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A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.


Movimentos Independentes ( Como na Serra do Gerês)

Um dia, num dos cafés, da cidade de Braga, onde me costumava sentar para ler os jornais e fumar um ou dois cigarros cravados, reparei em duas mesas acastanhadas que se encontravam encostadas. Estavam, como outras dispostas pelo resto da esplanada, completamente encharcadas. Contudo, talvez devido à posição em que me encontrava, fixei-me naquelas. Já não chovia. Mas várias pingas de água escorriam, de forma sincopada, dos dois tampos para o chão em estrado de madeira. Como, também, pelas pernas das quatro cadeiras que as rodeavam. Imaginei, apesar de tudo, uma família que poderia ali estar a conversar. Projectava, com certeza, emoções próprias. Tentando preencher vazios interiores. Ou, embora ofuscado, qualquer coisa de cheio. Senti que, tanto os acentos como os tampos, suspiravam, aflitos, pela falta de corpos. De braços e de cotovelos pousados. Intimidade. Não é raro fixar-me em objectos isolados e rouba-los da multidão. Pormenorizo, criando ficções, como se entrasse para dentro do olho de um furacão. Ignoro o resto. Contamino-os com “poesia”. Paro o tempo. Atribuo-lhes vida própria. Num outro dia reparei num conjunto de folhas outonais – deviam ser umas sete – que se arrastavam pela berma de uma estrada. Pararam, em determinado momento, todas ao mesmo tempo formando um pequeno desenho abstracto. Como se as tivesse fotografado. Olharmos, sem pensar, para eventos isolados pode fazer com que consigamos, de volta, alguma da magia e do mistério que, entretanto, se perderam: num planeta em que a “informação”, ou falta dela devido ao excesso, parece ter de ser, agora, obrigatoriamente veloz; em que a doença da “digitalização total” acelerou o tempo e, por isso, o prazer da descoberta no demorado se eclipsou. Escrevo sobre movimentos como se fossem independentes. Sem qualquer género de preocupação. Mais importante do que isso: que desconhecem o significado de uma moral. Que é, agora e cada vez mais, assustadoramente colectiva. Sabem, no fundo, dançar. E sabe bem, nem que seja por segundos, suspendermos o ruído supostamente “científico” que se tem tornado omnipresente. E, por este motivo, inconsistente. Assemelha-se, mais ou menos, a um passeio pelos trilhos e pelos montes da Serra do Gerês. Que, para mim, passam por montanhas. Os olhos, atribulados pelos estímulos da cidade como pelas quase inúteis postagens das redes sociais podem, desta forma, descansar. O Gerês é-nos alheio. Ri-se de nós: a cada “partilha” de ignorância.


Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.


