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A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.

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Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural

Costuma-se propagandear “por aí” que o advento do “estado” da internet instaurou, simplesmente, uma espécie de novo “regime democrático”. No qual “as pessoas” detêm, agora, o poder. O que, até certo ponto, considero ser verdade. Talvez “as pessoas” detenham mais algum poder. De qualquer forma: um poder mínimo. Contudo: concentrou uma grande parte da população mundial no mesmo género de sonhos e aspirações: a cultura, a arte, as indústrias “criativas” e uma standardizadora “indústria de conteúdos” que mete quase tudo o que mencionei anteriormente no mesmo “saco”. Conseguimos, “finalmente”, transformar, de uma vez por todas, quase tudo aquilo que apelidamos de arte em negócio. Mesmo que digamos que o que estamos a fazer é apenas “partilhar”: um argumento que é óptimo como placebo para a consciência colectiva. Porque, desta forma, podemos combater – ou dizer que o fazemos – o capitalismo à vontade. Enquanto, no fundo e através do networking, estamos a fomentar, talvez, uma das suas piores fases. A ultra distribuição da publicidade por todo o género de projectos ou plataformas  “informativas”, pelo facto de se ter precarizado, utiliza o argumento da “partilha” como técnica de marketing. “Não nos estamos a tentar promover: estamos a partilhar”. Aqui, “informativas” – como conceito projectado por Sillicon Valley – é singularmente diferente da ideia de informação, jornalística ou somente literária, como a considerávamos anteriormente. Para esta nova era tecnocêntrica: “informação” parece constituir quase tudo o que é “produzido”: notícias, todos os géneros de entretenimento, jogos de computador, aplicações, música ou o cinema. Este “pequeno” pormenor não é muito difundido, em artigos de “opinião”, nem muito “partilhado”, em conversas, a nível social. Nem interessa fazê-lo. Tal dificultaria o que mais importa, principalmente, para uma minoria empresarial: o curto- prazo e o salto “perpétuo” de link em link. Não exactamente em nome do “conhecimento” como se costuma normalmente advogar. Mas, essencialmente, em nome de uma comércio mais ou menos desesperado numa realidade económica que parece ter entrado em modo “distopia”. Foi assim, desde o advento da crise económica e financeira, instaurada uma visão permanentemente low- cost da realidade. A não ser para todos os “gigantes do digital” que conseguem arranjar todo um conjunto de técnicas para conseguirem escapar aos impostos a nível transnacional. São, apesar de tudo, muitas vezes desvalorizados na bolsa, dão prejuízo – como o “aspirador” concorrencial que constitui a retalhista Amazon – e empregam pouca gente a nível internacional. “Desculpem” mas, por aqui, não me parece existir grande “democracia”. Para além de outro factor não menos importante: à medida que as aspirações criativas, literárias e artísticas se concentram, agora, numa rede mundial que atingiu o número de 1230 mil milhões de usuários – o Facebook – mais se afunilam em termos de densidade e de profundidade devido à rapidez com que são e têm de ser distribuídas e, por isso, consumidas. Fica a ganhar a quantidade se impera, quase unicamente, o que é veloz: fragmentos e inúmeros estilhaços. A complexidade e a qualidade perderam terreno.


A Digitalização da Moral Sexual

Há qualquer coisa “no ar” a fazer-nos sentir que, apesar de todo o avanço tecno- científico actual – ou, pelo menos, de uma sobre- publicitação do mesmo em nome do “obrigatório” “estudo”, do apressado artigo académico ou das “citações”, em inglês, nas revistas ou plataformas da especialidade – existe algo que, em termos sociais, se retrai. O ser humano, por muito que deseje o contrário, não é, ainda, um gadget que possa ser actualizado, renovado e apresentado em cima de um palco todos os anos. Pelo contrário: sai-lhe a “casca”. É o verniz a estalar em tempos de crise económica e finaceira. E tudo aquilo que aparentava “liberdade” ou “democracia social” entra, vagarosamente e mais uma vez, em processo de erosão. Em termos civilizacionais, como sempre, nada está garantido. Ou melhor dito – para nos adaptarmos ao léxico computacional corrente -: programado. A “cultura” não nos foi oferecida de bandeja. É uma esforçada construção de milénios, com avanços e retracções, não raras vezes com erupções repentinas e transformações radicais quando menos as esperamos. Como o regresso de indesejáveis arcaismos morais.

Basta uma vista de olhos pelas páginas dos jornais: regressa o nacionalismo, o racismo, tentativas de anexação de territórios como também o discurso castrador sobre as minorias e as facções da população mais fragilizadas. É a “austeridade” social a seguir a económica. Movimentos que têm origem, ou reflexo, em representantes políticos – responsáveis embora também eternos bodes expiatórios – mas que, adicionalmente, englobam toda uma “sedimentação” e uma vontade populacional bastante mais vasta. Que acabam por  abarcar o tipo de instituições que actualmente são louvadas e erigidas como que constituindo alternativas em direcção a um mundo mais justo e igualitário. Não me vou focar, por agora, em questões económicas. Já o tenho feito insistentemente nos últimos cinco anos. Seguirei, desta vez, por um outro caminho: a questão da moral sexual e as formas que pode adoptar, através de alguns exemplos que considero significativos, neste início do século XXI. Existem, nas empresas que são habitualmente denominadas como “gigantes do digital”, particularidades que nos trazem à memória qualquer coisa semelhante à de uma nova castidade. Com todo um renovado conjunto de directrizes e “proibições”. O “dedo” está apontado. O discurso dominante gira, habitualmente, em torno da liberdade de expressão. Mas um olhar um pouco mais aprofundado revela-nos, aqui e ali, uma realidade ligeiramente diferente. Não se trata, unicamente, de uma questão terminológica: a “nuvem” – a cloud – é onde depositamos as nossas aspirações de “salvação” cultural. Para o pôr mais ás claras: gratuitidade cultural. “De mãos dadas”: “adorámos” Steve Jobs, co- fundador da Apple Inc., assim como Tim Cook, o “clone” escolhido que lhe seguiu. Detentor de semelhanças fisicas quase perturbantes. Depositamos “esperanças” na monopolista distribuição literária por parte de Jeff Bezos que idealizou a Amazon. E esperamos poder comentar livremente a realidade através da criação de Mark Zuckerberg: a rede social – ou como diria Eduardo Cintra Torres: rede social anti- social – facebook. Contudo:

