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A “Big Data” (A Era Do Voyerismo II)

Os “dados” foram lançados: a tão proclamada “Big Data” está para durar como um dos grandes negócios e projectos civilizacionais deste já cansado início do século XXI. E, com a nossa conivente distracção, como um gigantesco explorador colectivo. Após sucessivas promessas de “liberdade informativa”: o “sufoco” através da multiplicação de uma espionagem global generalizada. E, como consequência, o “aprisionamento” com a forma de auto- censura intelectual e imaginativa. Já nos bastava o facto de inúmeros escritores considerarem, por via de um relativismo “sem sentido” e por uma questão de puro networking, que não se devem comprometer politicamente e, por esta razão, publicamente. Não me refiro ás banais opções partidárias. O medo da observação, segundo alguns artigos recentes publicados, está a conduzir a uma certa paralisia criativa. E estamos a deixar, velozmente, de nos importar – por múltiplos motivos: a concordar – com uma prática de intrusão na vida privada que seria considerada impensável há poucos anos atrás. A habituarmo-nos a uma galopante perda de privacidade em diversas áreas da existência. Trata-se, como quase tudo o que se refere à complexa e ideológica arquitectura tecno- económica em construção, de um universo, devido à sua crescente dimensão e a uma quase incontrolável novidade perpétua, difícil de investigar, de entender, de explicar e, por este motivo, de noticiar de forma consistente. Esperamos uma troca aparentemente benéfica: a recolha massiva e o tráfico de todo o género de pormenores pessoais garante-nos uma consciência tranquila no usufruto, por exemplo, do download gratuito. Podemos, assim, continuar a demanda e a exigência pela gratuitidade cultural total e “informativa” digital: estamos “todos”, afinal, a “partilhar”. “Não pagamos !”. Todo o género de publicações, de empresas de média ou de publicidade estão a permitir, desta forma, que agências de “segurança” como a NSA – a ponta do iceberg no que se refere à paranóica indústria de espionagem dos Estados Unidos da América – ou os, cada vez mais, totalitários e transnacionais – já agora: contraditoriamente opacos – “gigantes do digital” se desresponsabilizem e não assumam praticamente qualquer “mas” ou posição crítica relativamente à – num “novo” paradigma que se enche, constantemente, de novos slogans – “era da transparência”. Existe, portanto, uma deliberada e apressada tentativa cultural de levar a cabo uma mudança drástica no que se refere à aceitação popular de que vivemos tempos de normalidade comunicacional. Para o efeito – como não podia deixar de ser para bem dos “resultados imediatos” – tem sido utilizada uma espécie de inversão, em termos de argumentação, que tenta, de forma demagógica, recuperar e distorcer ideias e conceitos que remontam a práticas sociais do século XIX – tentando-nos fazer crer que se trata apenas de um regresso – para que nos venhamos a tornar indiferentes à questão. O perigo não se encontra apenas no tráfico generalizado de dados individuais por parte de todo o género de projectos. Existe uma outra questão que se prende com a normalização da prática em sentido “descendente”. Banaliza-se, como uma espécie de contaminação de “cima” para “baixo”, a “espionagem” tentando colocá-la, perversamente, ao nível das populações. Redes sociais como o facebook vão, passo a passo e de forma quase imperceptível, alterando regras, no que respeita a políticas de privacidade, alegando a nossa aceitação prévia através de vagas normas de utilização que, aliás, quase ninguém tem paciência para ler ou tentar perceber. Precisamos, devido a estas razões, de canais de investigação jornalistica que tentem operar de forma mais independente para que se possam formar mais postos de observação. A “cegueira”, felizmente e como era de esperar, não tem sido permanente. Alguns casos bastante isolados no que respeita à comunicação social, que não é proporcional relativamente ao género de informação que costuma circular através das redes sociais, tem conseguido “apanhar” o rumo de alguns acontecimentos e, a medo – o medo de afastar leitores “convertidos” -, ultrapassar os níveis de uma pura propaganda enaltecedora que infestou os últimos anos com promessas de uma única visão sistémica: a de uma evolução positiva, económica e social, contínua. Entramos no terreno de um “novo” “pensamento mágico”.

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Movimentos Independentes ( Como na Serra do Gerês)

