Category Archives: desinformação

A Importância da Interpretação e do Contexto no Jornalismo Cultural

Uma das capacidades que mais admiro, nos outros, em época de “postagens”: a de se tentar escrever bem. Para que eu próprio possa ousar, experimentando, evoluir. Contudo: também, simplesmente, a de se tentar escrever. Evitando o texto curto: uma das “doenças” deste século, devido ao excesso, à qual também não escapo de vez em quando. Trata-se de uma luta cultural e civilizacional. De um problema de contaminação habilitado por uma teimosia constante e habitual: a “eficiência” tecno-económica. Dou como exemplo contrário: a aptidão para se pegar numa só foto, como fez Roland Barthes, e de a conseguir dissecar. Como, aliás, o autor o relatou através do livro “A Câmara Clara” que foi editado no ano de 1980. Não constitui tarefa fácil. Passa-se o mesmo relativamente ao cinema: assistirmos a um filme, em sala – para o sentirmos melhor -, e, depois de o deixarmos cerca de uma semana em “pousio” – interior -, a “marinar” e a amadurecer, convertê-lo num texto que caiba, ainda , em página inteira. Como continua a fazer, para nos referirmos apenas ao território nacional, o semanário Expresso pelo menos de vez em quando. Como deixou o diário Público de os disponibilizar há já algum tempo devido a inúmeros factores – e, aqui, a falta de espaço não é dos menores -. Reduzindo, desta forma, a interpretação e o contexto histórico- cinematográfico a umas magras colunas que, apesar de regularmente bem escritas, têm, agora, de se fazer valer através de um estilo mais condensado. Tenho pena. Costumava ser um hávido consumidor de artigos jornalisticos que lhe eram relativos. As interpretações sempre me fascinaram. Por muito distantes, em termos de imaginário simbólico e linguístico, que se encontrem umas das outras. Nisto: o já falecido João Bénard da Costa era rei. Escrevia, sobre filmes, como se pintasse uma tela. Davam-lhe espaço para o fazer. E o sentido, a procura de um sentido que Bénard parecia exigir extrair através do uso de uma palavra quase musicada, só poderia ser conduzido dessa forma. Não interessa, para esta crónica, se existem blogues mais ou menos especializados e direccionados para o tema com textos de igual ou de superior qualidade. A imprensa generalista, com todos os seus suplementos culturais, continua a  representar um outro papel social. Não deveria, por isso, continuar a ser desprezada, como o é actualmente, por constituir uma espécie de aparência, física, real ou imaginária – sublinhando: muitas vezes imaginária; a democracia igualitarista precisa de “inimigos” – aos olhos dos cidadãos de poder e de “controle”. Pura e simplesmente porque, no que respeita à comunicação, quase tudo representa luta, poder e combate cultural. Tentação que, obviamente, não escapa aos inúmeros tweets, blogues e start-ups de cariz informativo – e desinformativo – que são criados diáriamente. A “sociedade reticular”, neste aspecto, aumentou a competição mas, adicionalmente, o nível de paranóia social relativamente ao que é dito e ao que é escrito: pelo outro. A imprensa generalista, nas mãos certas, continua a ser necessária. Apesar de todos os problemas que tem enfrentado em termos económicos e sociais para que nos possa continuar a indicar caminhos de reflexão comuns. Continua a constituir um ponto de encontro necessário que une e concentra visões, um pouco mais gerais, da realidade. Evita o estilhaçamento de vontades comunicativas sem, contudo, acabar com elas. Impede, um pouco, um género de “autismo” muito contemporâneo: o isolamento social favorecido pela tendência para a “personalização” de “conteúdos”. Alguns, nesta fase em que quase tudo parece significar “elitismo”, teriam a tentação de apelidar esta posição que defendo como “tendência para o controle”. Existe, contudo, uma