Sabemos que a Apple censurou no ano de 2012, através da loja ITunes, um e- book de Naomi Wolf intitulado “Vagina – uma nova biografia”. Que, segundo o sítio da Globo, “trata da própria, mais especificamente dos motivos que fazem o orgão genital feminino ser ainda hoje citado de maneira “um pouco envergonhada””. A ironia relativa à citação: a expressão foi substituída por “v****a”. Não é caso único: o mesmo aconteceu a “Os monólogos da vagina” de Eve Ensler. Como a um episódio da série “Girls”: “Vagina Panic”. Do “outro” lado: a palavra “pénis” teve destino semelhante relativamente ao livro “The Penis Thieves” de Frank Bures. A empresa já tinha feito o mesmo, no ano de 2010, no que respeita à lista de livros mais vendidos da Ibookstore: dois contos eróticos de Carl East – “Blond and Wet, The Complet Story” e “Big Sis” – que ocupavam, respectivamente, a primeira e a segunda posição. E um de Ginger Starr – “Six Sexy Stories” – que ocupava o quinto lugar da tabela. Existem bastantes mais exemplos. Que incluem revistas famosas, bandas desenhadas e cartoons.

A ultra- multinacional Amazon não fica atrás: a empresa, no ano de 2012, cancelou o contrato que tinha com a Digital Manga Publishing. Alegadamente porque a banda desenhada que distribui continha “conteúdos impróprios”. O problema foi a edição de um yaoi, uma espécie de romance homossexual masculino, pelo facto de entrar em conflito com as directrizes da empresa. Nomeadamente: a proibição de “imagens gráficas de pornografia e material pesado”. Os conteúdos continuaram à venda , apesar de tudo, através de outras lojas de distribuição digital. A questão é que a Amazon não faz uma distinção clara e objectiva entre pornografia e erotismo. E a censura, por outro lado, não se estendou a conteúdos de género heterossexual. A empresa defendeu-se dizendo que se tratara de uma “falha na catalogação dos livros”. Que ficaram, mais tarde, novamente acessíveis mas difíceis de serem encontrados. O mesmo aconteceu relativamente a outro tema: o incesto. Segundo um artigo de Isabel Coutinho disponibilizado pelo jornal diário Público e intitulado “Amazon censura livros sobre incesto”: a empresa retirou livros, sem avisar, que o mencionavam dos leitores electrónicos das pessoas que já os tinham comprado. Como nota, bastante significativa, de “curiosidade”: a Amazon Publishing acaba de criar uma nova divisão, dedicada à ficção e à não- ficção, intitulada Waterfall Press. O objectivo será o de vender livros com temática cristã.

A rede social facebook, conhecida por fazer constantes alterações sem qualquer tipo de pré- aviso, costuma, periodicamente, censurar conteúdos como se um qualquer algoritmo comandasse as operações. O discernimento, de facto, não costuma ser grande quando a nudez é identificada. O que leva à exclusão de obras de arte – que podem incluir a escultura, a pintura, o cinema ou a fotografia – de diferentes regiões e épocas da história humana. De vídeos em que sejam mostrados os orgãos genitais dos membros de diversas etnias que não costumam partilhar os hábitos ocidentais no que respeita a moral ou a vestuário. Ou de fotografias em que está presente a amamentação materna. A moralização falha, contudo e por exemplo, quando esteve em causa a postagem de um vídeo que mostra uma mulher a ser decapitada por parte de um grupo organizado ligado ao narco- tráfico mexicano.

Qualquer empresa privada, de qualquer forma, tem o direito de definir regras de postagem ou de publicação. Contudo: está em causa a concentração de actividades que estavam anteriormente mais dispersas e por esta razão, mais livres. O comércio tradicional livreiro não sobrevive face às constantes investidas de empresas supra- nacionais como a Amazon. E espaços de distribuição informativa, como o facebook, há muito tempo que deixaram de constituir passatempos marginais. Constituem novos “estados” aos quais é quase impossível escapar por razões de ordem publicitária ou laboral. O networking faz parte do dia a dia de milhões de cidadãos a nível internacional. Constituem hobbies standardizadores e massificadores que orientam o discurso planetário e que promovem, não raras vezes, a auto- censura a nível consciente ou inconsciente. O comércio tradicional, nisto, deixava, pelo menos, “respirar”. Contudo: o foco teima em não se reorientar. Os novos alvos são, ainda, demasiadamente perdoados. Quando, no fundo, constituem, actualmente, uma chave e uma das peças principais.

O jornalismo contemporâneo, apesar de progressivamente mais atento, não precisa de deixar de escrutinar aquilo que se denomina como “tradicional”: o que, ainda, aparenta ser exterior ao tentáculo das estruturas digitais. Mas à medida que a tecnologia se desenvolve e a separação se torna progressivamente mais difusa ou mesmo inexistente: precisa de começar a interpretar um planeta que será, a partir de agora, cada vez mais complexo, dificil de noticiar e de descodificar. Explicações que não se conseguem com posts nem “infográficos”. Se assim o desejar: terá muita investigação a fazer e trabalho de qualidade a realizar.


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