Um dia, num dos cafés, da cidade de Braga, onde me costumava sentar para ler os jornais e fumar um ou dois cigarros cravados, reparei em duas mesas acastanhadas que se encontravam encostadas. Estavam, como outras dispostas pelo resto da esplanada, completamente encharcadas. Contudo, talvez devido à posição em que me encontrava, fixei-me naquelas. Já não chovia. Mas várias pingas de água escorriam, de forma sincopada, dos dois tampos para o chão em estrado de madeira. Como, também, pelas pernas das quatro cadeiras que as rodeavam. Imaginei, apesar de tudo, uma família que poderia ali estar a conversar. Projectava, com certeza, emoções próprias. Tentando preencher vazios interiores. Ou, embora ofuscado, qualquer coisa de cheio. Senti que, tanto os acentos como os tampos, suspiravam, aflitos, pela falta de corpos. De braços e de cotovelos pousados. Intimidade. Não é raro fixar-me em objectos isolados e rouba-los da multidão. Pormenorizo, criando ficções, como se entrasse para dentro do olho de um furacão. Ignoro o resto. Contamino-os com “poesia”. Paro o tempo. Atribuo-lhes vida própria. Num outro dia reparei num conjunto de folhas outonais – deviam ser umas sete – que se arrastavam pela berma de uma estrada. Pararam, em determinado momento, todas ao mesmo tempo formando um pequeno desenho abstracto. Como se as tivesse fotografado. Olharmos, sem pensar, para eventos isolados pode fazer com que consigamos, de volta, alguma da magia e do mistério que, entretanto, se perderam: num planeta em que a “informação”, ou falta dela devido ao excesso, parece ter de ser, agora, obrigatoriamente veloz; em que a doença da “digitalização total” acelerou o tempo e, por isso, o prazer da descoberta no demorado se eclipsou. Escrevo sobre movimentos como se fossem independentes. Sem qualquer género de preocupação. Mais importante do que isso: que desconhecem o significado de uma moral. Que é, agora e cada vez mais, assustadoramente colectiva. Sabem, no fundo, dançar. E sabe bem, nem que seja por segundos, suspendermos o ruído supostamente “científico” que se tem tornado omnipresente. E, por este motivo, inconsistente. Assemelha-se, mais ou menos, a um passeio pelos trilhos e pelos montes da Serra do Gerês. Que, para mim, passam por montanhas. Os olhos, atribulados pelos estímulos da cidade como pelas quase inúteis postagens das redes sociais podem, desta forma, descansar. O Gerês é-nos alheio. Ri-se de nós: a cada “partilha” de ignorância.


“Transparência”: A Era do Voyerismo

Existe um determinado ambiente – que a tem tornado cada vez menos diversificada – que se vem estendendo a vários domínios da indústria mediática e televisiva. Predominam os voyerismos. Desde o inaugural, embora muito “virgem” para o panorama actual, Big Brother que se generalizaram, e “sofisticaram”, todo um naipe de “conteúdos” que, apesar de serem bem preparados, nos querem fazer crer que mostram uma suposta realidade humana. Existe uma pretensão: parece que, nesta época de “transparência” e de rara confidencialidade, nos “temos” de “observar”, continuamente, uns aos outros. Experienciamos, através do visionamento de uma série de “produtos” – que, com pequenas variações, parecem, de facto, montados em cadeia -, a ilusão de entrarmos em contacto com o ser humano como ele “realmente” é. Dando-nos, assim, uma, já não rara, oportunidade para podermos fazer todo o tipo de comentários sobre os intervenientes. Contudo: em circunstâncias bastante condicionadas. O Homem, naturalmente, já representa. Ele é, de forma inconsciente ou consciente, uma espécie de avatar – para utilizar, aqui, o jargão em voga – ambulante. Mas para poder “vencer” e não ser expulso: põe-se bem controlado. Bem comportado. De certa forma: “aprisionado”. Limitado por directrizes internas. Por um guião meticulosamente projectado para cada uma das emissões. Pelas múltiplas câmaras que são estrategicamente colocadas nos vários cantos da “casa”, da “quinta” ou do “bar”. Através da “reality tv” nunca sabemos, ao certo, onde pára a verdade. Cada um dos, meticulosamente escolhidos, concorrentes utiliza um tipo de imagem – até cair – que deseja projectar para o “exterior”. É competição que se extrema. Que entrou, posteriormente, noutros campos “comunicacionais”. As redes sociais amplificaram este novo género de controle civilizacional. E, talvez por isso, multiplicam-se os perfis que nem sempre correspondem à “realidade” de cada um dos usuários. A espionagem global arranja, deste modo, alguns anti- corpos. Mas se nos confiscamos, agora mais afincadamente, uns aos outros: porque deixaria um estado, ou uma qualquer empresa do sector tecnológico, de o fazer? Foi este o golpe de génio. Dando-nos as “armas” para que nos posicionemos no mesmo nível de comportamento social: não nos poderemos queixar de práticas “superiores” de intrusão. Se “eles” o fazem: nós também. Se nós fazemos: “eles” abusam.


Amores, Perversos, em Tempos de “Cólera”

