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A Divina Velocidade

“O tempo é o diabo mas a velocidade é divina”: é este um dos slogans principais de “Sillicon Valley”. E eu diria que resume tudo. Tudo o que é religião actual: a rapidez. Esqueçam o cristianismo, o islamismo, o judaísmo, o budismo e todas as outras. Os senhores da computação são os novos sacerdotes e o que dizem são mandamentos escritos não em pedra mas, sim, num I-Pad. E nós, humildes súbditos, dizemos Amen a todo o tipo de tecnologia que nos traga “conteúdos” cada vez mais instãntaneos. Para que possamos tapar os buracos vazios de um mundo interior que se tornou – e, com a falta de “silêncio”, se vai tornar – cada vez mais complexo. Esqueçam os padres. Redes sociais, jogos de computador, realidade aumentada e a realidade virtual serão as novas hóstias. A nossa sociedade tornou-se voraz e sem espaço para descanso. Tudo se transforma numa chamada colectiva pela atenção. Seja de uma grande empresa ou de um simples cidadão. “Olhem! Reparem! Estou aqui ! Cada vez mais veloz na minha postagem de informação! Também quero ser uma estrela !”. Coitado: mal sabe ele que o mundo se fragmentou em milhares de milhões como ele e, por isso mesmo, os famosos diminuiram de estatuto.

Há, por causa do que acabaram de ler, uma necessidade de se escreverem mais artigos sobre tecnologia para que possamos organizar o mundo de forma mais “compacta”. Precisamos de saber e de perceber o que se está a passar. Mas cuidado com quem escreve. Muitos não passam de gurus da tecnologia cujo primeiro desejo é o da fusão entre o homem e a máquina: a chamada “Singularidade”- algo que Noam Chomsky chama, e no meu entender muito bem, de “ficção ciêntifica”. Em primeiro lugar temos que saber quem estamos a estudar. O bombardeamento de desinformação é de tal maneira grandioso que faz com que desconfiemos dos jornais e, principalmente, dos sites noticiosos. Sim, é certo que as novas tecnologias nos proporcionam novas formas de expressão mas como diz Ignacio Ramonet, ex- director do jornal Le Monde Diplomatique na sua versão francesa, “o problema de do nosso tempo não é a falta de notícias. O problema agora é encontrar aquelas que são fidedignas”.

As redes sociais, por seu lado, vieram dar cabo da leitura de blogues. Que convidavam mais à reflexão através dos seus textos longos e bem pensados. Naquelas tudo é fast food. Nestes estava o verdadeiro e agora utópico espírito da internet através de inúmeros artigos, por vezes, de altissima qualidade escritos por internautas que poderiam, se pudessem, ser verdadeiros comentadores, cronistas ou jornalistas. Já no Facebook impera a barbárie, a confusão, o barulho de postagens mal escritas de quase nulo valor. Para além do facto de se comentarem artigos que não se lêem. Predomina a gritaria. Num estudo feito há meia dúzia de anos provou-se, ainda, que uma grande maioria das pessoas não passam, em termos de leitura, da terceira linha nos artigos clicados.

Recentemente o jornal do Perú intitulado El Comércio conduziu uma entrevista a Martin Rodriguez Gaona que escreveu um livro premiado que se chama “La Lira de las Masas” que reflecte sobre um fenómeno muito particular relativo à poesia em Espanha. Segundo o autor dá-se mais importãncia à espectacularidade do que à profundidade do género em questão. O esquema é simples: os cibernautas põem poemas em redes sociais como o Instagram e consoante os “gostos” que obtêm são convidados pelas editoras para publicarem livros, vendendo-os aos milhares. O que passa a importar não é a qualidade e a profundidade do que é escrito e apenas a popularidade. Tudo num regime de velocidade acelerada. Reflete o autor “Se uma rapariga bonita com uma foto provocante tem 150 mil “gostos” numa postagem e uma conta na rede social com meio milhão de seguidores sabes que com ela vais vender livros. As editoras passaram a ser meras comerciantes. Perdeu-se a reflexão, a escrita pausada e pensada. Os bons poetas não só são minoritários como também se sentem defraudados porque não têm nenhum tipo de retribuição. Nem simbólica nem material.”