outra que vai para além desta generalização: uma ultra- valorização do individual em detrimento daquilo que se teima em apelidar, estigmatizando, de “jornalismo tradicional”. Como se este último precisasse de desaparecer em nome dos múltiplos interesses da filosofia concentracionária da oligarquia digital. É jornalismo a tentar ser o que sempre foi: ponto final. Esta posição bastante radical tem incentivado – e criado – o empolamento, não apenas do que se convencionou chamar  de “jornalismo- cidadão” – que pode ser também uma forma de exploração -, do “narcisismo- cidadão”: em direcção ao selfie, ao império da velocidade, da facilidade e da quantidade. Em última análise e em termos gerais: à falta de qualidade informativa, jornalistica e literária. Interessa dar voz à “maioria” em nome de um precário comércio digital. Contudo: somos, agora, mais prisioneiros das estatísticas. Mais escravos das “citações” para nos tornarmos visiveis em motores de busca. Do número de visitas por página. Para tal acontecer: a “classe média informativa” transmutou-se numa espécie de obstáculo a eliminar. As perguntas que mais interessam, sobre o poder, deixam, por isso, de se fazer com a mesma insistência e pormenor. Muito nos começa a passar ao lado. Deveria, por estas razões, continuar a existir um espaço para todos. A análise e a crítica, exigente e profissional, têm sido desvalorizadas por vivermos e defendermos, actualmente, um ecossistema económico- digital “infestado” por “comentários”, “comentadores” e todo um conjunto de ansiosos por veículos publicitários como são as conferências TED Talk. Tentando-se degradar, para que tal seja possível, o que aparenta vir de cima. Mudanças sociais que se tornam insuficientes para uma conveniente – ou inconveniente – compreensão histórica, artística, literária, jornalistica, musical e cinematográfica. Novamente no que se refere a esta última área – poderia utilizar outras para servirem de exemplos mas parece-me suficiente nomear, pelo menos para já, apenas uma – : navegamos, hoje em dia, sofregamente por sítios infestados de cartazes com filmes principalmente americanos: os de terror, as comédias românticas e os filmes de acção. O trio “paralítico” habitual que, grande parte das vezes, é-nos oferecido como se fosse uma espécie de pronto-a-comer sem qualquer descrição, com qualidade, que nos permita situar a obra de uma forma política, social e, por isso, temporal. Um ciclo vicioso que tem favorecido o parco interesse dado ao argumento e à realização – à autoria e ao nome do realizador – por parte de um género de consumidor, de tipo novo e coleccionista, que, acantonado no seu “nicho”, se tem habituado, progressivamente, a uma procura preguiçosa, pouco informada, fragmentada e desconexa: “vê-se o primeiro que aparecer”. Tanto nas salas que ainda resistem em centros comerciais como nos diversos sítios que proliferam pela internet. É a cara, a pose dos actores e a capa mais “atractiva” aquilo que parece interessar cada vez mais. A história do cinema como, aliás, quase toda a história, parece, actualmente, ser pouco necessária à cultura popular. “Formatar o sistema !”: repete-se, por aí, relativamente a quase tudo o que seja manifestação cultural. Mas a presente “revolução”, mais do que “digital”, é social: trata-se da construção de um estado – de um estado, semi- amnésico, de pensamento – que se deseja alheio ao “exterior” e também àquilo que lhe é “anterior”. A “mudança de paradigma”: um rompimento que, embora seja necessário em determinados aspectos, parece querer evitar, em larga escala e apesar de toda a informação e literatura, dispersa e digitalizada, um significado e o passado. É apenas uma da contradicções do presente. Continuamos, contudo, a precisar de jornais. As assinaturas nunca foram tão baratas. Entraram em espírito low- cost.