Tenho sentido, entre muitas outras, uma determinada inconstância social. Talvez devido à imparável crise social, económica e financeira dos últimos anos. Parecemos todos muito inteligentes. Como se nos tivéssemos transmutado numa espécie de sociedade feita de “cal”. Escrevemos constantemente – artigos, posts ou comentários – sobre “ciência”, “informação” ou “conhecimento”. O que não deixa de ser necessário. Em diversas situações, porém, parece-me espelhar uma obsessão que de pouco parece valer. Na medida em que a inteligência tem pouco valor – muito pouco – quando é mal investida e mal direccionada. Ela é, não raras vezes, utilizada como arma de arremeço. Não são raros, também, os momentos em que lemos, ou ouvimos falar, de “Inteligência Emocional”. E, na minha opinião, fala-se dela, hoje em dia constantemente, porque nos andamos a compreender muito pouco uns aos outros: vivemos em tempo de guerras. Guerras atrás de inúteis guerrinhas. Determinados “comentários”, que muitas vezes nos são lançados através de redes sociais – sabemo-lo e intuimos -, não nos são inteiramente dirigidos. Constituem projecções que parecem espelhar problemas pessoais com um outro fundo. Uma fisga, mais ou menos ilusória, parece sempre maior através de um qualquer facebook: o reino da deturpação informativa, interpretativa e emocional. Onde a pontaria costuma ser pouco certeira. As pedras imateriais que nos são lançadas conseguem voar de forma mais veloz. Mas, adicionalmente, de um modo mais cobarde, perverso e escondido. Isto: numa era que, afinal, se encontra dominada por uma falta, constante, de comunicação real.


“Focos de Luz” (Para Além das Máquinas): Registo Retro- Humoristico para uma “Salvação” do Jornalismo

Alguns amigos já me fizeram notar, não sem alguns sorrisos, que vejo, “em todo o lado”, parecenças, nas faces de várias pessoas, com figuras públicas. É verdade. “Não é raro” o momento em que imagino, num autocarro ou a passear distraído por uma rua qualquer, o Woody Allen. Talvez seja, aliás, a personalidade com a qual mais me “encontro”. Também “dei de caras” na cidade do Porto, há muitos anos atrás e à saída de uma paragem de um autocarro, com um actor norte- americano que sempre admirei: o Harvey Keitel. Carregava vários sacos de compras e, ao reparar no meu súbito e incontrolável ataque de riso e no meu inocente e espontâneo dedo indicador apontado, penso que se preparava para me lançar com um qualquer ataque massivo. Imagino que com rolos de papel higiénico. Tive sorte: desistiu a tempo. Engoliu a raiva e foi-se embora para agredir, talvez, outra pessoa qualquer: reparei que tinha o pescoço bastante vermelho. Também “vi” um dia destes e ao entrar numa pastelaria aqui perto de casa, numa das mesas, o nosso escritor Miguel Torga. Estava a beber um café e a ler o Diário do Minho. No regresso de umas bafaradas que fui dar num cigarro que tinha comprado por 20 cêntimos – Sim ! Com a crise: eles estão de volta ! -, num local próximo, disse-lhe: “a sua cara parece mesmo a do Miguel Torga“. “Obrigado”, respondeu. Sem conseguir disfarçar o sorriso que lhe acompanhava o orgulho. Reparei, depois de me sentar e enquanto me concentrava nas múltiplas combinações do pensamento freudiano através de uma pequena biografia de Octave Mannoni , que olhava para mim, de vez em quando, com um ar nitidamente satisfeito. Fantasiei que passaria a andar pelas ruas, a partir desse instante, de uma outra forma. Que iria percorrer e folhear todo o Miguel Torga que temos disponível pelas bibliotecas nacionais. Nesse mesmo café também costumo encontrar muitas vezes sentado na mesma mesa, normalmente sem fazer absolutamente nada, o filósofo José Gil. Está lá quase todos os dias. Limitando-se a olhar, movendo a cabeça vagarosamente, para as pessoas que entram. Imagino,  quando sou eu a entrar, que também repara em mim. O que me deixa num estado mais ou menos delirante – que me é bastante próprio – a perguntar: “será mesmo ele? Refugiou-se nesta parvónia – Braga ! – para quê?”. Também costuma seguir, com os olhos, os livros que costumo levar. O que só me acrescenta “esperanças”. Nunca lhe perguntei nada por não me querer “desiludir”. E, claro, tentar evitar alguma cena absurda. Prefiro fingir que encontro o Miguel Torga e o José Gil.

