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Arte e Antídoto

As biografias “apaixonam-me”. Escritas ou filmadas. É um género que nos põe os pés definitivamente assentes na terra – ou ausentes da Terra? – relativamente a figuras que, para o bem e para o mal, nos habituamos a admirar. Têm a faculdade de nos mostrar a realidade, que se tenta esconder, por trás daquilo que se compôs, filmou ou escreveu. Assim como, ao que parece, a “consciência” tem o propósito de confirmar ou de contrariar aquilo que verdadeiramente se sente: uma biografia, bem esmiuçada e detalhada, revela-nos o homem – ou a mulher – que se esconde por trás da “máscara”: de um propósito social. Mesmo existindo um sentido construtivo -: não me parece ser raro o facto de que aquilo que é, por exemplo, escrito constituir uma espécie de panaceia – o antídoto – para os sofrimentos e os desejos, psico- sexuais e amorosos, de um autor. É exactamente neste ponto que começamos a falar em “optimismo”. Expressão, assim como “a razão”, que terá tantos significados como protagonistas. A escrita, a música e o cinema como manifestação de “doenças”. Projecções positivas para o “mal estar”. “Encher o mundo de delírios que entretenham – e enganem – os outros”: diria, desta forma, o melhor paciente. Focos de luz para si próprio. Mas que sirvam, também, os outros com lágrimas, sorrisos e algum enaltecimento. A cada um o seu vulcão: aproveitemos a lava.

 

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Psicanálise e Cristianismo

Não vou generalizar. Porque conheço vários casos que contestam a opinião que aqui expresso. De qualquer forma considero que a religião cristã, sob as suas diferentes versões, pode constituir uma espécie de armadilha. Cujas manifestações mais nefastas podem surgir apenas tardiamente na vida de um adulto. Uma espécie de cancro que durante muito tempo não é visível mas que se espalha pelo espírito e pelo corpo evidenciando-se quando menos o esperamos. O prazer no sofrimento – a sua valorização social como mecanismo de controlo social e familiar ou como tábua de “salvação” pessoal – continua ao fim destes dois milénios. É esta a questão de fundo. A generalização do masoquismo que promove o cristianismo que, por sua vez, favorece o masoquismo continua a ser, a meu ver, um problema civilizacional real. Embora, talvez, de forma um pouco mais sublimada. Podemos não ter uma consciência objectiva de que ele existe. Mas evidencia-se no comportamento diário de muita gente que conheço. Estou neste momento a ler um livro editado no ano de 1976 do psicanalista francês Pierre Solignac intitulado “A Neurose Cristã”. No qual o autor nos relata inúmeras conversas que teve, em sessões de psicanálise, com todo o tipo de religiosos, freiras e padres. Conversas que o levaram a descobrir os perigos da castidade, da moralidade excessiva e da castração psico- sexual para a saúde mental de muitas pessoas. Que acabam por se manifestar em todo o género de doenças e somatizações. O livro divide-se em capítulos como “Doença e Culpabilidade Na Teologia Cristã” ou “A Neurose Cristã e a Civilização”. Problemas graves que, normalmente, os médicos convencionais continuam a não saber tratar por puro desconhecimento acerca do tema ou devido a questões de classe profissional. Tentam não pensar sobre o assunto. Evitando-o ou descartando-o completamente. E, não raras vezes, nem os psicoterapeutas os conseguem compreender eficazmente. Temas que não são amplamente abordados nos dias de hoje devido à resistência que a psicanálise tem encontrado cada vez mais – apesar dos esforços da neuro- psicanálise em recuperá-la – nos diversos meios institucionais e académicos. Nada que Sigmund Freud, aliás, não tivesse antecipado. A verdade é que não se encontram respostas satisfatórias nem se abordam convenientemente temas deste género fora deste campo temático. A sociologia, por exemplo, parece-me pecar por defeito. A psicanálise devia ser erguida a núcleo principal de entendimento. O filósofo e psicanalista lacaniano de origem eslovena Slavoj Zizek afirmou recentemente, num debate que foi emitido numa estação de televisão brasileira, que “talvez a psicanálise nunca tenha sido tão necessária como hoje em dia”. Talvez.


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