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Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.

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O Ser Humano e a “Retórica Cerebral”

Uma vista de olhos pelas páginas dos jornais nos últimos anos, por artigos de opinião, pelos programas de televisão nos, cada vez mais, sensacionalistas canais de cabo, alguns deles com espírito bastante desinformativo em estilo YouTube e reparamos que, quando tratam de matérias relativas ao ser humano, muitas vezes confrontam- nos com aquilo que penso ser uma das reduções civilizacionais do momento: a retórica do “cérebro”. As neuro- ciências, embora sejam, na minha opinião, úteis como complemento de outras disciplinas ligadas à psicologia humana, introduzem na linguagem corrente uma espécie de “despersonalização” social. Evita-se o “eu”, o “nós”, o “corpo” e o Homem enquanto ser uno e completo para se fazer uma “fuga” explicativa. Do “coração” para o “ponto mais alto”: uma “superioridade”. Encaixa bem nas páginas dos jornais: tudo o que nos diz respeito é- nos servido à base de “estudos” e estatística. Dá-nos uma sensação, um pouco totalitária, de compreensão de todo o género de fenómenos humanos. Não duvido, adicionalmente, que tal “imposição” dê bastante dinheiro à indústria farmacêutica. Ou que nos “aproxime” da conversa recorrente sobre Inteligência Artificial que tanto interessa a alguma da filosofia, política e comercial, tecnocêntrica actual. Como sempre, relativamente a várias áreas, nos últimos anos: a vontade é de fuga. Sempre “para a frente”, desde o início da crise económica e financeira, parece ser a solução para quase todas as questões. Penso, contudo, que precisamos  de uma certa re- integração. O corpo, a história, a ciência e o conhecimento representam totalidades: existe uma memória. Reduzirmos a consistência e a densidade das teorias afectas ao ser humano para que possam caber em páginas de jornais não faz sentido mas, acima de tudo, não nos dá sentido.


A “Beleza” Como “Tentativa” de “Verdade” (II)

Platão e Aristóteles em "A Escola de Atenas". Pintura de Rafael. Fotografia de Ted Spiegel/Corbis.

Platão e Aristóteles em “A Escola de Atenas”. Pintura de Rafael. Fotografia de Ted Spiegel/Corbis.

No seguimento de uma postagem anterior: por muito que se tenha tentado, desde sempre, fugir à, “perigosa”, imaginação, ao instinto, ao “baixo- ventre”; por muito que se procure um remendo através do sistema defensivo que constitui a “superioridade” da “ciência” e da “razão” – entre aspas para a relativizar: existem, quando muito e para não sermos idólatras, cientistas -: estas duas não estão imunes, longe disso, a serem “contaminadas” pela necessidade de um “propósito”. De uma “finalidade”. A “verdade” é, também e como tudo, uma, instintiva, guerra entre vontades. E, algumas delas, não escapam à ilusão. Sobre esta questão: um bom ensaio da autoria de Steven Poole: “Science can’t stop talking in terms of ‘purposes’, but if the universe cares about us, it has a funny way of showing it“. Disponibilizado pela aeon.


A “Beleza” como tentativa de “Verdade”

O que é que a “verdade” tem a ver com a “beleza”? A procura desta última – como continua tentativa do humano para polir aquilo que não deseja ver – parece ser, muitas vezes e, também, para a “ciência”, forma de selecção na procura de uma “teoria certa”. Que encaixe melhor. É tema já antigo. Como quase tudo: tentativa de ilusão. Como se uma forma mais “perfeita” validasse aquilo que aspiramos encontrar: religião. Mas, afinal, para além de uma “elegância”: não é a verdade, mesmo que doa, o que interessa procurar? Cristopher Shea escreve sobre o assunto, através do artigo “Is Scientific Truth Always Beautiful?”, no The Chronicle Of Higher Education.


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