Contudo: o que escrevo tem um objectivo um pouco mais concrecto. O trabalho de José Gil, editado pela Relógio de Àgua no ano de 2003 e intitulado “Cansaço, Tédio, Desassossego”, foi apreciado recentemente com o “Grande Prémio de Ensaio Eduardo Prado Coelho“. Contou com a promoção da Associação Portuguesa de Escritores e com a da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. Ainda não li, infelizmente, a obra distinguida mas, assim que puder, deito-lhe as mãos. Tenho, na minha pequena biblioteca, apenas um: o já clássico e, para algumas pessoas, irritante – imagino que também, embora não só, por ter constituído, dentro da área do “ensaio”, um sucesso editorial – “Portugal: Hoje, O Medo de Existir”. Várias vezes o dei a entender através de algumas das minhas crónicas: gosto de figuras “maiores”. Que se conseguem destacar e imprimir, culturalmente, pela perseverança, por uma “diferença” possível, por uma tentativa de dissidência e pela originalidade. Pura “megalomania”? Não só. É desta forma que se fazem perguntas. Que se colocam questões que poderão ser determinantes. Contudo: penso que para isto é necessário uma coisa, bastante importante, que hoje em dia está, virtualmente, reduzida: o tempo. E “afastamento”. Tempo para pensar porque tempo para reconstruir. Mas aquilo que mais me captou a atenção no artigo referido foi o nome de Eduardo Prado Coelho. Admito: vieram-me as lágrimas aos olhos com saudades. De quando ainda me dava um enorme prazer comprar o jornal diário Público durante todos os dias da semana: tinha mais páginas, uma opinião com qualidade superior e, principalmente, consistência. As crónicas de Eduardo Prado Coelho eram diárias e, embora algumas fossem mais interessantes do que outras, havia quase sempre aquele pormenor – o detalhe – indispensável. É isto, quanto a mim, que faz o grande artigo ou o grande cronista: o detalhe de excepção. Que, habitualmente, apenas se consegue melhor tecer com vasta leitura e com o passar dos anos. A comunicação social portuguesa, como sabemos, está empobrecida devido a inúmeros factores. Não é raro o facto de serem, exactamente, os “dissidentes”, numa época em que as linhas editoriais se standardizam a todos os níveis, a serem despedidos. Ou, utilizando uma expressão com a qual agora se costuma tentar suavizar, “dispensados”. Os “Eduardos Prados Coelhos” deste mundo não podem morrer. Muito menos serem esquecidos. Pelo contrário: precisam de ser, de vez em quando, novamente enaltecidos. Para que nos continuem a servir de guias e de exemplos. Deviam ser erigidos por uma população que se encontra, actualmente, mais ou menos amorfa e adormecida, pelas redes sociais, em termos jornalísticos e literários. Não me parece que ande, para já, a existir uma grande substituição. Apesar do “nascimento” de alguns nomes que, pelo menos através da imprensa generalista, começam, quanto a mim, a adquirir uma desenvoltura que nos convém seguir. Como considero ser actualmente o caso – uma das minhas recentes excitações – de António Guerreiro. Que vai fazendo um bom caminho através do suplemento y – felizmente existente, ainda, em formato papel – do jornal Público. Num mundo cada vez mais “económico”, apesar, paradoxalmente ou não, da precaridade crescente e contínua, eles precisam de se manter: para que nos possam manter. Por constituirem – e construirem – novas passagens como focos de luz: expressão que tenho utilizado regularmente para os tentar definir. Não existe rua que se possa atravessar convenientemente sem a existência de “tochas”. Hoje “vi” o Eduardo Cintra Torres. Não foi a primeira vez.


A Nossa Ilusão (Um Problema de Tradução)

Assistimos, no momento presente, a um problema de “tradução” que considero ser, tendencialmente, mais ou menos geral: muita gente a “esbracejar” dentro e fora de redes sociais. Mais do que do livro, do artigo de opinião, do “conhecimento” ou da “informação”: podemos baptizá-la, num contexto que é favorável a todo o tipo de catalogações apressadas, de “Sociedade do Comentário”. Há não muito tempo atrás, para dar um exemplo que me parece ser essencial, um tradutor de uma obra específica não teria de conhecer, unicamente, um determinado idioma na perfeição. Ele era “obrigado” a dominar o campo de estudo, a conhecer a fundo o autor a traduzir, ser mais ou menos especialista – no que isto tem de “tradicional”, “antigo” e, portanto, pormenorizado – em filologia para conseguir determinar o contexto temporal e, por isso, moral em que determinada obra, palavra ou expressão teria sido escrita. Se fosse caso disso. O que, em certa medida, “acabou”. É um género de gente que, hoje em dia, serve para “abater”: eles “pretendem” dar cabo da “democracia”: é que, agora, qualquer editora ou start- up pode, gratuitamente ou por “cinco tostões”, contratar um “chacal” que vagueie pela “China”. Isto passa-se em grande parte dos sectores comerciais: “É a crise!”. Favorece-se, para a combater, portanto: mais crise. Não admira que pouca gente se ande verdadeiramente a compreender por mais que tente “comentar” ou escrever: o “problema de tradução” – entendido aqui como “interpretação”: apenas para que na “era da transparência” e da “repulsa” pela metáfora, não sejamos tão “opacos” – tem sido contaminante. Estamos infestados de “roedores” por todos os cantos. Alguém perguntaria: “E os psicólogos? Escapam?”. Alguns – ” mas só alguns” – já conseguiram entrar no século XXI. Não é que esbracejem, como todos nós, mas, por vezes, também preferem não ouvir: o que vai dar mais ou menos ao mesmo. A cada um deles o seu livro, a sua história, a sua escola ou a sua visão. Portanto: o seu autismo. A nossa ilusão.


Epílogo: O Cúmulo de Bartleby

Retomo, através desta crónica, o tema alusivo a Bartleby que iniciei no fim do ano passado devido a um livro que me foi oferecido e intitulado “Bartleby & Companhia” de Enrique Vila- Matas. O objectivo é o de fazer uma espécie de remate e o de chegar a uma tentativa de conclusão. O escritor que se nega a si próprio, que se auto- destrói, que se verga e anula perante heranças passadas é, para o autor, uma espécie de doença contemporãnea. Que, na minha opinião, carece de sentido. A realidade actual é mais complexa do que nunca. Nem existe “O Fim da História” como foi, apressadamente, “profetizada” por Francis Fukuyama. Contra as forças ideológicas civilizacionais que nos querem convencer do contrário: precisamos, como sempre, de escrita e interpretação.

