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O Jornal Público

O jornal Público ( mesmo que continue a ser o melhor dos portugueses) perdeu há vários anos aquilo que o distinguia: a ênfase dada a cronistas prestigiados e com qualidade. Continuo a ser assinante da publicação. Mas não deixo de ficar triste quando tem “opinion makers” enfadonhos e politiqueiros como o João Miguel Tavares. Falta ao jornal aquilo que o distinguia: crónicas como as do Eduardo Cintra Torres ou os do infelizmentemente falecido Eduardo Prado Coelho. Safam-se alguns. Mas não é suficiente.


2030

Aconselho a compra do número deste mês da revista Courrier Internacional que tem como tema de capa o facto de em 2030 um quarto da população não vir a ter água potável o que provocará todo o género de migrações e mais um problema que teremos de resolver. A história, contrariamente ao que dizia ingenuamente Francis Fukuyama, não pára. O século XXI é um mundo cheio de conflitos. Teremos que repensar todo o nosso estilo de vida.


Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural II

Não me parece que seja, exactamente, a quantidade de leitura – uma leitura tendencialmente fragmentada – a determinar, hoje, aquilo a que poderemos apelidar de “conhecimento”. A sociedade actual, no meu entender, sobrevaloriza- a na forma como a “informação” está a ser transmitida e arquitectada. Isto: se existir “actualidade” numa época que se orgulha de não parar de “inovar”. E, por isso, de não parar para pensar. Em última análise: de não parar. Sabemos que existe, hoje em dia, uma maior distribuição de “factos” – muitos deles contraditórios -, de artigos noticiosos e, como não poderia deixar de ser, de um excesso de publicidade que por vezes se encontra semi- encapotada através daquilo que se convencionou agora apelidar de “publicidade nativa”: um novo género de “product placement” que compõe editoriais de inúmeras publicações. As audiências, apesar de tudo, são maiores. Todo o género de “conteúdos” chega onde anteriormente não tínhamos sonhado. Mas, contudo, as diversas redes sociais – principalmente o facebook -, que foram e que continuam a ser propagandeadas como uma espécie de promessa nesse sentido, “nada mais” fizeram, até agora, do que afastar muitas pessoas de uma leitura mais atenta, mergulhada, imaginativa e emocional. Fomos, assim, lançados para uma espécie de aparência onde tudo parece valer o mesmo. A popularização do selfie – designação habitual para a menos sofisticada, e bem portuguesa, expressão “auto- retrato” – substitui, mais um pouco, a paciência para o texto longo e demorado. Para um salto no interior. “Informação”, para além do mais, tem, nos dias de hoje, um sentido mais ou menos duvidoso. Não falamos, exactamente, de literatura nem de jornalismo de investigação. No léxico dominante e determinado por Sillicon Valley tanto pode designar um tema musical de três minutos, um vídeo de seis segundos, uma fotografia ou um jogo de computador que são tendencialmente produzidos para se poderem encaixar nos métodos standardizadores de distribuição agora prevalecentes. As redes sociais, aqui, são menos democráticas pelo simples facto de encurtarem o tempo de exposição de uma mensagem que poderia ser mais elaborada. Pelo contrário: ela é menorizada. Mas é principalmente através delas que se faz, hoje, a batalha pela exposição e pela chamada de atenção cultural. Isto leva-nos, inevitavelmente, a um certo “desprezo” pela qualidade a favor da quantidade. De fora ficam, normalmente, os artigos longos – mesmo que existam tentativas para os reestabelecer e reinventar -, os ensaios, os livros e tudo aquilo que é mais aprofundado. Ficam, portanto, mais ou menos ausentes dos ciclos de distribuição digital os escritos que não são confeccionados para a difícil leitura proporcionada pelo ecrã de um computador. Também os temas musicais são cada vez mais orientados para um formato mais pop, menos experimental e, por isso, menos político, contestatário ou mesmo “subversivo”. São produzidos para serem colocados, por exemplo, no You Tube. Para que consigam captar a atenção de um ouvinte aos primeiros segundos de audição. A arte, a informação e a cultura transformam-se, deste modo, cada vez mais num sub-produto económico a ter de se render a ultra- velozes formas de promoção. O que acaba, em certa medida, por lhes retirar um sentido último. Não apenas estético. Mas como arma, mais ou menos eficaz, de combate ao instituído e ao estabelecido. Existe, por isso e com toda a certeza, mais informação disponível a nível mundial. Mas é, essencialmente, conhecimento que não circula eficazmente. É mantido bem afastado pela indústria do curto- prazo.


