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O Futuro da Terra (Um Mundo de Pobres)

Durante muito tempo nos disseram que se estudássemos conseguiriamos o emprego dos nossos sonhos. Em faculdades públicas ou privadas. Viviamos no império das letras. Embora os estudos informáticos já estivessem a despontar. Era o mercado a girar em todo o seu fulgor. Diziam-nos que alcançariamos um emprego para toda a vida. No entanto não existem, aqui, culpados. Acreditava-se que seria assim. E lá o fizemos para orgulho dos nossos pais. De repente: a realidade. O neo- liberalismo económico avançava e uma retórica diferente começava a surgir da boca de políticos bem instalados: “Acabou o emprego para toda a vida”. Os humanos – felizmente ainda o somos – teriam que se adaptar a novas regras para sobreviver. As empresas de trabalho temporário floresciam assim como os contratos a termo incerto. A direita em todo o seu explendor na certeza da auto- regulação dos mercados como se não existisse vida por trás a idealizá-los e a fomentá-los.

Durante muito tempo os que ingressassem – ou quisessem ingressar – em informática eram os verdadeiros “tó-tós” da turma. Mal sabiamos nós que num par de décadas tudo iria mudar de rumo e de disposição civilizacional. As letras, a história e a filosofia não davam dinheiro. Tudo se começou a reduzir a números e à linguagem computacional:”010001100011111111110”. Nos últimos tempos uma nova febre: as “start-ups”. O capitalismo a dar mais uma cartada – talvez uma das últimas – e a prometer que o empreendedorismo por conta própria é que era: era uma espécie de salvação. Uma “disrupção” como fala a gente para os lados de Silicon Valley. Uma promessa que não passa de selvajaria total. Todos contra todos na demanda de trocados. Agora, para se trabalhar, tem que se ser “único”, “original”, “imaginativo” e construir uma empresa. “Bater punho”, na designação de um fraco “guru” das redes sociais bracarense, Miguel Gonçalves, que foi alvo de chacota por todo o país devido à célebre expressão. Embora, há que dizê-lo, tenha sido nomeado “Embaixador do Impulso Jovem”, uma categoria inventada por Miguel Relvas, ministro dos assuntos parlamentares do governo de Passos Coelho.Um dos pontos baixos – no meio de muitos – deste último.

E aqui chegamos ao ponto principal: lembro-me bem de quando fazia rádio na RUM (97.5) entre os anos de 1994 e 1997 e em que o ambiente era de festa e de criatividade. Existiam inúmeras colaborações e as ideias fluiam. Até chegarem os computadores para substituirem os mini- discs. Uma grande quantidade de gente foi dispensada e começaram as playlists a funcionar. A Rádio Universitária do Minho descaracterizou-se e muitos programas passaram a serem gravados de dia para passarem à noite sempre com os mesmos locutores. Foi a primeira vez que fiquei de pé atrás com a informática. Ela, “quando quer”, destrói valores.

A Lei de Moore diz-nos que a tecnologia duplica em potência de dois em dois anos. Isto significa que, talvez, no espaço de uma década já não percebamos nada do que se está a passar – e já está ser dificil acompanhar o jargão da computação (A Lei de Moore, apesar de tudo, é uma profecia que funciona sob a lei do mercado. Seria, por isso, possivel regulá-la e abrandá-la se politicos os ou senhores do MIT estivessem interessados nisso. Mas não estão).Mas gostava de saber, nessas condições, como vamos trabalhar. Conseguiremos estudar o suficiente para competirmos com algoritmos e a Inteligência Artificial? Será dificil.

