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Redes Sociais como Anti- Democracia Cultural

Costuma-se propagandear “por aí” que o advento do “estado” da internet instaurou, simplesmente, uma espécie de novo “regime democrático”. No qual “as pessoas” detêm, agora, o poder. O que, até certo ponto, considero ser verdade. Talvez “as pessoas” detenham mais algum poder. De qualquer forma: um poder mínimo. Contudo: concentrou uma grande parte da população mundial no mesmo género de sonhos e aspirações: a cultura, a arte, as indústrias “criativas” e uma standardizadora “indústria de conteúdos” que mete quase tudo o que mencionei anteriormente no mesmo “saco”. Conseguimos, “finalmente”, transformar, de uma vez por todas, quase tudo aquilo que apelidamos de arte em negócio. Mesmo que digamos que o que estamos a fazer é apenas “partilhar”: um argumento que é óptimo como placebo para a consciência colectiva. Porque, desta forma, podemos combater – ou dizer que o fazemos – o capitalismo à vontade. Enquanto, no fundo e através do networking, estamos a fomentar, talvez, uma das suas piores fases. A ultra distribuição da publicidade por todo o género de projectos ou plataformas  “informativas”, pelo facto de se ter precarizado, utiliza o argumento da “partilha” como técnica de marketing. “Não nos estamos a tentar promover: estamos a partilhar”. Aqui, “informativas” – como conceito projectado por Sillicon Valley – é singularmente diferente da ideia de informação, jornalística ou somente literária, como a considerávamos anteriormente. Para esta nova era tecnocêntrica: “informação” parece constituir quase tudo o que é “produzido”: notícias, todos os géneros de entretenimento, jogos de computador, aplicações, música ou o cinema. Este “pequeno” pormenor não é muito difundido, em artigos de “opinião”, nem muito “partilhado”, em conversas, a nível social. Nem interessa fazê-lo. Tal dificultaria o que mais importa, principalmente, para uma minoria empresarial: o curto- prazo e o salto “perpétuo” de link em link. Não exactamente em nome do “conhecimento” como se costuma normalmente advogar. Mas, essencialmente, em nome de uma comércio mais ou menos desesperado numa realidade económica que parece ter entrado em modo “distopia”. Foi assim, desde o advento da crise económica e financeira, instaurada uma visão permanentemente low- cost da realidade. A não ser para todos os “gigantes do digital” que conseguem arranjar todo um conjunto de técnicas para conseguirem escapar aos impostos a nível transnacional. São, apesar de tudo, muitas vezes desvalorizados na bolsa, dão prejuízo – como o “aspirador” concorrencial que constitui a retalhista Amazon – e empregam pouca gente a nível internacional. “Desculpem” mas, por aqui, não me parece existir grande “democracia”. Para além de outro factor não menos importante: à medida que as aspirações criativas, literárias e artísticas se concentram, agora, numa rede mundial que atingiu o número de 1230 mil milhões de usuários – o Facebook – mais se afunilam em termos de densidade e de profundidade devido à rapidez com que são e têm de ser distribuídas e, por isso, consumidas. Fica a ganhar a quantidade se impera, quase unicamente, o que é veloz: fragmentos e inúmeros estilhaços. A complexidade e a qualidade perderam terreno.


A Demanda Pela Criatividade Perpétua

O individualismo contemporâneo – ao qual também não escapo – ensina-nos permanentemente o “do it yourself”. Assim como os “benefícios” de um género de competição tecno- capitalista quase inumana que se deseja, por algumas instâncias, cada vez mais descontrolada. É o caso de empresas norte- americanas que adquirem outras – muitas vezes estáveis e que empregam bastante gente – com o único propósito de as fechar “para mostrarem aos mercados” que são “competitivas”: que estão dentro do espírito da perpétua “innovation”. Um absurdo que mais não faz do que exigir da nossa normal fragilidade uma “criatividade” constante e que sejamos todos “empreendedores” para que possamos encontrar o nosso “nicho de mercado”. Teremos, assim, que ter uma “marca pessoal”. Que ser uma “marca”. Um tipo de ideologia que, convenhamos, dá jeito ao estado como o temos actualmente. De privatização da realidade em privatização da realidade: diversos governos arranjam, desta forma e na falta de ideias para relançar a economia, novas estratégias para a própria desresponsabilização. Parece que, como é amplamente defendido há anos, teremos de estar “em formação” até ao fim das nossas vidas. Constantemente a mudar de profissão num planeta que, agora, raramente espera por nós quando finalmente nos sentimos preparados. O individualismo pode, em alguns casos, extrair o melhor que temos em termos “criativos”. Contudo: para conseguirmos sobreviver numa estética mundial que é permanentemente “low – cost”: não é toda a gente que tem a sorte de criar uma “aplicação de sucesso”. Ou que deseja.


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