A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.


O Papel dos “Velhos” Frente aos Jornais em Papel

Sabemos que existe, principalmente, devido a milhares de artigos de “opinião” que pululam, à espera de serem encontrados, pela internet fora. Mas ouvi- lo, directamente, através das palavras de um obcecado com as venturas – mas não com as desventuras; essas: há que ignorá-las – da “digitalização total” é diferente: “Espero que um dia tudo isto vá abaixo !”. “Tudo isto” significava, no seu arrebatado léxico, um desejo. O fim, como se estivéssemos a falar de um simples castelo de cartas, do mais ou menos exausto império das publicações em papel. De tudo o que se convencionou, em poucos anos, apelidar, tentando-o reduzir, de “tradicional”. Ou seja: o fim da matéria e da “alma” com que ainda são produzidas muitas publicações que recusaram, até ao momento, sucumbir ao reino único dos “resultados imediatos”. Da velocidade mercantil de um jornalismo que é, agora, menos pensado. Que, sabemo-lo, tem dado pouco azo à reflexão demorada e mergulhada. A “solução”, em forma de mutação – que nunca vem; que não se sabe, muito bem, para que é que, exactamente, serviria, quem serviria e com que fins sociais -, seria a construção de toda uma arquitectura unicamente “digital”. A normalização de uma ideologia que pretende tentar transformar, em pouco tempo, várias manifestações do real em produtos afectos ao conceito anteriormente referido. Trata-se de uma posição – que, além de comercial, é também política que consegue, por vezes, roçar o absoluto fanatismo. Mas como muito disto parece novo, ficção científica e porque cheira a “inovação” – tecnológica – : deixa-se andar. Porque o “futuro” há-de transformar tudo sempre para melhor. Porque uma fuga para a frente parece ser algo de superior. Porque, afinal, poderá significar uma espécie de aurora: um amanhã de plástico replandescente. Acontece que a “digitalização”, aliada a um precário e ultra- veloz capitalismo, traz “pormenores” pouco “eficazes”: imagino, por exemplo, o que sentirá um “velho” perante as “maravilhas” da implementação tecnológica contínua num mundo em que estará inevitavelmente ultrapassado pelo conceito de “formação para toda a vida”. Fantasio que, por exemplo sem o seu jornal, pelo menos envergonhado. Sim. Num planeta obcecado por produtos e serviços direccionados para a juventude: o papel dos “velhos” – e daqueles,  como eu, que estão prestes a entrar na meia- idade – conta. Importa, por isso, o papel dos “velhos” face aos jornais em papel. Estes, felizmente e apesar de toda a desvalorização de que têm sido alvo, ainda têm uma função – para além da nacional – regional e local. Muitas pessoas passam, ainda, o tempo em cafés “antigos”, como em bibliotecas, a conversarem. A discutirem problemas fulcrais para a cidade onde vivem. Tirarem-lhes as publicações que circulam pelas mesas não significa, unicamente, anularem-lhes o espírito. Significa esvaziarem-se espaços de conversa numa “Europa” que é, neste momento, cada vez menos democrática. Significa isolá-los. Pô- los de cabeça para baixo a tentarem entender algo que, devido à velocidade de produção actual, estará, também e em pouco tempo, ultrapassado. Se é, como se tem propagandeado inúmeras vezes, o conteúdo aquilo que mais importa: devemos, de certa forma, “inverter” – ou, pelo menos, repensar – o discurso. Não precisamos de estar, perpetuamente, a mudar de suporte tecnológico. Nisto: deveriamos ser mais constantes. Mais distantes. Mais pausados. Menos supérfluos. Em nome de uma interacção real: café na mesa, companhia e conversa. Não atiremos os nossos “velhos” para mais um fórum na internet. Há coisas que não são substituíveis.