A Importância da Interpretação e do Contexto no Jornalismo Cultural

Uma das capacidades que mais admiro, nos outros, em época de “postagens”: a de se tentar escrever bem. Para que eu próprio possa ousar, experimentando, evoluir. Contudo: também, simplesmente, a de se tentar escrever. Evitando o texto curto: uma das “doenças” deste século, devido ao excesso, à qual também não escapo de vez em quando. Trata-se de uma luta cultural e civilizacional. De um problema de contaminação habilitado por uma teimosia constante e habitual: a “eficiência” tecno-económica. Dou como exemplo contrário: a aptidão para se pegar numa só foto, como fez Roland Barthes, e de a conseguir dissecar. Como, aliás, o autor o relatou através do livro “A Câmara Clara” que foi editado no ano de 1980. Não constitui tarefa fácil. Passa-se o mesmo relativamente ao cinema: assistirmos a um filme, em sala – para o sentirmos melhor -, e, depois de o deixarmos cerca de uma semana em “pousio” – interior -, a “marinar” e a amadurecer, convertê-lo num texto que caiba, ainda , em página inteira. Como continua a fazer, para nos referirmos apenas ao território nacional, o semanário Expresso pelo menos de vez em quando. Como deixou o diário Público de os disponibilizar há já algum tempo devido a inúmeros factores – e, aqui, a falta de espaço não é dos menores -. Reduzindo, desta forma, a interpretação e o contexto histórico- cinematográfico a umas magras colunas que, apesar de regularmente bem escritas, têm, agora, de se fazer valer através de um estilo mais condensado. Tenho pena. Costumava ser um hávido consumidor de artigos jornalisticos que lhe eram relativos. As interpretações sempre me fascinaram. Por muito distantes, em termos de imaginário simbólico e linguístico, que se encontrem umas das outras. Nisto: o já falecido João Bénard da Costa era rei. Escrevia, sobre filmes, como se pintasse uma tela. Davam-lhe espaço para o fazer. E o sentido, a procura de um sentido que Bénard parecia exigir extrair através do uso de uma palavra quase musicada, só poderia ser conduzido dessa forma. Não interessa, para esta crónica, se existem blogues mais ou menos especializados e direccionados para o tema com textos de igual ou de superior qualidade. A imprensa generalista, com todos os seus suplementos culturais, continua a  representar um outro papel social. Não deveria, por isso, continuar a ser desprezada, como o é actualmente, por constituir uma espécie de aparência, física, real ou imaginária – sublinhando: muitas vezes imaginária; a democracia igualitarista precisa de “inimigos” – aos olhos dos cidadãos de poder e de “controle”. Pura e simplesmente porque, no que respeita à comunicação, quase tudo representa luta, poder e combate cultural. Tentação que, obviamente, não escapa aos inúmeros tweets, blogues e start-ups de cariz informativo – e desinformativo – que são criados diáriamente. A “sociedade reticular”, neste aspecto, aumentou a competição mas, adicionalmente, o nível de paranóia social relativamente ao que é dito e ao que é escrito: pelo outro. A imprensa generalista, nas mãos certas, continua a ser necessária. Apesar de todos os problemas que tem enfrentado em termos económicos e sociais para que nos possa continuar a indicar caminhos de reflexão comuns. Continua a constituir um ponto de encontro necessário que une e concentra visões, um pouco mais gerais, da realidade. Evita o estilhaçamento de vontades comunicativas sem, contudo, acabar com elas. Impede, um pouco, um género de “autismo” muito contemporâneo: o isolamento social favorecido pela tendência para a “personalização” de “conteúdos”. Alguns, nesta fase em que quase tudo parece significar “elitismo”, teriam a tentação de apelidar esta posição que defendo como “tendência para o controle”. Existe, contudo, uma outra que vai para além desta generalização: uma ultra- valorização do individual em detrimento daquilo que se teima em apelidar, estigmatizando, de “jornalismo tradicional”. Como se este último precisasse de desaparecer em nome dos múltiplos interesses da filosofia concentracionária da oligarquia digital. É jornalismo a tentar ser o que sempre foi: ponto final. Esta posição bastante radical tem incentivado – e criado – o empolamento, não apenas do que se convencionou chamar  de “jornalismo- cidadão” – que pode ser também uma forma de exploração -, do “narcisismo- cidadão”: em direcção ao selfie, ao império da velocidade, da facilidade e da quantidade. Em última análise e em termos gerais: à falta de qualidade informativa, jornalistica e literária. Interessa dar voz à “maioria” em nome de um precário comércio digital. Contudo: somos, agora, mais prisioneiros das estatísticas. Mais escravos das “citações” para nos tornarmos visiveis em motores de busca. Do número de visitas por página. Para tal acontecer: a “classe média informativa” transmutou-se numa espécie de obstáculo a eliminar. As perguntas que mais interessam, sobre o poder, deixam, por isso, de se fazer com a mesma insistência e pormenor. Muito nos começa a passar ao lado. Deveria, por estas razões, continuar a existir um espaço para todos. A análise e a crítica, exigente e profissional, têm sido desvalorizadas por vivermos e defendermos, actualmente, um ecossistema económico- digital “infestado” por “comentários”, “comentadores” e todo um conjunto de ansiosos por veículos publicitários como são as conferências TED Talk. Tentando-se degradar, para que tal seja possível, o que aparenta vir de cima. Mudanças sociais que se tornam insuficientes para uma conveniente – ou inconveniente – compreensão histórica, artística, literária, jornalistica, musical e cinematográfica. Novamente no que se refere a esta última área – poderia utilizar outras para servirem de exemplos mas parece-me suficiente nomear, pelo menos para já, apenas uma – : navegamos, hoje em dia, sofregamente por sítios infestados de cartazes com filmes principalmente americanos: os de terror, as comédias românticas e os filmes de acção. O trio “paralítico” habitual que, grande parte das vezes, é-nos oferecido como se fosse uma espécie de pronto-a-comer sem qualquer descrição, com qualidade, que nos permita situar a obra de uma forma política, social e, por isso, temporal. Um ciclo vicioso que tem favorecido o parco interesse dado ao argumento e à realização – à autoria e ao nome do realizador – por parte de um género de consumidor, de tipo novo e coleccionista, que, acantonado no seu “nicho”, se tem habituado, progressivamente, a uma procura preguiçosa, pouco informada, fragmentada e desconexa: “vê-se o primeiro que aparecer”. Tanto nas salas que ainda resistem em centros comerciais como nos diversos sítios que proliferam pela internet. É a cara, a pose dos actores e a capa mais “atractiva” aquilo que parece interessar cada vez mais. A história do cinema como, aliás, quase toda a história, parece, actualmente, ser pouco necessária à cultura popular. “Formatar o sistema !”: repete-se, por aí, relativamente a quase tudo o que seja manifestação cultural. Mas a presente “revolução”, mais do que “digital”, é social: trata-se da construção de um estado – de um estado, semi- amnésico, de pensamento – que se deseja alheio ao “exterior” e também àquilo que lhe é “anterior”. A “mudança de paradigma”: um rompimento que, embora seja necessário em determinados aspectos, parece querer evitar, em larga escala e apesar de toda a informação e literatura, dispersa e digitalizada, um significado e o passado. É apenas uma da contradicções do presente. Continuamos, contudo, a precisar de jornais. As assinaturas nunca foram tão baratas. Entraram em espírito low- cost.