Segundo um artigo do jornal Público publicado a 23 de Junho deste ano, foi inventado “um algoritmo que ajuda a completar romances, receitas e até poemas”. Qual é o objectivo disto? Ajudar pessoas com falta de inspiração. Ora: não há melhor exemplo para a sociedade da rapidez. Desta forma, ninguém tem que lidar com o tédio que os bloqueios criativos impõem nem com a espera necessária para que a inspiração humana surja. Mas afinal qual é a utilidade disto? Para que queremos nós ler o que a Inteligência Artificial escreve? O modelo chama-se GPT-2 e foi alvo de controvérsia no início do ano por ter construído notícias literalmente a partir do zero. Onde pára, então, a humanidade quando aquilo que interessa é que a “velocidade é divina”?

Toda esta rapidez ajuda, adicionalmente, a alimentar o populismo político e a extrema direita. Num mundo em que só se lêem “as gordas” e onde imperam as tão badaladas fake news tudo se pode esperar. As pessoas navegam apressadamente através de um twitter ou de um facebook na demanda de gostos publicando aquilo que parece mais sórdido e mais escandaloso. E os jornais, para não perderem o comboio, seguem pela mesma linha férrea.

Ray Kurzweil,  futurologista em termos de Inteligência artificial e inventor, disse, num documentário, que dentro de mais ou menos dentro de duas décadas a informação andará a uma velocidade tal que teremos que ligar os nossos cérebros uns aos outros para percebermos o que se está a passar. Esta personagem recebe palmas por todos aqueles que acham que o cérebro funciona como um computador. Há que lembrar que também pretende rescuscitar o pai – não se sabe como -, que deseja viver até aos 150 anos – alimenta-se à base de dezenas de pastilhas por dia – e que passeia pela praia para “tentar ver robots gigantes a comer estrelas”, porque são fonte de energia, a olho nu. É alguém que, apesar de decididamente hilariante e delirante, atrai muitos seguidores. Mesmo que muitos neurologistas e psicanalistas lhe digam que não percebe  nada do funcionamento do cérebro e da sua complexidade. Um computador não tem nada a ver com sinapses nem neurónios. Ponto final. E também não se entende como é que vai ser possível ligar os cérebros sem um colapso geral. É que já bastam os nossos problemas interiores. Quanto mais aturar os dos outros. Contudo: acerta numa coisa. A velocidade a que a informação vai girar. Falei, no artigo anterior, da Lei de Moore: a tecnologia duplica de potência de dois em dois anos e a chamada disrupção tecnológica e, por isso, social acontecerá cada vez mais com mais força e rapidez. E, nisso, tem razão: vai ser muito difícil percebermos o que estará a acontecer.Se é que já não percebemos.

O que interessa perceber passa ao largo de muita gente. Os Mão Morta, grupo musical bracarense, não podia estar tão avançado e tão certo em 1997, quando lançou o álbum “Há já muito tempo que nesta latrina o ar se tornou irrespirável”, com o tema “Aldeia Global” em que o refrão era o seguinte:”É a Aldeia Global: explicam num júbilo imbecil, prontos a destilarem um rosário das maravilhas dos novos tempos, sem discernirem que “aldeia” sempre foi sinónimo de isolamento e conformismo,de mesquinhez, aborrecimento e mexericos e de que qualquer modo o que verdadeiramente importa se mantém secreto. O que importa é saber onde raio se encontra o poder!

Com a era da desinformação – e, por causa dela, da confusão mental – os psicoterapeutas esfregarão as mãos pelos seus aumentos de poder. Vaticina-se toda uma panóplia de distúrbios psicológicos. Muitas pessoas terão que se dirigir a consultórios de psicoterapeutas para aprenderem a lidar – se lidarem – com a multiplicação tecnológica que surgirá nas próximas décadas e a alienação que se poderá produzir a partir daí.

Eis, então, a minha música, a minha poesia, o meu antidoto e, também, um pouco do meu veneno: do que precisamos, portanto? De menos leitura mas com mais qualidade. De um serviço educativo que impulsione os jovens a olharem a sociedade em que estamos a entrar de soslaio, com distância e desconfiança. Para nos podermos defender dos propagandistas do MIT e de outras conveniências culturais e económicas actuais. Precisamos, para isso, de tempo. De encontrar espaços de silêncio. Para que se possa, também, escrever demoradamente. Lareira – se estivermos no inverno -, um livro e um bom copo de vinho. Parar. Andamos demasiado fascinados com o futuro. E, por isso, demasiado obcecados connosco próprios. Regressemos, portanto, à filosofia.


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