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Os transhumanos

Quem nos diz que, pela vida fora, teremos que seguir, constantemente, pelo mesmo trilho? Quem desta forma, radical, se mumifica arrisca uma cristalização em termos de personalidade. E, por este motivo, denigre, ofuscando-as, pinturas internas. Escrevo sobre dogmas. Sobre “normas” sociais e religiosas. Falo sobre “normalidade”. Mais concrectamente sobre normatividade sexual. Acerca daquilo que, por vezes, o estado, para assim poder melhor gerir e catalogar, teima em petrificar.Tratamos, portanto, de política: de heteronormatividade. Ao ficarmos mudos perante tal imposição arriscamo-nos à doença fisica e mental. Existem, portanto, momentos em que necessitamos de seguir viagem. E, se assim for necessário, por múltiplas estradas. A bissexualidade, a homosexualidade, o travestismo ou a transsexualidade existem. Muitas vezes habitam em nós de forma velada ou latente. Requerem, por isso, atenção. Como afirma a filósofa norte- americana, perita em matérias como esta, Judith Butler: “vamos viajando”. Nós: os “transhumanos”. Digo eu.

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Sexofobias

Segundo Frei Bento Domingues, numa crónica do jornal Público disponibilizada no passado dia 15, vem aí a “terceira igreja”: parece que o Papa Francisco recusa “fazer da fé cristã uma tristeza”. Está a – vou citar de forma reconstruída – “irritar não só a alta finança, mas também os movimentos que tentam recuperar o medo do pecado e a ameaça do inferno com o auxílio de eclesiásticos vestidos e calçados a preceito”. Esperemos que sim. Conhecemos a História e, apesar do progresso, sabemos o que nos costuma trazer a vontade de “austeridade” em épocas de crise económica e financeira. Cresce, também, o racismo. Como surgem, aqui e ali, erupções de ultra- nacionalismo. Regressa, portanto, o homem do costume: com batina ou sem batina; chefe de estado ou “cidadão”. Júlio Machado Vaz, numa das últimas crónicas para a Antena 1, discutiu – afirmando, pelo meio, que vivemos “numa sociedade pouco erótica” – um estudo que dá conta de uma ligeira descida no número de relações sexuais nos últimos 20 anos. Acompanhada por uma perda do aprofundamento relacional. Devido à crise mas, também, ao excesso de distracções tecnológicas e de entretenimento mediático. Os ares dos tempos parecem anunciar, por isto, uma nova conspiração contra o corpo: uma fuga do baixo ventre para o cérebro. Não será por acaso, aliás, todo o favorecimento civilizacional actual do racionalismo e da neurologia contra outras disciplinas: tudo o que é, no fundo, do pescoço para cima. Em direcção à inteligência artificial. A um outro tipo de espiritualidade. Com igreja ou sem igreja: o ser humano disfarça e tenta reconstruí-la com moldes mais refinados: foge da natureza e da Terra através do sintético, do plástico, do “sexo virtual”. Tudo, no fundo, o que não implique carne, pele, qualquer género de líquido corporal: não deixa de nos vir à memória o filme Gattaca, de 1997, realizado por Andrew Niccol. Onde quem tentasse ter relações sexuais segundo métodos naturais – como nós: ainda humanos – era perseguido. Portanto: antes que surjam as circunstâncias do costume – e o bullying, devido à homofobia, aumenta entre gerações mais novas – : há direitos que demoram tempo a conquistar. E, por isso, têm que ser defendidos: sexo por amor, sexo sem amor, com casamento ou sem casamento, heterosexual, bissexual, homosexual, transsexual, a dois ou em grupo, sado- masoquista ou soft, com plástico ou sem plástico, com “brinquedos” ou sem “brinquedos”, com “fidelidade” ou troca de casais: podemos não gostar devido à nossa sensibilidade e à prática individual de cada um. Mas a cada um o seu “sintoma”. Tiremos a “batina”.


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