O Confronto de Bartleby Com o Planeta Terra

“Já tudo foi escrito”: afirmou Bartleby. Essa espécie de homem que não pára de andar em circulos, com os dentes semi- cerrados, sem chegar, efectivamente, a lado nenhum. Como se, realmente, o desejasse. “Tens a certeza?”: contrapôs, entristecido, o Planeta Terra. “Sim ! Repara: muito daquilo que nos foi, e que nos continua a ser essencial foi elaborado, pensado, pintado e escrito – e com todas as cores ! – de uma forma muito mais rica e simbólica a partir da Antiga Grécia. Que vontades dali vieram ! Passámos, entretanto, por uma longa fase negra, embora diversa como em todas as épocas, no que respeita a uma interpretação da “existência” e da “realidade”. Felizmente que muito desse significado, mesmo que encontrado em cacos depois de ter sido marcado na pedra, acabou por ser recuperado. O que favoreceu uma  reabertura e, por isto, uma recriação. Desde a época do Renascentismo, com altos e baixos e através de inevitáveis ciclos, não parámos de, em certo sentido, evoluir. Repara, como exemplo, em toda a tecnologia que conseguimos desenvolver e que estamos, presentemente, a produzir. Mas olha, principalmente, para tudo o que se escreveu, ou se pintou, com a passagem dos séculos. Olhemos, também, para a complexidade. Que se teima agora em perder, em reduzir e em recusar. Que percorreu, por exemplo, o fascinante vulcão de ideias, de sementes e de uma verdadeira “inovação” que construiu todo o século XX. Chegamos a um momento em que, nos domínios das artes e da literatura, pouco parece ser ultrapassável. Acrescentamos, quase unicamente, “estatísticas”. Há quem o defenda e quem o advogue: alguns pretendem, através da retórica, acabar com tudo isso. Será necessário? Em nome de quê e em nome de quem? Com tanta liberdade e andamo-nos a castrar. O quê?? É que, neste momento, recomeçamos a simplificar. Escrevendo, como se costuma dizer, por exemplo, para os lados de Inglaterra, com uma forma cada vez mais “limpida e cristalina”. Dizemos “adeus” às metáforas: a tudo o que foi – e que poderia voltar a ser – realmente individual, emocional e profundo. Abraçamos, outra vez, a superfície moral: “as biologias !”; “as neuro- ciências !”. Ao ponto de já existirem alguns robôs a “escrever”, a “decidir”, a “criar” por nós. Existirá algo mais “simples”? Tudo se deseja compreensível: “directo”, “eficaz”, “objectivo”. “Nada que tenha a ver com a natureza humana: fujamos dela !”. E, realmente por tudo isto, a “realidade” torna-se menos explicável. Estamos, novamente, em terrenos do triunfo da “matemática”, da computação, de um “cérebro” sem corpo. Já tudo foi escrito. E, no entanto, nunca existiu tanta “leitura”, nunca se viram tantos “livros” e nunca houve, a circular, tanta “informação”: “dados”, “factos” e “estatísticas”. Numa ausência de mundo, de plantas carnívoras e adocicadas, de música e planetas interiores. Nada de inteiramente novo se faz. Autores contemporâneos, também em nome do mercado, não querem ser contaminados. Têm “medo” de ler determinadas obras porque as consideram “ultrapassadas” – que, muitas vezes, não o estão: apenas para o necessário espírito do tempo que corre; que quer correr -, “antigas” e “tradicionais”. Esta vontade de velocidade: fugindo de quê? Esquecendo o quê? Deixam de as entender. E suspeito que não desejam voltar a compreender. Seria tudo demasiado…”.”Complexo, Bartleby ? Chegaste a um ponto fundamental”: retorquiu, desiludido, o Planeta Terra com este outrora grande homem que, para ter amigos, se transformou em homensinho. “Tens ficado com um problema de memória. Anuncias por aí que queres “formatar o sistema”. “Fazer a revolução! “. Dizendo, enquanto andas em circulos e de mãos atrás das costas, que já tudo foi escrito. Existe, contudo, um pormenor importante que também tens “esquecido”. “Qual?”: inquiriu, Bartleby, visivelmente  irritado e desafiador. “Repetes e repetes que já tudo foi escrito. Mas, de certa forma, o único grande problema é teres ficado com as costas demasiado pesadas e, por isso, demasiado quebradas. A questão é que existe algo, para lá do “conhecimento”, que é igualmente importante”. Barleby não tinha a certeza se desejava saber a resposta. Talvez as dúvidas e, ao mesmo tempo, tantas certezas lhe dessem algum jeito para, lá no fundo, não resolver problema nenhum. Talvez gostasse de ter ficado com as costas pesadas. Mas, a medo, avançou: “o quê?”. Planeta Terra: ” Corta a corda, Bartleby ! Olha para lá do “conhecimento”. Utiliza a imaginação. Achas que já tudo foi escrito. Contudo: nem tudo foi inscrito !


Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural

Costuma-se propagandear “por aí” que o advento do “estado” da internet instaurou, simplesmente, uma espécie de novo “regime democrático”. No qual “as pessoas” detêm, agora, o poder. O que, até certo ponto, considero ser verdade. Talvez “as pessoas” detenham mais algum poder. De qualquer forma: um poder mínimo. Contudo: concentrou uma grande parte da população mundial no mesmo género de sonhos e aspirações: a cultura, a arte, as indústrias “criativas” e uma standardizadora “indústria de conteúdos” que mete quase tudo o que mencionei anteriormente no mesmo “saco”. Conseguimos, “finalmente”, transformar, de uma vez por todas, quase tudo aquilo que apelidamos de arte em negócio. Mesmo que digamos que o que estamos a fazer é apenas “partilhar”: um argumento que é óptimo como placebo para a consciência colectiva. Porque, desta forma, podemos combater – ou dizer que o fazemos – o capitalismo à vontade. Enquanto, no fundo e através do networking, estamos a fomentar, talvez, uma das suas piores fases. A ultra distribuição da publicidade por todo o género de projectos ou plataformas  “informativas”, pelo facto de se ter precarizado, utiliza o argumento da “partilha” como técnica de marketing. “Não nos estamos a tentar promover: estamos a partilhar”. Aqui, “informativas” – como conceito projectado por Sillicon Valley – é singularmente diferente da ideia de informação, jornalística ou somente literária, como a considerávamos anteriormente. Para esta nova era tecnocêntrica: “informação” parece constituir quase tudo o que é “produzido”: notícias, todos os géneros de entretenimento, jogos de computador, aplicações, música ou o cinema. Este “pequeno” pormenor não é muito difundido, em artigos de “opinião”, nem muito “partilhado”, em conversas, a nível social. Nem interessa fazê-lo. Tal dificultaria o que mais importa, principalmente, para uma minoria empresarial: o curto- prazo e o salto “perpétuo” de link em link. Não exactamente em nome do “conhecimento” como se costuma normalmente advogar. Mas, essencialmente, em nome de uma comércio mais ou menos desesperado numa realidade económica que parece ter entrado em modo “distopia”. Foi assim, desde o advento da crise económica e financeira, instaurada uma visão permanentemente low- cost da realidade. A não ser para todos os “gigantes do digital” que conseguem arranjar todo um conjunto de técnicas para conseguirem escapar aos impostos a nível transnacional. São, apesar de tudo, muitas vezes desvalorizados na bolsa, dão prejuízo – como o “aspirador” concorrencial que constitui a retalhista Amazon – e empregam pouca gente a nível internacional. “Desculpem” mas, por aqui, não me parece existir grande “democracia”. Para além de outro factor não menos importante: à medida que as aspirações criativas, literárias e artísticas se concentram, agora, numa rede mundial que atingiu o número de 1230 mil milhões de usuários – o Facebook – mais se afunilam em termos de densidade e de profundidade devido à rapidez com que são e têm de ser distribuídas e, por isso, consumidas. Fica a ganhar a quantidade se impera, quase unicamente, o que é veloz: fragmentos e inúmeros estilhaços. A complexidade e a qualidade perderam terreno.


