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O Confronto de Bartleby Com o Planeta Terra

“Já tudo foi escrito”: afirmou Bartleby. Essa espécie de homem que não pára de andar em circulos, com os dentes semi- cerrados, sem chegar, efectivamente, a lado nenhum. Como se, realmente, o desejasse. “Tens a certeza?”: contrapôs, entristecido, o Planeta Terra. “Sim ! Repara: muito daquilo que nos foi, e que nos continua a ser essencial foi elaborado, pensado, pintado e escrito – e com todas as cores ! – de uma forma muito mais rica e simbólica a partir da Antiga Grécia. Que vontades dali vieram ! Passámos, entretanto, por uma longa fase negra, embora diversa como em todas as épocas, no que respeita a uma interpretação da “existência” e da “realidade”. Felizmente que muito desse significado, mesmo que encontrado em cacos depois de ter sido marcado na pedra, acabou por ser recuperado. O que favoreceu uma  reabertura e, por isto, uma recriação. Desde a época do Renascentismo, com altos e baixos e através de inevitáveis ciclos, não parámos de, em certo sentido, evoluir. Repara, como exemplo, em toda a tecnologia que conseguimos desenvolver e que estamos, presentemente, a produzir. Mas olha, principalmente, para tudo o que se escreveu, ou se pintou, com a passagem dos séculos. Olhemos, também, para a complexidade. Que se teima agora em perder, em reduzir e em recusar. Que percorreu, por exemplo, o fascinante vulcão de ideias, de sementes e de uma verdadeira “inovação” que construiu todo o século XX. Chegamos a um momento em que, nos domínios das artes e da literatura, pouco parece ser ultrapassável. Acrescentamos, quase unicamente, “estatísticas”. Há quem o defenda e quem o advogue: alguns pretendem, através da retórica, acabar com tudo isso. Será necessário? Em nome de quê e em nome de quem? Com tanta liberdade e andamo-nos a castrar. O quê?? É que, neste momento, recomeçamos a simplificar. Escrevendo, como se costuma dizer, por exemplo, para os lados de Inglaterra, com uma forma cada vez mais “limpida e cristalina”. Dizemos “adeus” às metáforas: a tudo o que foi – e que poderia voltar a ser – realmente individual, emocional e profundo. Abraçamos, outra vez, a superfície moral: “as biologias !”; “as neuro- ciências !”. Ao ponto de já existirem alguns robôs a “escrever”, a “decidir”, a “criar” por nós. Existirá algo mais “simples”? Tudo se deseja compreensível: “directo”, “eficaz”, “objectivo”. “Nada que tenha a ver com a natureza humana: fujamos dela !”. E, realmente por tudo isto, a “realidade” torna-se menos explicável. Estamos, novamente, em terrenos do triunfo da “matemática”, da computação, de um “cérebro” sem corpo. Já tudo foi escrito. E, no entanto, nunca existiu tanta “leitura”, nunca se viram tantos “livros” e nunca houve, a circular, tanta “informação”: “dados”, “factos” e “estatísticas”. Numa ausência de mundo, de plantas carnívoras e adocicadas, de música e planetas interiores. Nada de inteiramente novo se faz. Autores contemporâneos, também em nome do mercado, não querem ser contaminados. Têm “medo” de ler determinadas obras porque as consideram “ultrapassadas” – que, muitas vezes, não o estão: apenas para o necessário espírito do tempo que corre; que quer correr -, “antigas” e “tradicionais”. Esta vontade de velocidade: fugindo de quê? Esquecendo o quê? Deixam de as entender. E suspeito que não desejam voltar a compreender. Seria tudo demasiado…”.”Complexo, Bartleby ? Chegaste a um ponto fundamental”: retorquiu, desiludido, o Planeta Terra com este outrora grande homem que, para ter amigos, se transformou em homensinho. “Tens ficado com um problema de memória. Anuncias por aí que queres “formatar o sistema”. “Fazer a revolução! “. Dizendo, enquanto andas em circulos e de mãos atrás das costas, que já tudo foi escrito. Existe, contudo, um pormenor importante que também tens “esquecido”. “Qual?”: inquiriu, Bartleby, visivelmente  irritado e desafiador. “Repetes e repetes que já tudo foi escrito. Mas, de certa forma, o único grande problema é teres ficado com as costas demasiado pesadas e, por isso, demasiado quebradas. A questão é que existe algo, para lá do “conhecimento”, que é igualmente importante”. Barleby não tinha a certeza se desejava saber a resposta. Talvez as dúvidas e, ao mesmo tempo, tantas certezas lhe dessem algum jeito para, lá no fundo, não resolver problema nenhum. Talvez gostasse de ter ficado com as costas pesadas. Mas, a medo, avançou: “o quê?”. Planeta Terra: ” Corta a corda, Bartleby ! Olha para lá do “conhecimento”. Utiliza a imaginação. Achas que já tudo foi escrito. Contudo: nem tudo foi inscrito !