I

Sempre tive uma relação especial com a cidade do Porto. Foi lá que nasci. E, de uma forma ou de outra, acabo por regressar. Embora tenha passado a maior parte do tempo da minha vida em Braga, nunca me consegui decidir, muito bem, entre estas duas mulheres. No Porto: agrada-me a forma como alguns cidadãos foram remodelando, pioneiramente nos últimos sete anos, a baixa. Através da utilização de um modelo que se tem espraiado para outras localidades. Mas, dentro de mim – e não é a primeira vez que escrevo isto -, está, especialmente, a “estática” e conservadora Foz do Douro. Andando por lá: poderiamos estar, por exemplo, no ano de 1991. Uma das fases mais relevantes da minha vida foi, exactamente, o verão desse ano. Foi nessa altura que comecei a fumar: cachimbo. Recusava, por orgulho, tabaco “normal”. Teimosia que ultrapassei rapidamente. Por ter experimentado de seguida um cigarro. E, mal senti a primeira “pedrada”, comprei um maço de Marlboro fumando- o, inteiro, nessa mesma noite. Foi na esplanada da Luz. Por onde sirandava, estupidamente, todos os dias. No ano de 1998, enquanto estudava jornalismo na universidade, morei no segundo andar de uma casa de família que se situava na Rua da Cerca. Entretanto foi vendida. Encontrando-se, neste momento, completamente alterada. Mas não resisto a passar por lá. Peço licença à miúda loura que tenta vender os apartamentos entretanto construídos tentando encontrar o que lhe resta do passado – e nisto: sou bem português; um saudosista insuportável – : vestígios de um relvado que entretanto praticamente desapareceu, vozes, ecos e todo o género de lembranças possíveis. O que entretanto foi construído não deixa de ser “interessante”: “limpo” e moderno. Mas, principalmente, branco. Demasiado. As memórias percorrem várias etapas. Por essa razão: ainda a sinto como se também fosse minha. Foi a única possibilidade, aliás, que tive de viver na Foz. A casa da Rua da Cerca tem, contudo, ainda mais história para o meu pai. Lembro-me de, quando se chegava ao terceiro andar, existir um pequeno espaço que me fascinava: uma porta. Logo a seguir ao final do corrimão, virando imediatamente à esquerda, encontrava-se um muito pequeno lance de escadas. E, quando se subia por elas, não se demorava muito tempo a bater-se com a cabeça: a porta tinha sido construída no tecto. A tentação para a abrir era enorme. Pesada mas irresistivel. O meu pai sempre me falara dela: para que servia; que destino lhe tinha dado.

a)

Escrevi, algumas vezes, desde o fim do ano de 2013, como referi no início, acerca de um fenómeno que é tipico de quem gosta de escrever, de jornais, de literatura: o “síndrome de Bartleby”. Podemos defini-lo, para agora resumir, como aquilo a que, normalmente, intitulamos, para utilizar jargão actual, de “bloqueio criativo”. Pode ser temporário ou permanente. Um qualquer escritor pode encontrar-se, repentinamente, numa situação que faz com que tente uma espécie de fuga inconsciente para a “inabilidade”. Num repente: deixa de encontrar ideias dentro de si, julga-se em demasia e desiste. Espécie de auto- sabotagem

E esta é, especialmente, época de cansaço: espiritual, civilizacional, político e ideológico. Proliferam a tecnologia, os gadgets e as redes sociais. Mas também todo o género de ultimatos. Não são poucos os livros que, em vez de afirmar, anunciam toda a espécie de “fins”: da literatura, da arte, do homem, da história, do estado social. O que se deseja, actualmente, é a “inovação” – “to change” – sem se saber, exactamente, que direcção tomar e com que fins. Importa avançar por avançar. Sem a procura de uma integração séria com o dado. Com o válido que foi anteriormente estabelecido. Algumas das “transições” propostas começam a parecer-nos ameaçadoras para a liberdade. Existem, já, um sem número de promessas mais ou menos minadas. Não previstas, como sempre, pelos deterministas do costume. Para quem a fuga para a frente é sempre solução superior. A “sociedade da informação” e a da “transparência” estão-nos a levar, rapidamente, para uma reconfiguração social mais ou menos impensável há meia dúzia de anos atrás. Como, por exemplo, a espionagem maciça que nos tem sido revelada por Edward Snowden ou Julian Assange. Nada disto tem a ver com a “liberdade” idealizada pelos fundadores da internet. Nem pelos milhares de “gurus” e “especialistas” que, abusando de um infantilizador powerpoint, nos prometeram maravilhas esquecendo o essencial: a natureza humana e a vontade de controle e de poder que lhe é característica. Tão bem explicadas, por exemplo, pelo filólogo e filósofo alemão, do fim do século XIX, Friedrich Nietzsche. Este homem, muito possivelmente, não se daria bem numa qualquer Ted Talk. Nem com o excesso de ruído que configura a estrutura “informativa” actual. Não se socorreu da “estatística”. No entanto: ele intuiu. É que, para o perceber, tinha algo de fundamental: ar puro, floresta e, essencialmente, silêncio. Fez uma revolução em termos de pensamento. Num mundo em que pouca gente andava obcecado em fazê-las. Hoje toda a gente tem a sua. Quer a sua. E, quando não se tem nada de relevante para mostrar: tenta-se na mesma. Através da tentativa de destruição daquilo que é intemporal. Prepotentemente remetido para ecos do passado. Como se não existisse, lá atrás, algo que nos tenta avisar.

