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O Papel dos “Velhos” Frente aos Jornais em Papel

Sabemos que existe, principalmente, devido a milhares de artigos de “opinião” que pululam, à espera de serem encontrados, pela internet fora. Mas ouvi- lo, directamente, através das palavras de um obcecado com as venturas – mas não com as desventuras; essas: há que ignorá-las – da “digitalização total” é diferente: “Espero que um dia tudo isto vá abaixo !”. “Tudo isto” significava, no seu arrebatado léxico, um desejo. O fim, como se estivéssemos a falar de um simples castelo de cartas, do mais ou menos exausto império das publicações em papel. De tudo o que se convencionou, em poucos anos, apelidar, tentando-o reduzir, de “tradicional”. Ou seja: o fim da matéria e da “alma” com que ainda são produzidas muitas publicações que recusaram, até ao momento, sucumbir ao reino único dos “resultados imediatos”. Da velocidade mercantil de um jornalismo que é, agora, menos pensado. Que, sabemo-lo, tem dado pouco azo à reflexão demorada e mergulhada. A “solução”, em forma de mutação – que nunca vem; que não se sabe, muito bem, para que é que, exactamente, serviria, quem serviria e com que fins sociais -, seria a construção de toda uma arquitectura unicamente “digital”. A normalização de uma ideologia que pretende tentar transformar, em pouco tempo, várias manifestações do real em produtos afectos ao conceito anteriormente referido. Trata-se de uma posição – que, além de comercial, é também política que consegue, por vezes, roçar o absoluto fanatismo. Mas como muito disto parece novo, ficção científica e porque cheira a “inovação” – tecnológica – : deixa-se andar. Porque o “futuro” há-de transformar tudo sempre para melhor. Porque uma fuga para a frente parece ser algo de superior. Porque, afinal, poderá significar uma espécie de aurora: um amanhã de plástico replandescente. Acontece que a “digitalização”, aliada a um precário e ultra- veloz capitalismo, traz “pormenores” pouco “eficazes”: imagino, por exemplo, o que sentirá um “velho” perante as “maravilhas” da implementação tecnológica contínua num mundo em que estará inevitavelmente ultrapassado pelo conceito de “formação para toda a vida”. Fantasio que, por exemplo sem o seu jornal, pelo menos envergonhado. Sim. Num planeta obcecado por produtos e serviços direccionados para a juventude: o papel dos “velhos” – e daqueles,  como eu, que estão prestes a entrar na meia- idade – conta. Importa, por isso, o papel dos “velhos” face aos jornais em papel. Estes, felizmente e apesar de toda a desvalorização de que têm sido alvo, ainda têm uma função – para além da nacional – regional e local. Muitas pessoas passam, ainda, o tempo em cafés “antigos”, como em bibliotecas, a conversarem. A discutirem problemas fulcrais para a cidade onde vivem. Tirarem-lhes as publicações que circulam pelas mesas não significa, unicamente, anularem-lhes o espírito. Significa esvaziarem-se espaços de conversa numa “Europa” que é, neste momento, cada vez menos democrática. Significa isolá-los. Pô- los de cabeça para baixo a tentarem entender algo que, devido à velocidade de produção actual, estará, também e em pouco tempo, ultrapassado. Se é, como se tem propagandeado inúmeras vezes, o conteúdo aquilo que mais importa: devemos, de certa forma, “inverter” – ou, pelo menos, repensar – o discurso. Não precisamos de estar, perpetuamente, a mudar de suporte tecnológico. Nisto: deveriamos ser mais constantes. Mais distantes. Mais pausados. Menos supérfluos. Em nome de uma interacção real: café na mesa, companhia e conversa. Não atiremos os nossos “velhos” para mais um fórum na internet. Há coisas que não são substituíveis.