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O Robot que Sonha ser um Homem

Não gosto de dormir apenas por uma questão de descanso mental ou corporal – o que acaba, no fundo, por ser mais ou menos a mesma coisa -. Deito-me, quase sempre, com esta espécie de “desígnio”: o de descobrir, através do sonho, as diversas camadas, escondidas, que me compõem. Na minha adolescência cheguei-o a fazer, algumas vezes, com um lápis e um bloco pousados na mesa de cabeceira. Para, se acordasse a meio da noite, escrever palavras- chave que me fizessem retornar e recuperar de manhã aquilo que de outra forma teria inevitavelmente esquecido. E focar-me seguidamente nos pormenores. Existem alguns muito antigos. Vou contar o primeiro de que me consigo lembrar e dar liberdade de interpretação a cada leitor. Penso que devia ter mais ou menos uns quatro anos: estou na sala de estar na casa onde morava com os meus pais quando tocam à campainha. Vou atender e, quando abro a porta, encontro à entrada uma espécie de boi castanho escuro. Fujo com medo em direcção à sala e salto para cima de um dos sofás. O boi, nesse momento, bate-me com os cornos fazendo-me cair imediatamente no chão. Acaba aqui. Devo dizer que ainda não sei o significado completo mas acredito estar perto. “Empreitadas” destas podem demorar alguns anos. Numa pequena parte dos sonhos que tenho costumo visitar, de vez em quando, os mesmos lugares. Ou encontrar as mesmas personagens. Como se as resolvesse visitar. E como se, efectivamente, nos lembrássemos uns dos outros. Nunca nos importamos minimamente com o que se passa “cá fora”. Contudo: nunca os tive daquele género que é habitualmente denominado, por algumas pessoas que conheço, como “recorrentes”. São sempre diferentes. E, de “normal”, não têm nada. Com isto: vem-me à memória uma tarde de 1992, quando tinha 19 anos, em que estava sentado numa cadeira, em casa, e “descobri” uma espécie de “poder”. Que, cheio de medo, rapidamente resolvi abandonar. Reparei, ao tentar lembrar-me do sonho da noite anterior, que o conseguia visualisar cronologicamente e em “marcha- atrás”. Mais ainda: o ponto inicial estava como que colado – como o rolo de um filme para cinema – à parte final daquele que lhe era mais próximo. Isto sucessivamente e como se existe dentro de nós uma caixinha secreta ou, para agradar aos “localistas”, uma “área cerebral” que os armazenasse daquela forma. Penso ter percorrido cerca de uma dezena. De qualquer forma, assustado com a descoberta como fiquei, não continuei. Hoje em dia, bastante influenciado pela leitura de livros de psicanálise, faço-o de forma mais distante. Mas, também, mais elaborada. Escrevo, quando acordo, aquilo de que me consigo lembrar. Para então observar o que me surge posteriormente: as emoções, deformações, ou personagens escondidas com as quais normalmente não queremos entrar em contacto. Alguns “racionalistas”, com toda a sua vontade de ficção e de massificação cultural, fogem, com horror, de tudo isto. Devido ao facto de terem o coração no meio da testa: “inventam”, para si próprios e para os outros, uma série de estudos “cientificos” simplificados. Afirmando habitualmente e por exemplo que “Freud está morto”. O que revela, não raras vezes, mais vontade de “matar” do que de “conhecer”. Dá a sensação, aliás, que, muitas vezes, não leram uma página que fosse do autor. Ficam desta forma descansados. Arrumam a questão. É, por vezes, o mesmo tipo de pessoas que afirma “nunca se lembrar” dos sonhos que tem. O que mostra, na minha perspectiva, o quanto o evitam fazer. Pior é aquele que está convencido de que “nunca sonha”. Acontece, para o “bem” e para o “mal”, que o inconsciente – assim como uma árvore que cresce indiferente ao “progresso”, à moral e à civilização -, não está minimamente importado com o facto de acreditarmos nele ou não. E acaba, mais tarde ou mais cedo, por rebentar como a força de um rio frente a uma qualquer barragem prepotente. Há, assim, uma espécie de especificidade que se perde com a fuga permanente. O sonho pode mascarar, através de simbolos, aquilo que temos de mais arbitrário. Mas devolve-nos aquilo que somos ou que há muito perdemos. Encontramos, por isso e através deles, mais realidade interior do que quando estamos acordados. Ou falsificados por aquilo que apelidamos de “consciência”. Estamos, de dia, demasiadamente “ocupados”: a “produzir” ou a postar “informação”. Não raras vezes: a tentar evitar a imaginação. Não pode, por isso, deixar de nos vir à lembrança um célebre conto chinês: “Certa vez o mestre taoista Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta. Que voava alegremente aqui e ali. No sonho não tinha a mínima consciência da sua individualidade como pessoa. Era realmente uma borboleta. Repentinamente acordou e descobriu-se deitado ali como pessoa novamente. Foi então que pensou para si mesmo: fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta ou sou agora uma borboleta que sonha ser um homem?”. Podemos, actualmente, ir “mais longe”. Quase acredito, hoje em dia, que a realidade, “lá fora”, tem o mesmo valor face à nossa vida digitalmente “conectada”. Podemos então dizer: fui antes um homem que sonhava ser robot ou sou agora um robot que sonha ser um homem?


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