O ser humano sente-se esgotado pela razão, pelo fascismo, pelo comunismo, pelo capitalismo. E, agora, pede às maquinas que o salvem. Que o salvem? Mas de quê? De si próprio? Continuamos, portanto, em terreno “cristão”. Tenta-se, por isso, “formatar o sistema”. Contudo: o peso gigantesco do passado e de tudo aquilo que foi até hoje criado é sombra pesada que desafia, continuamente, a vontade de superação e ultrapassagem actual. O que se faz, então, quando a tal não se consegue chegar? Tenta-se uma negação: um esquecimento que não ouse criar. Distribuir uma espécie de ditadura da banalidade: “Tudo é arte”. “Tudo é literatura”. “Tudo é jornalismo”. É convite permanente à esterilidade. Transforma-se a “criação” em “indústria criativa”. Converte-se aquilo que nos poderia proporcionar algo de “sublime” numa espécie de “tempestade de merda informativa”. E, no caso da banalização da literatura, o “sindrome de Bartleby” pode atingir, na era digital, o cúmulo do ridículo. Já tinha referido, no artigo “Formatação Informativa e Cultura Powerpoint” através da citação de um post do blogue Página 23 de Eduardo Jorge Madureira, a existência de ideias “filosóficas” que tentam, actualmente, denegrir a literatura que foi feita no passado em benefício único dos artigos e textos existentes na internet. Não é caso único. Existe pior. Passo, de seguida, a demonstrar:

