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Michael Jackson: O “Ilusionista”

Parece-me que, até hoje, aquilo que foi dito e escrito, em termos jornalisticos, sobre Michael Jackson evita algumas questões. O que foi publicado parece-me ficar um pouco aquém de um trabalho psicológico que poderia ser mais exaustivo. Ultrapassando lugares comuns e as habituais dicotomias. Tanto a comunicação social como os fãs, grande parte das vezes, “não fizeram mais” do que amplificar preconceitos: o “demónio” contra o “anjo”; “Rei do Flop” contra o “génio” inatacável. Os jornais, por exemplo, repetiram, durante anos e sem correcta verificação de dados, uma visão que poderiamos denominar como “norte-americana”. Ignorando a “europeia”. A primeira repetia incessantemente que “após os trabalhos Off The Wall, Thriller e Bad, tinha perdido o carisma e a popularidade que o tinham caracterizado”. Talvez tal tenha acontecido, efectivamente, a partir do ano de 1997. Quando foi lançado o trabalho de remisturas, com alguns temas originais, “Blood On The Dance Floor”. Mas, entretanto, parecia ter tido influência, enquanto os discos se continuavam a vender – mais de 30 milhões de cópias para o álbum Dangerous -, uma certa vergonha. Não me parece que o possamos atribuir unicamente às acusações de pedofilia ou a “questões raciais” relativas à mudança da cor da pele. Contribuía para isso também uma certa estranheza favorecida por ele próprio. Dizia-se, publicamente, gostar mais de Prince ou Madonna. Que, apesar do maior número de lançamentos discográficos, vendiam muito menos. Ou tinha-se um certo pudor em admitir a existência de importantes dimensões extra- musicais. De qualquer forma: não é um trabalho exaustivo que proponho através deste artigo. Não pretendo, com ele, ser “científico”. É apenas uma chamada de atenção. Para um dos pormenores que, bem estudados, poderiam fazer parte de um retrato sério e alargado. Não me vou referir a aspectos artísticos. Que embora durante muitos anos, antes da morte, tenham sido esquecidos estão actualmente bem documentados. Mas a questões evitadas por ele próprio. Ou pela imagem que quisemos perpetuar, a nível de imaginário, dentro de nós. Não me vou alongar. Apresentarei apenas alguns exemplos. Como ponto de partida. Que, bem desfiado, pode contribuir para a compreensão daquilo que poderiamos denominar como uma elaborada ficção.

De facto: o cantor constituiu e favoreceu, para os outros e para si próprio, uma espécie de enigma. Um “cubo mágico”. Habituado, desde novo, à indústria musical e a tentar controlar a comunicação social: construiu uma espécie de personagem dividida. Imagem que mais tarde lhe foi devolvida. Espelho “monstruoso” que, no fim, se desmoronou. Se virou contra si próprio. Uma parte do qual, muitos de nós, não hesitamos a apelidar de “infantil”. A nossa natural aversão a qualquer tipo de manipulação externa não nos permite perceber, muitas vezes, que os ingénuos, afinal, fomos nós. Rejeitava, assim, uma definição: não parecia homem nem mulher, branco ou negro, adulto ou criança. Por outro lado, na vida como no palco, combinava sexo com espiritualidade. Gestos calmos com agressividade. Uma misteriosa simbiose do “demoníaco” com o “divino”.

Desde a “era” – como lhe chamam alguns admiradores – do álbum Thriller, de 1982 a 1984, que resolveu, em conjunto com o produtor Quincy Jones, distribuir boatos acerca de si próprio. Para mais tarde os negar. Que perduram ainda hoje em dia no imaginário popular. Como exemplo: que dormia numa câmara de oxigénio para poder viver até aos 150 anos. Ou que tinha tentado comprar os ossos do homem elefante. Negou-o em 1993 numa entrevista a Oprah Winfrey – embora tenha sido confirmado mais tarde pelo detentor – mas afirmou identificar-se com o personagem principal depois de ter visto o filme exactamente: “O Homem Elefante” de 1980 – com o qual David Lynch ganhou o prémio de melhor filme na cerimónia dos British Academy Awards. Ao longo dos anos, avesso à construção de ilusões como sou, não pude deixar de ler inúmeros depoimentos que davam conta deste tipo de estratégias por parte do auto- denominado “Rei da Pop”. Que, pelos vistos e segundo locutores da estação, pediu, via Sony Music, ao canal de música MTV que o tratasse daquela forma a partir do momento do lançamento do álbum Dangerous de 1991. Sei que me arrisco, se fosse lido por algum fanático do cantor – também o fui na minha adolescência – a ser verbalmente “atacado”. Apelidado, imediatamente, de “hater”. Conheço-os bem. Basta consultar qualquer fórum de discussão para percebermos em que espécie de “igreja” acabamos de entrar. Contudo: devo dizer que são algumas destas caracteristicas, ambora não as eleve a ideal, que fizeram dele, para mim, uma personagem artística interessante. Que, para além do trabalho que desenvolveu, o tornaram culturalmente relevante. Como artista que era: desenvolveu- se a si próprio. Um mutante. Não admira, aliás, a popularidade que sempre teve junto da comunidade japonesa. Que, habituados a metamorfoses, clones e robots, o olharam com uma grelha moral distinta da ocidental.