Planeta Terra: Planeta Placebo

Num mundo que se pretende “informativo” – mas, acima de tudo, publicitário -: necessitamos, por vezes, de fazer uma pausa. Oferecendo uma prenda a nós próprios através de algum descanso. Evitar a “conectividade”, massificadora, que nos é, agora, tão “exigida”. E, quando se escreve – como consequência -, uma das maiores pragas, jornalísticas e literárias, actuais: a “legibilidade” textual. Esta espécie de empobrecimento contemporâneo que tanto nos é pedido em prol do consumo e do ecrã perpétuo. De uma enlouquecida formatação e rapidez comunicacional que não nos levará, em termos de um maior conhecimento, a lado nenhum. É o “mercado” da quantidade. E, também, a inconsciência do momento. Como outras: mais uma “religião”. Um novo placebo. Voltemos, então, a questões “ingénuas”:

Isto por me ter lembrado de, quando era criança, olhar para o arco- íris e sentir-me insatisfeito. Parecia-me insuficiente. Como se lhe faltasse alguma coisa. Veio-me à memória há alguns dias atrás. Quando passeava, debaixo de chuva miúdinha, por uma ruela apertada deste vácuo convento, também pouco espaçoso, ao qual tenho de regressar de vez em quando: a cidade de Braga. E depois de ter visto, projectados na parede do lado direito, três pequenos círculos com as cores azul, verde e vermelha que vinham, atravessando o escuro, de uma montra de uma loja de roupa feminina. Que tinha pendurados os projectores luminosos. Para além de um cão de louça com as costas voltadas, acastanhado e amarelo torrado, que se encontrava sentado em cima de um pequeno televisor negro. Com um aspecto ainda mais abandonado: pela moda e pelo tempo. Devido à multiplicidade de ecrãs que entretanto surgiu. E que, segundo nos pregam – ha, ha ! -, nos arrancou da “passividade”. Negro era também o galo de Barcelos que, com pouco sentido, para lá estava indisposto ao lado de um outro cor de rosa. “Negro? Cor de rosa?. Talvez queiram regressar a Barcelos”. Tive, nesse exacto momento, uma sensação aproximada: “Só estas cores? Parece faltar alguma coisa”.

A pergunta que costumava fazer, no pátio do colégio de freiras – quase sempre vestidas de cinzento – onde estudava, era a seguinte: existiria mais alguma côr, contando com todas as experiências e misturas possíveis, para lá do alcance do olho humano? Haveria, numa qualquer outra dimensão, um tom que não consiguiriamos aqui, na Terra, vislumbrar? Penso ter lido algo, anos mais tarde, acerca deste assunto. Agora não me lembro. Pouco importa, de qualquer forma. Sobre extra- dimensões: olhando para o meu corpo, imaginando-o ao microscópio, costumava delirar sobre universos paralelos. Imaginando que tudo, como o átomo que nos tece a pele, poderia ser circular: extrapolava para uma existência eterna e global incontáveis, ou infinitas, dimensões que se encaixariam, perfeitamente, umas nas outras. A nossa, em conjunto com outras diferentes ou semelhantes, estaria dentro de uma maior. E esta, lado a lado com outras, estaria dentro de uma ainda maior. Isto: sucessivamente e sem fim. O Big Bang, para mim, não passaria de um começo ao contrário. Ou de uma fuga que vinha de um outro lado qualquer.