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O Confronto de Bartleby Com o Planeta Terra

“Já tudo foi escrito”: afirmou Bartleby. Essa espécie de homem que não pára de andar em circulos, com os dentes semi- cerrados, sem chegar, efectivamente, a lado nenhum. Como se, realmente, o desejasse. “Tens a certeza?”: contrapôs, entristecido, o Planeta Terra. “Sim ! Repara: muito daquilo que nos foi, e que nos continua a ser essencial foi elaborado, pensado, pintado e escrito – e com todas as cores ! – de uma forma muito mais rica e simbólica a partir da Antiga Grécia. Que vontades dali vieram ! Passámos, entretanto, por uma longa fase negra, embora diversa como em todas as épocas, no que respeita a uma interpretação da “existência” e da “realidade”. Felizmente que muito desse significado, mesmo que encontrado em cacos depois de ter sido marcado na pedra, acabou por ser recuperado. O que favoreceu uma  reabertura e, por isto, uma recriação. Desde a época do Renascentismo, com altos e baixos e através de inevitáveis ciclos, não parámos de, em certo sentido, evoluir. Repara, como exemplo, em toda a tecnologia que conseguimos desenvolver e que estamos, presentemente, a produzir. Mas olha, principalmente, para tudo o que se escreveu, ou se pintou, com a passagem dos séculos. Olhemos, também, para a complexidade. Que se teima agora em perder, em reduzir e em recusar. Que percorreu, por exemplo, o fascinante vulcão de ideias, de sementes e de uma verdadeira “inovação” que construiu todo o século XX. Chegamos a um momento em que, nos domínios das artes e da literatura, pouco parece ser ultrapassável. Acrescentamos, quase unicamente, “estatísticas”. Há quem o defenda e quem o advogue: alguns pretendem, através da retórica, acabar com tudo isso. Será necessário? Em nome de quê e em nome de quem? Com tanta liberdade e andamo-nos a castrar. O quê?? É que, neste momento, recomeçamos a simplificar. Escrevendo, como se costuma dizer, por exemplo, para os lados de Inglaterra, com uma forma cada vez mais “limpida e cristalina”. Dizemos “adeus” às metáforas: a tudo o que foi – e que poderia voltar a ser – realmente individual, emocional e profundo. Abraçamos, outra vez, a superfície moral: “as biologias !”; “as neuro- ciências !”. Ao ponto de já existirem alguns robôs a “escrever”, a “decidir”, a “criar” por nós. Existirá algo mais “simples”? Tudo se deseja compreensível: “directo”, “eficaz”, “objectivo”. “Nada que tenha a ver com a natureza humana: fujamos dela !”. E, realmente por tudo isto, a “realidade” torna-se menos explicável. Estamos, novamente, em terrenos do triunfo da “matemática”, da computação, de um “cérebro” sem corpo. Já tudo foi escrito. E, no entanto, nunca existiu tanta “leitura”, nunca se viram tantos “livros” e nunca houve, a circular, tanta “informação”: “dados”, “factos” e “estatísticas”. Numa ausência de mundo, de plantas carnívoras e adocicadas, de música e planetas interiores. Nada de inteiramente novo se faz. Autores contemporâneos, também em nome do mercado, não querem ser contaminados. Têm “medo” de ler determinadas obras porque as consideram “ultrapassadas” – que, muitas vezes, não o estão: apenas para o necessário espírito do tempo que corre; que quer correr -, “antigas” e “tradicionais”. Esta vontade de velocidade: fugindo de quê? Esquecendo o quê? Deixam de as entender. E suspeito que não desejam voltar a compreender. Seria tudo demasiado…”.”Complexo, Bartleby ? Chegaste a um ponto fundamental”: retorquiu, desiludido, o Planeta Terra com este outrora grande homem que, para ter amigos, se transformou em homensinho. “Tens ficado com um problema de memória. Anuncias por aí que queres “formatar o sistema”. “Fazer a revolução! “. Dizendo, enquanto andas em circulos e de mãos atrás das costas, que já tudo foi escrito. Existe, contudo, um pormenor importante que também tens “esquecido”. “Qual?”: inquiriu, Bartleby, visivelmente  irritado e desafiador. “Repetes e repetes que já tudo foi escrito. Mas, de certa forma, o único grande problema é teres ficado com as costas demasiado pesadas e, por isso, demasiado quebradas. A questão é que existe algo, para lá do “conhecimento”, que é igualmente importante”. Barleby não tinha a certeza se desejava saber a resposta. Talvez as dúvidas e, ao mesmo tempo, tantas certezas lhe dessem algum jeito para, lá no fundo, não resolver problema nenhum. Talvez gostasse de ter ficado com as costas pesadas. Mas, a medo, avançou: “o quê?”. Planeta Terra: ” Corta a corda, Bartleby ! Olha para lá do “conhecimento”. Utiliza a imaginação. Achas que já tudo foi escrito. Contudo: nem tudo foi inscrito !


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