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A Atitude “Literária” (A Poesia “Contra” o Número)

The Harbor At Odessa On The Black Sea

Ora: existem, pelo menos, duas hipóteses. Ou desejamos ser “sãos”, “objectivos”, “pós- modernos” e, por essa razão, mais ou menos ignorantes…ou andamos, caminhando por uma fina corda bamba, balançando, como se fôssemos imortais, por cima do abismo. Acontece que, apesar da existência deste – e se tivermos a coragem necessária para o ultrapassar -, é bem possível que reencontremos uma mina de possibilidades para o futuro. Novamente complexas. Mas, também por causa disso, mais poéticas. Procurar o “conhecimento” segundo algumas das “directivas” do momento presente é mais ou menos a mesma coisa, apesar de toda a abundância – principalmente devido a toda a “abundância” -, que ver a realidade através de uma lente, um microscópio ou um qualquer manipulador de imagem: afunila. Muitos efeitos. Mas não se vislumbra o essencial: a espinha dorsal. A repescagem de uma “atitude literária” talvez signifique o recomeço – depois do “fim da história” – da pintura do quadro humano. Em direcção ao futuro. O presente não pode radicar, unicamente, no “tudo vale o mesmo” contínuo. Tal equivale a nadarmos, mais ou menos perdidos, em redemoinhos individuais. Reencontrarmos uma selecção contextualizante e exigente – menos isoladora; menos “anárquica” -, para o tempo presente, é, pelo contrário, mergulharmos num oceano repleto de flora e de fauna por explorar. Redescobrirmos um tesouro perdido – a consistência – pode levar, não ao “reaccionarismo”, mas a uma reelaboração. Que, como uma fisga, nos lance definitivamente numa nova direcção. Contrariamente a algumas teorias afectas à tecno- ciência: qualquer “salvação” não pode ser feita com vista a uma fuga da humanidade por ela própria. Nisto: não há nada de mais conservador que o tempo presente. A tecno- utopia informativa, para já, é completamente “cristã”.


O Delírio de Bartleby

“Já tudo foi escrito”. Já tudo foi escrito? “Sim. É o que dizem professores de literatura, críticos e historiadores. Que já tudo foi escrito”. Realmente, na “sociedade da estatística”, não é a literatura que mais tem interessado. Mas talvez não te devas preocupar muito com os fantasmas do passado que carregas às costas. “Quais fantasmas?”. Bartleby…continuamente a desejares ultrapassar? Fazes, com isso, dois maus serviços: o primeiro a ti próprio. O segundo aos excelentes autores que não merecem a tua mediania. Contenta-te com o que tens e deixa os outros respirar. Ou preferes deixar de ler os grandes mestres para que te possam ouvir a ti? Isso está na moda. Talvez o que esteja mais na moda. Aceita que não és assim tão bom. És bom. Mas talvez não como desejarias. Tenta escrever a seguir. Existe sempre uma originalidade que podes adquirir na mistura entre o que és e tudo que leste até agora. Fundarás, com isso, uma escola pessoal. Nunca conseguirás ler todos os livros que existem e que foram escritos até agora. Isso quase em nenhuma época foi possivel e é tarefa cada vez mais complicada. De certa forma: a humanidade tem de recomeçar continuamente devido a uma certa “falta de capacidade”. “Dizem que um dia teremos os cérebros todos ligados e assim poderemos processar toda a informação”. Informação…informação. A obssessão pelo momento. O que falta é comunicação. Escreve. E deixa lá as múltiplas teorias contraditórias da tecno- ciência. Muitas delas são delírios iguais a quaisquer outros. Tu, depois de leres o jornal diário, ficas mal disposto com o que se passa entre Gaza e Israel e estás á espera que um ser humano não caia para o lado depois de uma conecção com outros cérebros? Dizes que não acreditas em histórias da carochinha: a verdade é que arranjaste uma nova. Ponto final.


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