No jornal diário espanhol El País foi disponibilizado, no passado dia 15 de fevereiro, um extenso artigo da autoria de Eduardo Lago sobre Kenneth Goldsmith, o fundador da UbuWeb nascido em Freeport, no estado de Nova York, no ano de 1961. É, pelos vistos, um teórico da “escrita não criativa”. A plataforma digital que criou em 1996 tem o objectivo de armazenar o legado completo da vanguarda clássica. Transformou-se, com o tempo, no arquivo de arte de vanguarda com maior número de “conteúdos” da internet. Entre os seus heróis estão John Cage, Walter Benjamin, Sol LeWitt e, como não podia deixar de ser, um dos grandes mestres da vulgaridade: Andy Warhol. Segundo o próprio Goldsmith, “o mundo é cada vez mais warholiano – nisto: não podiamos estar mais de acordo -…a nova escrita consiste em não escrever, a nova leitura, consiste em não ler. A nossa relação com a linguagem mudou”. Começa, pelos vistos e aqui, uma qualquer “fenomenal” revolução da qual não nos tinhamos apercebido. Esquece-se, contudo, de mencionar que, por trás de uma enunciação ou, vá lá, de uma análise social se esconde, sempre, outra coisa: um desejo. Porquê esta preocupação em afirmá-lo? Cria-se o que se defende. Nem que seja a criação de uma destruição. Este homem entrou num beco sem saída. E, na falta de melhor, dá vivas à própria anulação. Distribuindo o que lhe é próprio – a falta de ideias – ao resto da humanidade. Goldsmith, de qualquer forma, não é totalmente virgem: estudou na Escola de Desenho de Rhole Island. Formou-se como escultor e, ainda segundo o artigo, aproximou-se da poesia conceptual. O que fez com que se interessasse, a seguir, pela literatura. Há quem se importe com o trabalho que tenta desenvolver: Foi convidado pela Documenta de Kassel para apresentar o arquivo enquanto “produto artístico”. Que é, agora, visitado com frequência por escritores, hackers, músicos, poetas e todo o tipo de cineastas. Goldsmith foi, adicionalmente, nomeado como Poeta Laureado da MoMa. Para a qual desenvolveu um projecto: colocou duzentos escritores a lerem diante de pinturas com o objectivo de descontextualizar o museu para que perdesse a aura institucional. Para que se convertesse num espaço “relacional”. Talvez se tenha transformado, momentaneamente, em algo interessante: “liam diante de um quadro de Pollock ou Matisse…entrando em conversa com grandes artistas do passado. Contudo: é tendência que não deixa de se generalizar. Está na moda: a administração do jornal francês Liberation, por exemplo, também pondera, contra a vontade dos jornalistas – que também devem “cheirar” a “instituição” -, descaracterizá-lo e convertê-lo em mais uma rede social e num “espaço multi- cultural”. Goldsmith considera que a “arte” ultrapassou a literatura. Como se achasse que, afinal, literatura não é arte. Mas é ideia comum. Se a óptica for a de que só é arte o que quebra barreiras. Ficando, desta forma, o passado continuamente desclassificado. A era da internet, para Goldsmith, introduz uma novidade. Porque, para ele, constitui “uma máquina gigantesca que não faz mais do que gerar escrita. Ao nível mais profundo e elementar, tudo o que existe na internet se reduz a um código alfanumérico que é a base material de todos os suportes que conhecemos: fotografias, canções, vídeos e livros. Quando alguém envia um artigo em formato JPG e não se recebe bem, aparece no ecrã um código binário alfanumérico. Se se pensa bem, o motor que propulsiona a internet é a literatura”. A confusão “conceptual”, neste caso, não poderia ser maior. Fica-se a entender o que, para o “poeta”, significa “literatura”. Acrescenta: “…a literatura, como meio, imita os computadores e isso não podia ser mais interessante”. A inversão é total: é, mais uma vez, a tentativa de fazer com que máquina “ultrapasse” ou “negue” o homem que a cria. A criatividade e a originalidade, no projecto de Goldsmith, desaparecem. O objectivo é o da erosão da individualidade e da subjectividade: “nunca utilizo a primeira pessoa, nunca expresso emoções subjectivas, tento ser mecânico. Converti-me num copista, não escrevo textos originais, copio textos que já existem”. Prestemos atenção a algumas das suas “obras”: Para “Soliloquio”, do ano de 2001, transcreveu todas as palavras que pronunciou durante uma semana. “Dia”, publicado dois anos depois, reproduz, com anúncios incluídos, todas as palavras que fizeram parte da edição do New York Times do dia um de setembro do ano 2000. Goldsmith também tem a sua triologia: “O tempo” de 2005, “Tráfico” de 2007 e “Desportos” de 2008. Para o primeiro trabalho foram transcritos todos os boletins metereológicos – com a periodicidade de um por dia – transmitidos durante o período de um ano. O segundo faz uma recolha de todos os noticiários retransmitidos a cada dez minutos por uma estação de rádio durante 24 horas. O terceiro faz a transcrição de um jogo de baseball disputado entre os Yankees e os Red Socks. O resultado foram três livros. Cada um com 150 páginas. Goldsmith, apesar de toda a inutilidade, admite não ter leitores e que os seus livros são “muito chatos”. E afirma que o objectivo é o de se “pensar acerca de coisas que nunca pensamos”. E que “a medida do êxito de um livro destes é a quantidade de debate que gera”. Afirma, também, que “a missão do poeta de hoje é a de não escrever poesia”. Tece considerações sobre o deficit de atenção a que está a conduzir a leitura na internet devido ao excesso de informação. Para ele, esta espécie de “incapacidade” geral é, também, “uma nova forma de vanguarda. Não há sentido em trazermos novos textos ao mundo”. Não nos enganemos: este homem deseja que paremos de escrever. Pode ser, contudo, que exista “salvação”: para explicar tudo isto teve que recorrer ao formato do ensaio. Sem “transcrições”. Sem copy- past. Como, por exemplo, “Escrita não criativa”. Ou “A Vingança do Texto”. Goldsmith não se anuncia, portanto e apenas, como Bartleby ou candidato a Bartleby. Deseja, talvez para a configuração de um mundo mais “democrático”, que abandonemos, de vez, a escrita e a leitura. Que sejamos, como ele, todos Bartleby´s. Todo este discurso, sabemo-lo, não passa de lixo interpretativo. Pequena vontade de revolução individual. Num planeta infestado de pequenas revoluções individuais. A pergunta é simples: qual o objectivo social de todo o esforço e trabalho de Goldsmith? Para que nos serve tudo isto para além de nos tentar convencer a uma desistência, a uma renúncia ao interior e à individualidade do ser humano enquanto criador? De favorecer uma negação da literatura enquanto “política” e arte ou, pelo menos, de arte em potência? De um evitamento da análise do mundo que se encontra neste momento em constante reconfiguração? É que, exactamente pela complexidade que ele agora apresenta, nunca precisamos tanto de interpretação: séria e integradora. Quererá Goldsmith deixar de entender? O filósofo e psicanalista esloveno Slavoj Zizek afirmou recentemente, numa entrevista a um canal brasileiro, que “nunca precisamos tanto da psicanálise como hoje em dia” e poder-lhe- ía responder, como num vídeo a que se pode aceder facilmente através do You Tube, “Não actues. Pára para pensar.”