Um outro exemplo: a célebre máscara – eram várias e de todas as cores – que usava frequentemente e que lhe tapava o rosto não era, pelos vistos, apenas e como se dizia, “medo dos germes” – se fosse, aliás, este o caso: não meteria continuamente as mãos na terra para o vídeo de “Earth Song” que foi lançado em 1996 – ou para se proteger do sol por causa da doença de despigmentação da pele da qual efectivamente sofria. Ou devido a uma outra, Lupus, da qual também padeciaambas foram confirmadas por vários médicos e, também, pela autópsia que, após a morte, foi disponibilizada na internet.Servia, adicionalmente e pelos vistos, para criar burburinho. Na expressão dele próprio – segundo um amigo pessoal – : “Dazzle Wazzle”.

A voz que utilizava em público também divergia daquela que usava em privado: bastante mais grave. Fomo-nos, aliás, apercebendo de uma certa diferença nos últimos anos e não faltam vídeos, no You Tube, a confirmá-lo. Segundo o treinador pessoal de voz: conseguia, a cantar, atingir “as notas mais altas mas também as mais baixas”. Contudo: só utilizava, normalmente, as primeiras. Provavelmente para projectar a imagem de fantasia que resolveu conceber. “Não gosto de estar lá em baixo. Gosto de estar lá em cima”: afirmou, quase a cantar e em conversa ao telefone, depois de ter sido “apanhado”, segundo a mesma fonte, a utilizar uma voz “bastante masculina”. Para o confirmar: visualizar o documentário que acompanhou a edição comemorativa dos 25 anos do álbum Bad de 1987. Estamos, portanto, em território “Disney”.

Não era, ao que parece, também o assexuado que todos nos habituamos ou conseguimos compreender. A ex-mulher Lisa Marie Presley, aliás, não deixou de afirmar, em entrevistas, que o cantor bebia vinho, fumava um charro de vez em quando e que era sexualmente agressivo. Gostava, pelos vistos, de representar papeis na cama. Também fez, adicionalmente, referências à suposta “ingenuidade” e ao tom de voz. Afirmando não perceber “porque é que teimava em fazer aquele papel quando aparecia na televisão”.

As tentativas de negação da intenção de iludir ou de chocar acompanharam, também, o lançamento do vídeo- clipe que foi realizado em 1991 por John Landis – realizador de “Um lobisomem americano em Paris” e com o qual já tinha trabalhado no vídeo para Thriller em 1984 – para o single “Black or White” . Na segunda parte do “short- film” – como lhes costumava chamar para os distinguir de uma normal sucessão de passos de dança ou imagens sem significado ou argumento – transforma-se numa pantera negra para depois se transmutar novamente nele próprio. Para, logo em seguida, partir vidros, janelas de carros e simular actos de masturbação ao som de sapateado. Afirmou, mais tarde através de um comunicado, querer “imitar os instintos de uma pantera”. Mas também “combater o racismo”. O vídeo acabou por ser alterado para que fossem colocados símbolos do Klu Klux Klan por cima dos vidros que seriam posteriormente estilhaçados. De qualquer forma: o efeito tinha sido conseguido. O vídeo tinha sido visto, na primeira vez que foi transmitido, por cerca de 500 milhões espectadores. E o tema , ultrapassando Billie Jean, tornou-se no maior sucesso comercial de sempre do cantor.

Quando o, agora mais ou menos esquecido, álbum duplo History foi lançado, no ano de 1995, Michael Jackson utilizou dinheiro do próprio bolso para filmar um vídeo promocional introdutório, sem música, para anunciar o regresso. Inicialmente concebido para ser projectado em cinemas e intitulado “The Great Redemptor of Eastern Europe”: é uma megalómana combinação de estética fascista e comunista. Baseada, visivelmente e visualmente, no filme “O Triunfo da Vontade” que Leni Riefenstahl dirigiu em 1935para a propaganda nazi alemã. O que não quer dizer que acreditasse em tais ideologias. Algumas semanas mais tarde, numa entrevista à jornalista norte- americana Diane Sawyer para o canal ABC, negava qualquer tipo de mensagem política: ” fala sobre amor”. Quando confrontado, na mesma emissão, com as palavras de um crítico de um conhecido jornal – qualquer coisa como “nunca se viu tamanha auto- glorificação, até hoje, feita por parte de um artista pop” – , não hesitou. Afirmou espontaneamente e com um grande sorriso: “Óptimo ! Cairam na minha armadilha !”. Portanto: “limbo”. Nem guerra nem amor. Existem, além destes, bastantes mais exemplos.