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A Atitude “Literária” (A Poesia “Contra” o Número)

The Harbor At Odessa On The Black Sea

Ora: existem, pelo menos, duas hipóteses. Ou desejamos ser “sãos”, “objectivos”, “pós- modernos” e, por essa razão, mais ou menos ignorantes…ou andamos, caminhando por uma fina corda bamba, balançando, como se fôssemos imortais, por cima do abismo. Acontece que, apesar da existência deste – e se tivermos a coragem necessária para o ultrapassar -, é bem possível que reencontremos uma mina de possibilidades para o futuro. Novamente complexas. Mas, também por causa disso, mais poéticas. Procurar o “conhecimento” segundo algumas das “directivas” do momento presente é mais ou menos a mesma coisa, apesar de toda a abundância – principalmente devido a toda a “abundância” -, que ver a realidade através de uma lente, um microscópio ou um qualquer manipulador de imagem: afunila. Muitos efeitos. Mas não se vislumbra o essencial: a espinha dorsal. A repescagem de uma “atitude literária” talvez signifique o recomeço – depois do “fim da história” – da pintura do quadro humano. Em direcção ao futuro. O presente não pode radicar, unicamente, no “tudo vale o mesmo” contínuo. Tal equivale a nadarmos, mais ou menos perdidos, em redemoinhos individuais. Reencontrarmos uma selecção contextualizante e exigente – menos isoladora; menos “anárquica” -, para o tempo presente, é, pelo contrário, mergulharmos num oceano repleto de flora e de fauna por explorar. Redescobrirmos um tesouro perdido – a consistência – pode levar, não ao “reaccionarismo”, mas a uma reelaboração. Que, como uma fisga, nos lance definitivamente numa nova direcção. Contrariamente a algumas teorias afectas à tecno- ciência: qualquer “salvação” não pode ser feita com vista a uma fuga da humanidade por ela própria. Nisto: não há nada de mais conservador que o tempo presente. A tecno- utopia informativa, para já, é completamente “cristã”.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada ( Versão para o Jornal i)

Publicações e debates, sobre a “sociedade da informação”, “atrasaram-se” em investigação. Apesar da melhoria no último ano, devido ao caso Snowden , a “discussão” foi conduzida como uma “veneração”. Imperava o “guru da comunicação”: o “optimismo” sobre um paradigma “paradisíaco” que a tecnologia, por si, alcançaria. Parecia, por vezes, uma “seita” em construção. O “panfleto” era quase sempre o mesmo: “o mercado dos gadgets conduz- nos a uma democratização da mensagem”. Mantra que foi emulado, nas redes sociais, por um usuário mais absorvido por questões económicas nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros factores, ignorados pelo cidadão na veloz troca de informação, estão a remodelar o estilo de vida com uma rapidez difícil de descortinar pelos média, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. Existem exemplos. Como os livros de Nicholas Carr ou de Evgeny Morozov. Mas é pouco. Nada disto é novo: o século XIX, com a revolução industrial, assistiu a crença similar. Que se desvaneceu quando se viram as consequências que a tecnologia também trouxe: poluição, duas guerras mundiais ou as bombas de Hiroshima e Nagasaki. O determinismo científico esquece, facilmente, que o homem não é só Sapiens: é Demens. A “democracia digital”, possibilitadora da difusão da mensagem por parte dos cidadãos, é real. Mas a questão não pode ser colocada, apenas, desta forma. Se se pretende, apenas, a inclusão: pouco é questionado subjectivamente. Porque, contra a narrativa do mercado tecnológico, opiniões divergentes são olhadas de soslaio. E “se pouco é questionado” relativamente ao paradigma comunicacional: não estamos numa democracia social. Mas num igualitarismo de tipo novo: transnacional. Questões que podem ser colocadas não são novas. Foram “esquecidas” neste século. Mas debatidas em obras de filosofia no século XX. O Estaleiro Cultural Velha- a- Branca, de Braga, com um debate conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho no passado dia dois de Maio, evitou o que referi anteriormente. Abordou a história da fotografia para questionar a banalização da cultura da imagem no discurso colectivo e a tendência do momento: o selfie. “Pormenor” que se transcende ao atravessar o espectro informativo: o rápido post “noticioso”, o vídeo de “cinco minutos” para que tenha “mais visualizações” ou a “adolescência” de muito do “jornalismo- cidadão”. Interessa a rápida exposição: o “eu” é a mensagem. O que arrasta consequências ao nível do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem vale o mesmo”: que caminho seguir num cenário de crise económica e social? Precisamos de interpretação. Nada disto traria problemas se não ofuscasse a especialização e a qualidade que a costuma acompanhar. O que passa a “interessar” não é, exactamente, a “cultura”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. Mas talvez seja cedo. Existem épocas de retracção. Nada é certo. Nada é eterno. Precisamos, por vezes, de parar: assistir sem “fotografar”. Pensar. “Fotografar” a seguir.