O respeitado historiador Yuval Noah Harari que até ao momento escreveu três livros assinaláveis- “Sapiens”, “Homo Deus” e “21 respostas para o século 21” – acaba de escrever um artigo no The Guardian intitulado “O significado da vida num mundo sem trabalho”. Tudo devido à automação, à informática e à Inteligência Artificial. Nele fala sobre “o surgimento de um novo tipo de pessoas que irá supostamente aparecer até 2050: “os inúteis”. Serão, pelos vistos, pessoas “desempregradas mas ao mesmo tempo não empregáveis”. O problema será o “surgimento de algoritmos que poderão desempenhar uma série de tarefas melhor que os humanos”. E “as crianças que actualmente estão a estudar serão irrelevantes quando chegarem perto dos 40 anos devido à velocidade da evolução tecnológica”. Segundo Harari essas pessoas receberão uma espécie de rendimento básico universal – com o qual eu concordo mesmo que tenha consciência que será uma ninharia -. Servirá para sossegar as consciências? A grande questão será: como manter essas pessoas ocupadas para que sintam um sentido para a vida? É aqui que surge o disparate de Harari: segundo ele, as pessoas deverão fugir do dia a dia e dedicarem-se aos jogos de computador e à realidade virtual comparando tais actividades a religiões. Diz ele: “O que é uma religião, se não um grande jogo de realidade virtual desempenhado por milhões de pessoas juntas? Muçulmanos e cristãos atravessam a vida a tentar ganhar pontos no seu jogo de realidade virtual favorito. Se reza todos os dias, obtém pontos. Se se esqueceu de orar, perde pontos. Se, no final da sua vida, ganhar pontos suficientes, depois de morrer, vai ao próximo nível do jogo (também conhecido como o paraíso)”. A sério? É este o programa que Yuval tem para nos oferecer? Um rendimento básico e jogos de computador? Duas observações: como pôr todas as nações de acordo – numa época de desacordo e de contração da colaboração universal – até 2050? E, especialmente, como é que familias a receberem o rendimento básico terão dinheiro para os caríssimos jogos de computador? Um planeta de alienados é o que nos é proposto aqui.

E chegamos aqui a um ponto fulcral. Há uns tempos fui assistir a uma palestra no agora infelizmente encerrado Estaleiro Cultural Velha-a-Branca, em Braga, que era também uma reunião de pessoas ligadas à computação. E houve nisto algo de assustador: todos tinham a certeza que os informáticos seriam ultrapassados por aquilo que estão a criar. A única coisa com a qual não estavam de acordo era o “quando”. Uns apontavam para o espaço de uma década. Outros para daqui a 50 anos. Portanto: eles próprios poderão perder o emprego. Há mesmo quem advogue que as máquinas chegarão a um ponto de invenção em que elas começarão a construir uma realidade que nós, humanos, não conseguiremos acompanhar nem compreender.

Os relativistas do costume dirão que “não”. Que tudo vai bem e que se tivessem um telescópio para ver o futuro encontrariam alguma luz. Acontece que estes até podem ter razão. Porque esperam no sofá enquanto outros trabalham ou esclarecem leitores sobre a realidade.Como diz o polémico e grande psicanalista esloveno Zlavoj Zizek – principalmente numa altura em que a rapidez e a desinformação abundam -: “é tempo de não actuarmos para podermos pensar”.


O Papel dos “Velhos” Frente aos Jornais em Papel

Sabemos que existe, principalmente, devido a milhares de artigos de “opinião” que pululam, à espera de serem encontrados, pela internet fora. Mas ouvi- lo, directamente, através das palavras de um obcecado com as venturas – mas não com as desventuras; essas: há que ignorá-las – da “digitalização total” é diferente: “Espero que um dia tudo isto vá abaixo !”. “Tudo isto” significava, no seu arrebatado léxico, um desejo. O fim, como se estivéssemos a falar de um simples castelo de cartas, do mais ou menos exausto império das publicações em papel. De tudo o que se convencionou, em poucos anos, apelidar, tentando-o reduzir, de “tradicional”. Ou seja: o fim da matéria e da “alma” com que ainda são produzidas muitas publicações que recusaram, até ao momento, sucumbir ao reino único dos “resultados imediatos”. Da velocidade mercantil de um jornalismo que é, agora, menos pensado. Que, sabemo-lo, tem dado pouco azo à reflexão demorada e mergulhada. A “solução”, em forma de mutação – que nunca vem; que não se sabe, muito bem, para que é que, exactamente, serviria, quem serviria e com que fins sociais -, seria a construção de toda uma arquitectura unicamente “digital”. A normalização de uma ideologia que pretende tentar transformar, em pouco tempo, várias manifestações do real em produtos afectos ao conceito anteriormente referido. Trata-se de uma posição – que, além de comercial, é também política que consegue, por vezes, roçar o absoluto fanatismo. Mas como muito disto parece novo, ficção científica e porque cheira a “inovação” – tecnológica – : deixa-se andar. Porque o “futuro” há-de transformar tudo sempre para melhor. Porque uma fuga para a frente parece ser algo de superior. Porque, afinal, poderá significar uma espécie de aurora: um amanhã de plástico replandescente. Acontece que a “digitalização”, aliada a um precário e ultra- veloz capitalismo, traz “pormenores” pouco “eficazes”: imagino, por exemplo, o que sentirá um “velho” perante as “maravilhas” da implementação tecnológica contínua num mundo em que estará inevitavelmente ultrapassado pelo conceito de “formação para toda a vida”. Fantasio que, por exemplo sem o seu jornal, pelo menos envergonhado. Sim. Num planeta obcecado por produtos e serviços direccionados para a juventude: o papel dos “velhos” – e daqueles,  como eu, que estão prestes a entrar na meia- idade – conta. Importa, por isso, o papel dos “velhos” face aos jornais em papel. Estes, felizmente e apesar de toda a desvalorização de que têm sido alvo, ainda têm uma função – para além da nacional – regional e local. Muitas pessoas passam, ainda, o tempo em cafés “antigos”, como em bibliotecas, a conversarem. A discutirem problemas fulcrais para a cidade onde vivem. Tirarem-lhes as publicações que circulam pelas mesas não significa, unicamente, anularem-lhes o espírito. Significa esvaziarem-se espaços de conversa numa “Europa” que é, neste momento, cada vez menos democrática. Significa isolá-los. Pô- los de cabeça para baixo a tentarem entender algo que, devido à velocidade de produção actual, estará, também e em pouco tempo, ultrapassado. Se é, como se tem propagandeado inúmeras vezes, o conteúdo aquilo que mais importa: devemos, de certa forma, “inverter” – ou, pelo menos, repensar – o discurso. Não precisamos de estar, perpetuamente, a mudar de suporte tecnológico. Nisto: deveriamos ser mais constantes. Mais distantes. Mais pausados. Menos supérfluos. Em nome de uma interacção real: café na mesa, companhia e conversa. Não atiremos os nossos “velhos” para mais um fórum na internet. Há coisas que não são substituíveis.


Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural

Costuma-se propagandear “por aí” que o advento do “estado” da internet instaurou, simplesmente, uma espécie de novo “regime democrático”. No qual “as pessoas” detêm, agora, o poder. O que, até certo ponto, considero ser verdade. Talvez “as pessoas” detenham mais algum poder. De qualquer forma: um poder mínimo. Contudo: concentrou uma grande parte da população mundial no mesmo género de sonhos e aspirações: a cultura, a arte, as indústrias “criativas” e uma standardizadora “indústria de conteúdos” que mete quase tudo o que mencionei anteriormente no mesmo “saco”. Conseguimos, “finalmente”, transformar, de uma vez por todas, quase tudo aquilo que apelidamos de arte em negócio. Mesmo que digamos que o que estamos a fazer é apenas “partilhar”: um argumento que é óptimo como placebo para a consciência colectiva. Porque, desta forma, podemos combater – ou dizer que o fazemos – o capitalismo à vontade. Enquanto, no fundo e através do networking, estamos a fomentar, talvez, uma das suas piores fases. A ultra distribuição da publicidade por todo o género de projectos ou plataformas  “informativas”, pelo facto de se ter precarizado, utiliza o argumento da “partilha” como técnica de marketing. “Não nos estamos a tentar promover: estamos a partilhar”. Aqui, “informativas” – como conceito projectado por Sillicon Valley – é singularmente diferente da ideia de informação, jornalística ou somente literária, como a considerávamos anteriormente. Para esta nova era tecnocêntrica: “informação” parece constituir quase tudo o que é “produzido”: notícias, todos os géneros de entretenimento, jogos de computador, aplicações, música ou o cinema. Este “pequeno” pormenor não é muito difundido, em artigos de “opinião”, nem muito “partilhado”, em conversas, a nível social. Nem interessa fazê-lo. Tal dificultaria o que mais importa, principalmente, para uma minoria empresarial: o curto- prazo e o salto “perpétuo” de link em link. Não exactamente em nome do “conhecimento” como se costuma normalmente advogar. Mas, essencialmente, em nome de uma comércio mais ou menos desesperado numa realidade económica que parece ter entrado em modo “distopia”. Foi assim, desde o advento da crise económica e financeira, instaurada uma visão permanentemente low- cost da realidade. A não ser para todos os “gigantes do digital” que conseguem arranjar todo um conjunto de técnicas para conseguirem escapar aos impostos a nível transnacional. São, apesar de tudo, muitas vezes desvalorizados na bolsa, dão prejuízo – como o “aspirador” concorrencial que constitui a retalhista Amazon – e empregam pouca gente a nível internacional. “Desculpem” mas, por aqui, não me parece existir grande “democracia”. Para além de outro factor não menos importante: à medida que as aspirações criativas, literárias e artísticas se concentram, agora, numa rede mundial que atingiu o número de 1230 mil milhões de usuários – o Facebook – mais se afunilam em termos de densidade e de profundidade devido à rapidez com que são e têm de ser distribuídas e, por isso, consumidas. Fica a ganhar a quantidade se impera, quase unicamente, o que é veloz: fragmentos e inúmeros estilhaços. A complexidade e a qualidade perderam terreno.


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