“Focos de Luz” (Para Além das Máquinas): Registo Retro- Humoristico para uma “Salvação” do Jornalismo

Alguns amigos já me fizeram notar, não sem alguns sorrisos, que vejo, “em todo o lado”, parecenças, nas faces de várias pessoas, com figuras públicas. É verdade. “Não é raro” o momento em que imagino, num autocarro ou a passear distraído por uma rua qualquer, o Woody Allen. Talvez seja, aliás, a personalidade com a qual mais me “encontro”. Também “dei de caras” na cidade do Porto, há muitos anos atrás e à saída de uma paragem de um autocarro, com um actor norte- americano que sempre admirei: o Harvey Keitel. Carregava vários sacos de compras e, ao reparar no meu súbito e incontrolável ataque de riso e no meu inocente e espontâneo dedo indicador apontado, penso que se preparava para me lançar com um qualquer ataque massivo. Imagino que com rolos de papel higiénico. Tive sorte: desistiu a tempo. Engoliu a raiva e foi-se embora para agredir, talvez, outra pessoa qualquer: reparei que tinha o pescoço bastante vermelho. Também “vi” um dia destes e ao entrar numa pastelaria aqui perto de casa, numa das mesas, o nosso escritor Miguel Torga. Estava a beber um café e a ler o Diário do Minho. No regresso de umas bafaradas que fui dar num cigarro que tinha comprado por 20 cêntimos – Sim ! Com a crise: eles estão de volta ! -, num local próximo, disse-lhe: “a sua cara parece mesmo a do Miguel Torga“. “Obrigado”, respondeu. Sem conseguir disfarçar o sorriso que lhe acompanhava o orgulho. Reparei, depois de me sentar e enquanto me concentrava nas múltiplas combinações do pensamento freudiano através de uma pequena biografia de Octave Mannoni , que olhava para mim, de vez em quando, com um ar nitidamente satisfeito. Fantasiei que passaria a andar pelas ruas, a partir desse instante, de uma outra forma. Que iria percorrer e folhear todo o Miguel Torga que temos disponível pelas bibliotecas nacionais. Nesse mesmo café também costumo encontrar muitas vezes sentado na mesma mesa, normalmente sem fazer absolutamente nada, o filósofo José Gil. Está lá quase todos os dias. Limitando-se a olhar, movendo a cabeça vagarosamente, para as pessoas que entram. Imagino,  quando sou eu a entrar, que também repara em mim. O que me deixa num estado mais ou menos delirante – que me é bastante próprio – a perguntar: “será mesmo ele? Refugiou-se nesta parvónia – Braga ! – para quê?”. Também costuma seguir, com os olhos, os livros que costumo levar. O que só me acrescenta “esperanças”. Nunca lhe perguntei nada por não me querer “desiludir”. E, claro, tentar evitar alguma cena absurda. Prefiro fingir que encontro o Miguel Torga e o José Gil.