O “Selfie”: Do Reino do “Eu” ao Império do Nada

Uma grande parte dos jornais, das publicações que não são académicas – e estas são cada vez menos -, dos sítios na internet e dos debates internacionais, no que respeita à perpétua discussão que é feita, há anos, sobre a construção da desejada “sociedade do conhecimento” e da “sociedade da informação”, “atrasaram-se”, a meu ver, em termos de um trabalho analitico e de investigação. Ou seja: evitaram uma necessária “dissecação”. Apesar de uma melhoria no último ano, devido ao caso das escutas denunciado por Edward Snowden , no que se refere a uma maior quantidade e qualidade de artigos publicados em sítios mais ou menos especializados: o debate continua, tendencialmente, a ser conduzido – e, por isso, reduzido – tendo em vista uma espécie de “veneração” que parece ser indispensável ao espírito económico e ideológico do tempo. Mas abundavam, exceptuando crónicas de autores “isolados”, apenas o fervor, o “optimismo”, a publicidade mascarada e, principalmente, as press- releases sobre um suposto novo paradigma em direcção a um qualquer paraíso que a tecnologia, por si só, iria pelos vistos alcançar. Imperava, essencialmente, o discurso de “mercado”, do “guru” da comunicação a pedir atenção mediática ou 20 minutos num dos palcos da TED Talk: o actual vendedor de ilusões. Estava quase sempre ausente o contra- ponto visionado ou textualmente publicado. O que, não raras vezes, transmitia o aspecto de que existiria uma nova “seita” em formação com toda uma “longa cauda” de seguidores, clones e repetidores. O panfleto era, quase unicamente, o mesmo: “a proliferação do mercado dos gadgets electrónicos conduz- nos a uma democratização da mensagem: fotográfica, jornalística, cinematográfica ou literária”. Mantra que, após ter sido insistentemente propagandeado por todo o tipo de representantes de empresas da área da tecnologia digital e dos blogues que lhes estão directamente ou ideologicamente associados, é agora emulado, a julgar pela “informação” que é partilhada diáriamente através das redes sociais por um consumidor intencionalmente, ou não, desatento mas principalmente absorvido por questões económicas e nacionais. Compreende-se. Mas inúmeros aspectos importantes, sobre as estruturas e tendências digitais, são constantemente ignorados pelo cidadão “comum” na sua veloz troca de informação, de cartazes feitos no Photoshop com provérbios descontextualizados ou dezenas de fotografias de recém- nascidos. O problema é que são matérias que não versam pontos exclusivamente “digitais”. São complexas, essencialmente sociais e estão a remodelar o nosso estilo de vida a uma velocidade difícil de descortinar por todos nós, por uma comunicação social desatenta por se encontrar em constante competição, pela filosofia ou pela sociologia contemporânea. O que se reflecte numa rara produção crítica quando sobre eles resolvem “avançar”. Os exemplos, de qualquer forma, existem. Como as obras “Experimentum Humanum” de Hermínio Martins, “Crise no Castelo da Cultura” de Moisés de Lemos Martins, “Os Superficiais” de Nicholas Carr ou o incansável trabalho de Evgeny Morozov através de conferências ou da publicação de livros como “The Net Delusion” e “To Save Everything, Click Here”. Mas, dada a enorme torrente de questões que os nossos dias anunciam, é muito pouco.

