoal. Nunca conseguirás ler todos os livros que existem e que foram escritos até agora. Isso quase em nenhuma época foi possivel e é tarefa cada vez mais complicada. De certa forma: a humanidade tem de recomeçar continuamente devido a uma certa “falta de capacidade”. “Dizem que um dia teremos os cérebros todos ligados e assim poderemos processar toda a informação”. Informação…informação. A obssessão pelo momento. O que falta é comunicação. Escreve. E deixa lá as múltiplas teorias contraditórias da tecno- ciência. Muitas delas são delírios iguais a quaisquer outros. Tu, depois de leres o jornal diário, ficas mal disposto com o que se passa entre Gaza e Israel e estás á espera que um ser humano não caia para o lado depois de uma conecção com outros cérebros? Dizes que não acreditas em histórias da carochinha: a verdade é que arranjaste uma nova. Ponto final.


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