Tag Archives: guerras do sécuio xxi

Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.

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Digitalização e Selecção Literária

Estamos em época de “contaminação”. Que não se trata apenas de uma generalização, o que é positivo, da vontade de escrita a nível internacional. Contudo: em grande parte dos casos ela é de má qualidade. A “mistura” multiplica-se e, por isso, confunde-se na rede. Muita não se baseia, para se tentar “inscrever” – utilizando a conhecida expressão popularizada pelo filósofo português José Gil -, em antecedentes literários. Uma grande parte dos trabalhos que são enviados para diversas editoras não tem sequer “formação”. Não existiu leitura: o passado foi, por isto, ignorado. Não raras vezes, por outro lado, é utilizada uma linguagem essencialmente televisiva: o discurso directo. E a auto- publicação, embora benéfica em termos democráticos, é, com muitas excepções, filha do instante e do curto- prazo. Não se trata, no que respeita a este artigo, de nos alhearmos do que é actualmente produzido. Mas o que existe tem de ter filiação. E ela deve ser procurada. Não são raros os autores actuais que evitam a leitura de obras do século XX e das que o antecedem por uma questão de “mercado” e de “legibilidade”. O que foi escrito lá atrás tornou-se estranho: “complexo”. A linguagem,  ao que “parece”, “inacessível” e “erudita”. Não é que se deva denegrir o presente. Mas o futuro terá de ser construído não apenas com as premissas actuais – embora também – mas com tudo aquilo que os nossos pais e avós nos quiseram delegar. Em termos meramente “científicos” muitas páginas acabaram por caducar. Mas temos sempre livros maiores, mestres integrais e uma repescagem de pormenores que não nos convém ignorar. Sem contudo, se nos quisermos levar a sério por inteiro, deixarmos de estar atentos ao que vem aí. Levanta-se, de qualquer forma, uma questão. Se a rede se agiganta; se são criados diáriamente, apenas através do wordpress, cerca de 100.000 blogues: quem fará a selecção do que nos interessa em termos civilizacionais?


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