Nada disto é inteiramente novo. O século XIX, com a revolução industrial a decorrer, a invenção do comboio eléctrico, o telefone ou o telégrafo, assistiu a um género similar de “efervescência”, de crença utópica no “futuro” e na “conectividade” entre os homens. O que só os iria aproximar. Contudo: a miragem foi rapidamente posta no lugar que lhe competia quando se verificaram muitas das consequências que a tecnologia também trouxe ao século XX: uma poluição ambiental cujo máximo estamos neste momento a presenciar, duas guerras mundiais, as bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki e vários tipos de genocídios que não pararam de ocorrer até aos dias de hoje. O determinismo científico esquece, muito facilmente, que o ser humano não é só Sapiens. Também é Demens: muito pouco controlável.

De qualquer forma: a “democracia digital”, enquanto possibilitadora de uma difusão, exposição e publicação de uma mensagem que era anteriormente inacessível à maior parte dos cidadãos, não deixa de ser verdadeira. Mas colocadas as questões, simplesmente, desta forma: o assunto parece ficar arrumado. Devido, essencialmente, a um aspecto delicado. Se o que se pretende é, principalmente, a inclusão e a “democratização”: pouco, a partir daqui, poderá ser questionado a um nível subjectivo. Porque, contra a “ditadura” da narrativa redutora do mercado tecnológico digital e da maioria consumidora que lhe está associada, a dissidência e as opiniões divergentes são olhadas de soslaio. Não são censuradas nem são proíbidas. São apenas ignoradas. E “se pouco pode ser questionado” devido a uma quase “invisibilidade” da pergunta incómoda relativamente ao frenético paradigma comunicacional do momento: não é propriamente uma democracia social real, relativamente às questões aqui apresentadas e por muitas “partilhas” que façamos, aquilo que estamos a atingir. Mas, pelo contrário, um igualitarismo e uma massificação de tipo novo. Por ser transnacional. Que engloba, conectando-as, cada vez mais franjas populacionais. Calando-as. Levando-as, devido a uma questão de inclusão, à auto- censura. São movimentos que nascem do standardizado – quase “programado” – discurso ideológico- económico dos “gigantes do digital”. Dos “corredores” filosóficos e políticos de Sillicon Valley. O nosso país, exceptuando casos pontuais, quase não ofereceu, até agora, evolução. Mas, aqui, também relativamente aos meios de comunicação social. A maior parte das publicações continua a ignorar uma série de questões que são, cada vez mais, debatidas “lá fora”. Que não constituem problemas de “futuro” porque o império único da propaganda faz parte do passado. Por outro lado: as perguntas que, a partir de agora, poderiam e podem ser formuladas não são inteiramente novas. Foram, apenas, temporariamente e convenientemente esquecidas neste princípio de século. Muitas delas foram debatidas em obras de filosofia da ciência e da tecnologia no século XX. Precisamos, por isso, de um novo espírito de inovação que faça frente ao conceito de “inovação” simplista de Sillicon Valley. Para que haja, outra vez, menos certezas absolutas, menos vontade de determinismo. Mais dialéctica. Mais História. Para uma nova e urgente integração.

“Integração” que foi atingida no que relato a seguir: O Clube de Fotografia do Estaleiro Cultural Velha- a- Branca na cidade de Braga, através de um debate que teve lugar no passado dia dois de Maio e que foi conduzido por Inês Viseu, Hugo Moura e Daniel Camacho, teve a capacidade de inverter a situação e escapar, de forma brilhante, ao que referi em todas as linhas anteriores. Ali: existiram perguntas a serem colocadas e um público jovem que estava, contra todas as generalizações geracionais, aberto ao que estava a ser dito. O encontro começou por versar, resumidamente, o significado histórico e o propósito da fotografia para, aproveitando o “gancho”, questionar o seu estado na sociedade actual: da cultura da imagem à sua entronização no discurso colectivo e, daqui, em direcção à multiplicação, à consequente banalização e, então, a uma das tendências mundiais do momento que é, talvez, o seu ponto mais baixo: o selfie.