Contudo: o que escrevo tem um objectivo um pouco mais concrecto. O trabalho de José Gil, editado pela Relógio de Àgua no ano de 2003 e intitulado “Cansaço, Tédio, Desassossego”, foi apreciado recentemente com o “Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho“. Contou com a promoção da Associação Portuguesa de Escritores e com a da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. Ainda não li, infelizmente, a obra distinguida mas, assim que puder, deito-lhe as mãos. Tenho, na minha pequena biblioteca, apenas um: o já clássico e, para algumas pessoas, irritante – imagino que também, embora não só, por ter constituído, dentro da área do “ensaio”, um sucesso editorial – “Portugal: Hoje, O Medo de Existir”. Várias vezes o dei a entender através de algumas das minhas crónicas: gosto de figuras “maiores”. Que se conseguem destacar e imprimir, culturalmente, pela perseverança, por uma “diferença” possível, por uma tentativa de dissidência e pela originalidade. Pura “megalomania”? Não só. É desta forma que se fazem perguntas. Que se colocam questões que poderão ser determinantes. Contudo: penso que para isto é necessário uma coisa, bastante importante, que hoje em dia está, virtualmente, reduzida: o tempo. E “afastamento”. Tempo para pensar porque tempo para reconstruir. Mas aquilo que mais me captou a atenção no artigo referido foi o nome de Eduardo Prado Coelho. Admito: vieram-me as lágrimas aos olhos com saudades. De quando ainda me dava um enorme prazer comprar o jornal diário Público durante todos os dias da semana: tinha mais páginas, uma opinião com qualidade superior e, principalmente, consistência. As crónicas de Eduardo Prado Coelho eram diárias e, embora algumas fossem mais interessantes do que outras, havia quase sempre aquele pormenor – o detalhe – indispensável. É isto, quanto a mim, que faz o grande artigo ou o grande cronista: o detalhe de excepção. Que, habitualmente, apenas se consegue melhor tecer com vasta leitura e com o passar dos anos. A comunicação social portuguesa, como sabemos, está empobrecida devido a inúmeros factores. Não é raro o facto de serem, exactamente, os “dissidentes”, numa época em que as linhas editoriais se standardizam a todos os níveis, a serem despedidos. Ou, utilizando uma expressão com a qual agora se costuma tentar suavizar, “dispensados”. Os “Eduardos Prados Coelhos” deste mundo não podem morrer. Muito menos serem esquecidos. Pelo contrário: precisam de ser, de vez em quando, novamente enaltecidos. Para que nos continuem a servir de guias e de exemplos. Deviam ser erigidos por uma população que se encontra, actualmente, mais ou menos amorfa e adormecida, pelas redes sociais, em termos jornalísticos e literários. Não me parece que ande, para já, a existir uma grande substituição. Apesar do “nascimento” de alguns nomes que, pelo menos através da imprensa generalista, começam, quanto a mim, a adquirir uma desenvoltura que nos convém seguir. Como considero ser actualmente o caso – uma das minhas recentes excitações – de António Guerreiro. Que vai fazendo um bom caminho através do suplemento y – felizmente existente, ainda, em formato papel – do jornal Público. Num mundo cada vez mais “económico”, apesar, paradoxalmente ou não, da precaridade crescente e contínua, eles precisam de se manter: para que nos possam manter. Por constituirem – e construirem – novas passagens como focos de luz: expressão que tenho utilizado regularmente para os tentar definir. Não existe rua que se possa atravessar convenientemente sem a existência de “tochas”. Hoje “vi” o Eduardo Cintra Torres. Não foi a primeira vez.


O Ser Humano e a “Retórica Cerebral”

Uma vista de olhos pelas páginas dos jornais nos últimos anos, por artigos de opinião, pelos programas de televisão nos, cada vez mais, sensacionalistas canais de cabo, alguns deles com espírito bastante desinformativo em estilo YouTube e reparamos que, quando tratam de matérias relativas ao ser humano, muitas vezes confrontam- nos com aquilo que penso ser uma das reduções civilizacionais do momento: a retórica do “cérebro”. As neuro- ciências, embora sejam, na minha opinião, úteis como complemento de outras disciplinas ligadas à psicologia humana, introduzem na linguagem corrente uma espécie de “despersonalização” social. Evita-se o “eu”, o “nós”, o “corpo” e o Homem enquanto ser uno e completo para se fazer uma “fuga” explicativa. Do “coração” para o “ponto mais alto”: uma “superioridade”. Encaixa bem nas páginas dos jornais: tudo o que nos diz respeito é- nos servido à base de “estudos” e estatística. Dá-nos uma sensação, um pouco totalitária, de compreensão de todo o género de fenómenos humanos. Não duvido, adicionalmente, que tal “imposição” dê bastante dinheiro à indústria farmacêutica. Ou que nos “aproxime” da conversa recorrente sobre Inteligência Artificial que tanto interessa a alguma da filosofia, política e comercial, tecnocêntrica actual. Como sempre, relativamente a várias áreas, nos últimos anos: a vontade é de fuga. Sempre “para a frente”, desde o início da crise económica e financeira, parece ser a solução para quase todas as questões. Penso, contudo, que precisamos  de uma certa re- integração. O corpo, a história, a ciência e o conhecimento representam totalidades: existe uma memória. Reduzirmos a consistência e a densidade das teorias afectas ao ser humano para que possam caber em páginas de jornais não faz sentido mas, acima de tudo, não nos dá sentido.


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