II

Costumava regressar à casa da Rua da Cerca numa época em que já não vivia lá ninguém. Era preciso ter cuidado com os degraus, meio partidos, de madeira. Os quartos não passavam de uma espécie de armazém a abarrotar de colchões velhos, caixas de papelão cheias de objectos em desuso, revistas poeirentas, pressianas estragadas e mal corridas. Mas gostava de ficar a olhar para eles. Para o que acontecia, ali, no passado. Sou adepto de “fantasmas”, antiguidades, velharias e lugares proíbidos. Agradam-me as ruínas, as silvas e as teias de aranha de espaços em decadência. De ver o pó: o fumo a dançar e a rodopiar nos pequenos feixes de luz que saem das frinchas apodrecidas das janelas. A porta, no tecto, lá estava. E, como sempre, a pedir uma visita. Como aquele género de pequenos clubes que julgamos secretos e que fazemos em criança com amigos em sótãos ou garagens. Mais uma vez: aproximava-me do pequeno lance de escadas para a tentar abrir. E, como sempre, exigia bastante esforço. Tornava-se ainda mais irresistível depois de totalmente aberta. Porque, quase sempre que tal acontecia, havia a luz solar forte que encandeava. Preparava-me então para subir.

b)

Voltando ao livro de Enrique Vila- Matas: para um último exemplo – o mais radical que encontrei – de um típico Bartleby. Para não sermos totalmente injustos com o presente: Goldsmith pode constituir uma figura caricata e esclarecedora do tipo de civilização cultural que tentamos construir. Mas o seu “programa”, estupidez e anulação são absolutamente irrelevantes se forem comparados com a do senhor Chanfort. Foi um homem dedicado à literatura que conheceu, sem esforço algum, êxito durante a vida. Amavam-no as mulheres e os grandes salões estavam-lhe destinados. Ganhou, adicionalmente, o apreço de Luís XVI e de Maria Antonieta. E entrou, ainda bastante jovem, para a Academia Francesa. Contudo, apesar de todos os privilégios, desprezava o mundo. Como, igualmente, se odiava a si próprio: “O homem é um animal estúpido, a julgar por mim”. Albert Camus escreveu, sobre Chanfort, o seguinte: “…a destruição do seu corpo é pouca comparada com a desintegração do próprio espírito. Isto é, finalmente, o que determina a grandeza de Chanfort e a estranha beleza do romance que não escreveu, mas do qual nos deixou os elementos necessários para podermos imaginá-lo”. O único livro que publicou não foi, de facto, um romance. Intitula-se “Máximas e Pensamentos, Carácteres e Histórias”. Odiava a sociedade do seu tempo e, ainda segundo Camus,”…a sua extrema e cruel atitude conduziu-o a essa derradeira negação que é o silêncio”. Declarou no seu livro: “todos os dias engrosso a lista de coisas de que não falo; o maior filósofo seria aquele cuja lista seria a mais extensa”. Negou, adicionalmente, a obra de arte, o que o extremou e o conduziu a esse prolongado silêncio. Terminou em suicídio:” Chanfort levou o “Não” tão longe que no dia em que pensou que a Revolução Francesa – da qual fora inicialmente entusiasta – o tinha condenado, disparou um tiro que lhe rebentou o nariz e lhe vazou o olho direito. Ainda com vida, voltou à carga, degolou-se com uma navalha e golpeou a sua carne. Banhado em sangue, esgaravatou no peito com a arma e, por fim, depois de abrir as curvas das pernas e os pulsos, caiu sobre um autêntico lago de sangue. Mas, como já foi dito, tudo isto não foi nada comparado com a selvagem desintegração do seu espírito”. Chanfort, num texto intitulado “Produtos da Civilização Aperfeiçoada”, propunha a seguinte questão: “Por que não publicar?”. Ficam, aqui, algumas das respostas: “Porque me parece que o público possui o cúmulo do mau gosto e o desejo de difamação”; “Porque não desejo fazer como as gentes das letras, que se parecem a asnos que dão coices e lutam pelo seu lugar na manjedoura vazia”; “Porque o público só se interessa pelos êxitos que não aprecia”.

III

A luz que surgia do pequeno espaço para o qual se entrava depois de abrir a porta era, de facto, o que mais atraía ao início. Mas depois de subir deparava-me com uma pequena sala, mais ou menos rectangular e de tecto baixo, com um colchão velho e rodeada por pequenas janelas envidraçadas. Parecia uma pequena embarcação. De onde se podia ver, a toda à volta, “quadros” da Foz do Douro. E, principalmente, as ondas do mar. Aquele lugar só poderia ser inspirador para uma criança. Chamavam-lhe “O Mirante”. E, segundo me contou, foi ali que o meu pai concebeu e produziu o seu próprio jornal com uma velha máquina de escrever. Intitulava-se, justamente, “O Mirante”. Fazer um jornal enquanto se olha para o mar. Para um obcecado pela imprensa como eu: não existe melhor cenário do que este . Fazer um jornal a olhar para o mar, literatura a olhar para o mar, escrever a olhar para o mar.

Não tenhamos dúvidas: para resolver qualquer angústia bastam os pés no oceano. Não há “bloqueio criativo” ou “síndrome de Bartleby” que, nas ondas, não se desfaça. É o que Goldsmith e, provavelmente, Chanfort deveriam ter feito. Embora com uma força comparável à desistência que tentam, a todo o custo, difundir: serem deitados ao mar. Para que pudessem regressar afirmativos. A dizer “SIM”: à escrita e à literatura. De tão obcecados com a forma: esquecem-se do que poderiam contar. Basta olhar em volta. Evitemos, por isso, uma contaminação. Vamos escrever; fazer um livro; fundar um jornal. Deixemos a “revolução” para os adeptos da negação.


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