Não deixa de nos ficar a sensação, por isso, que o acto final constituiu, também ele, uma espécie de fingimento. Não me refiro relativamente à morte. Contudo: o contrato inicial relativo à digressão que iria ter início em julho de 2009 referia-se a, apenas, dez concertos consecutivos. Com 50 anos de idade, uso recorrente de várias drogas psiquiátricas e onze anos de ausência dos palcos: viu o número, repentinamente, ser aumentado para 40 datas. Os ensaios e a preparação física iniciaram- se em contra- relógio. O cansaço era visivel no documentário que foi lançado posteriormente e intitulado “This is It”. Sentia-se, de qualquer forma, uma contradição: tentava esforçar-se, através do uso da voz e de alguns passos de dança, como se estivesse diante de uma plateia. O que nunca tinha feito anteriormente. Podemos tentar atribuí-lo ao facto de, no fundo, encontrar-se no meio de um conjunto de dançarinos mais novos e, por isso, com mais energia. Contudo: se visualizarmos as imagens de ensaios de épocas anteriores não podemos deixar de reparar que o cantor não tentava provar absolutamente nada. Como se estivesse apenas a visualizar o que iria apresentar futuramente. Para, repentinamente, “explodir” no primeiro concerto. Esta “especulação” não surge sem algumas evidências. Podemos tomar contacto com uma delas através do vídeo das filmagens de um documentário emitido no ano de 2003. Onde não conseguia disfarçar o cansaço relativamente ao esforço exigido pelas digressões. Quando lhe pediram para dar uma resposta que estivesse de acordo com aquilo que se esperava dele: tentou durante alguns segundos. Mas foi interrompido por um ataque de riso geral.

Não existem, como sempre, verdades ou realidades absolutas. Resta-nos o “mito” e a História: sempre ilusória. Sempre mal contada. Sempre individualmente interpretada. Este “rascunho” que acabo de apresentar não escapa a tal categorização.

Como nota final: a conjuntura, artística, actual não permite o tipo de “poesia” que idealizou e concebeu. Nãonos devolve qualquer tipo de mistério. A economia de curto- prazo, em diversos sectores, pede rapidez, “resultados imediatos” e, acima de tudo, “transparência”. Menos espírito e mais proximidade. Não impulsiona nem favorece a criação pormenorizada e planeada que atravessava, anteriormente ao advento da ideologia da “digitalização total”, a vida de um projecto cultural de longo prazo. Já não somos, afinal, criadores. Somos “criativos”. Ganha-se, com isto, quantidade. Mas perde-se “mundo” e densidade: a companhia de figuras “maiores”. Precisamos, actualmente, de “formatar o sistema”. Convém, contudo, não esquecermos alguns destes exemplos. Porque nos transmitiam, pelo menos, uma sensação de continuidade. De preserverança. Em época de crise: é dela que precisamos.

De qualquer forma: não estamos “imunes”. A época da televisão e, por isso, da “ilusão” como a conhecemos, pode ter acabado. Não nos podemos esquecer, de qualquer forma, que ela foi multiplicada e transferida para aquilo que determina a actualidade: a sociedade do gadget e do ecrã “perpétuo”. De “santos” não temos nada.


A Vida Como “ExistenZ”

No passado dia 13 estive à conversa, numa mesa de café, com um amigo de longa data que partilha comigo algumas ideias em termos sociais. Com uma diferença: sabe muito mais do que eu. Ofereceu-me um livro que, imaginou à partida, iria gostar: “Crise no Castelo da Cultura: Das Estrelas para os Ecrãs” de Moisés de Lemos Martins. Deparei, ao folheá-lo, com textos e imagens de “ExistenZ”: o filme que David Cronenberg realizou e que esteve em exibição em Portugal no ano de 1999. A protagonista, Allegra Geller, é designer de jogos de computador. Cuja mais recente criação transporta o usuário para uma realidade alternativa através de uma espécie de cabo que liga uma consola bio- tecnológica – reparem no pormenor: tem que ser mimada para funcionar – a um “bio- port”: uma espécie de orifício enxertado no fundo das costas com algo aparentado a um berbequim. O jogo de espelhos é tal que, no fim, quem se aventura já não sabe onde se encontra porque, pelo caminho, encontra novas consolas que o transportam a outras dimensões. Um olhar mais aprofundado levou-me a uma questão. Ao pensarmos sobre a nossa história pessoal, do nascimento ao momento presente, somando todas as experiências vividas, pessoas que conhecemos e com as quais nos relacionamos, felicidades, dores e infernos, beijos, abraços, lutas e discussões: quem somos e com quem estamos realmente? Qual o número de projecções, nossas e do passado, é que fazemos nos outros e em cada um dos momentos da vida? Qual a dose efectiva de “realidade” que existe em todos os julgamentos que fazemos? Qualquer pessoa que tenha uma dose mínima de consciência de si sabe que isto se passa desta maneira: não precisamos de qualquer tipo de  realidade virtual. Nascemos no “ExistenZ”.


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