Voltando agora, dentro do possível, a colocar os pés no chão: a questão das cores que mencionei anteriormente fez-me lembrar, imediatamente, uma pessoa que teve a ideia de montar um negócio, em Inglaterra, ligado à àrea da “cromoterapia”. Uma prática que, ao que parece, faz uso das cores para a cura de diversas doenças físicas e emocionais. Com vista a um equilíbrio bio- energético. Desenvolveu-se, principalmente, a partir das antigas civilizações do Egipto, da India ou da Grécia. E Johann Wolfgang Von Goethe, cientista alemão do século XVIII, ajudou. Estudando as cores durante cerca de 40 anos. Concluindo, por exemplo, que o verde tem propriedades repousantes, que o azul acalma ou que o vermelho estimula o organismo. A cromoterapia, desacreditada pela comunidade científica, é, de qualquer modo, reconhecida como terapia alternativa ou complementar pela OMS desde o ano de 1976. Foi introduzida no ocidente apenas no século XIX.

Cada um acredita naquilo que quiser. E não duvido que, acreditando, funcione, como tudo, ainda melhor. Devo dizer que quanto mais leio e mais sei sobre diversos assuntos mais o nosso planeta me parece um gigantesco armazém de placebos. Cada um com os seus, ingénuos ou cínicos, zelosos guardiões. De uma última “sabedoria”. Ou de um novo “conhecimento”. Uns mais verdadeiros que outros. Mas todos eles com uma parte de “banha da cobra”. Ganho, por isso e actualmente, alguma simpatia por “alternativas” que não conhecia e que vou “descobrindo” no meu cantinho de ignorância. Como esta. É que eu, pelo menos, não vivo na “sociedade do conhecimento”. Afinal, não raras vezes, qual será a diferença?

O mundo ocidental, naquilo que tem de pós- moderno – este pessimismo -, está velho, gasto e cheio de si mesmo. Cansado: é uma “civilização” pretensiosa que vive, no fundo, dos restos, muitas vezes estragados, da filosofia que ousou, no passado, idealizar. E que tenta, a todo custo, deitar fora e esquecer, ainda por cima, algumas das suas melhores partes. Coitada: resta-lhe, agora e à falta de melhor, a Big Data, o excesso de gadgets e a espionagem, em massa, que ajudaram a criar. Promessas que, em meia dúzia de anos, se tornaram num outro placebo.

Mas, pelo menos, finalmente atingimos a “igualdade”. No mundo de hoje: ela surge-nos, exactamente, em forma de “pastilha” publicitária. Num planeta que, agora, tudo molda em forma de marketing, vendas e “informação”: todos os aprendizes e todos os “feiticeiros” têm o seu “jornal”, a sua start- up, o seu “canal de comunicação”. Nenhuma instituição parece escapar. A política, além de constituir, ao mesmo tempo – feito inédito ! -, laxante e soporífero, metamorfoseou-se em comprimido ineficaz. As recentes ideias de “transição” – que parecem, até agora, não trazer propostas congruentes nem qualquer “manual” com mais de 20 páginas  – são, também elas, placebo. A medicina, por seu lado, gosta de anunciar. Mas, de início, experimenta, essencialmente, com “ratos”. Daqui ao ser humano vai, muitas vezes, um passo “inumano”. Saltamos, assim, de “especialista” em “especialista”. Abundam os artigos académicos – essa “certificação” que já quase nada vale – comprados, falseados ou sem revisão de pares. Cada um com a sua divagação, divergência, misticismo ou interpretação. A psiquiatria, embora mais do que necessária, aumenta, consecutivamente, a lista de nomes de maleitas. E, com ela, o número de zombies mais ou menos amestrados. A psicanálise, com a responsabilidade que lhe conferem os seus mais de 100 anos, dá-nos, talvez, as explicações mais satisfatórias acerca do comportamento humano que podemos encontrar. Nisto: nada a parece ultrapassar. Mas em termos de eficácia terapêutica: o sofá e o divã, núcleos principais de experimentação, ainda vão, em inúmeros casos, lá atrás: em modo “labirinto interpretativo”.

São, apenas, alguns exemplos. Mas, neste momento, não sabemos bem em quê e em quem acreditar. A não ser no império da sedução: as palavras políticas, médicas, jornalísticas e institucionais configuram, actualmente, o nosso planeta- placebo. Mas: “finalmente” atingimos a “igualdade”. A “igualdade” no branco da esterilidade.

Que se esconde, afinal, por trás de todo este nevoeiro, denso, que se avizinha? É que as promessas ficaram lá atrás. Precisamos, por isto, de encontrar novas cores. Não numa outra dimensão. Mas a partir de agora: o ponto onde o futuro recomeça. E, já agora, de um barco consistente. É que podemos, ainda, não conseguir ver nada. Mas é mais do que certo: vem aí mar alto !

 

 


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