Contudo: a discussão acerca do “pormenor” fotográfico transcende-o. Serve de ponto de referência e de espelho a uma máquina mutacional muito maior que atravessa todo o espectro informativo e cultural global: o selfie assume múltiplas formas, mais ou menos encapotadas à primeira vista e encontrando- se, neste momento, em quase todo o lado: no rápido post “noticioso”, no vídeo ou “conteúdo”, de “cinco minutos”, colocado em plataformas como o You Tube para que “possa ter um maior número de visualizações” ou na impulsiva adolescência de muito do que se resolveu apelidar de “jornalismo- cidadão”. Interessa, portanto, a rápida exposição.  De preferência: sem esforço. O “eu” passou a ser a mensagem. O que se poderia dizer passa a segundo plano. Mas ele encontra-se também em fenómenos de audiência televisiva como as inesgotáveis e múltiplas variantes de reality shows ou na proliferação de revistas “cor de rosa” que, na última década, ultrapassaram uma linha vermelha através de uma contínua exploração emocional de “vedetas” onde já não se consegue distinguir o que é realidade do que é telenovela, o que é aproveitamento do que é voluntarismo do actor “para que possa atingir um “valor de mercado”. O que arrasta, inevitavelmente, consequências sociais ao nível político e do pensamento contemporâneo. “Se toda a mensagem passou a valer – e a vender – o mesmo”: que caminho seguir, em termos civilizacionais, num cenário de crise económica e financeira? Já o escrevi anteriormente: precisamos de focos de luz. Precisamos de interpretação. Necessitamos de contexto. Onde se encontrem perguntas que interessam.

A inclusão cada vez maior das “margens” – como sinónimo das camadas de uma população que antes do advento da internet não tinha acesso à exposição mediática – não traria problemas se tal não originasse a ofuscasse a especialização e uma certa qualidade superior que a costuma acompanhar. A duração, a originalidade, a dificuldade e a qualidade são preteridas em favor de um “mercado” rápido e precário numa progressão galopante em direcção a uma espécie de ultra- simplificação do discurso. O que passa a “interessar”, em primeiro lugar, não é, exactamente, a “cultura” e o “conhecimento”. Mas a inclusão de “toda a gente” no discurso cultural. O que esbate e relativiza, em sentido negativo, a importância e a visibilidade do questionamento.

Contudo: talvez seja cedo. Talvez as ilusões se desmoronem à mesma velocidade com que se criou a utopia ou com a rapidez com que vão à falência as empresas da área do digital. A história, como foi aliás salientado no debate anteriormente mencionado, prova-nos que existem sempre movimentos de retracção. Nada é certo e nada é eterno. Mas para que a história nos mostre isso: precisamos de estar atentos. Para tal acontecer: precisamos, de vez em quando, de pousar o smartphone. Pensar. Assistir sem “fotografar”. Pensar. Para “fotografar” a seguir.


“Informação”: O Futuro de uma Ilusão (Artigo publicado na edição do Diário do Minho de 25 de Novembro de 2014)

Estamos possivelmente em vias de “escrever”, inconscientemente, uma espécie de distopia e não desconfiávamos. O mundo, como se encontra actualmente, complexifica-se à velocidade da máquina. Mas não à velocidade do ser humano. Que, “coitado”, continua, apesar de tudo, humano. E não tem tempo nem disponibilidade mental para compreender satisfatoriamente o que se prepara em termos sociais. A maior parte de nós vê a vida concentrada a passar-nos à frente em múltiplos ecrãs sem perceber, no fundo, o que, por trás, significam. Sem entendermos em que direcção nos move uma rede ideológica e comercial que se multiplica. Os anúncios são feitos diáriamente: mais um smartphone, mais um I- Pad, mais um relógio com vídeo- câmara, mais um notebook, roupa com “informação”, os óculos da Google e, muito em breve, a hegemonia da “internet das coisas”. O que significa, basicamente, duas coisas: sensores e vigilância em cada canto e em cada esquina. No meio de tanta informação há um vazio que se agiganta: o de não estarmos em contacto com o nosso próprio e imaginativo interior. Há conversas que são constantemente interrompidas devido ao envio de um sms, pessoas que se levantam da mesa de um jantar para poderem “postar” um novo selfie no facebook para, quando regressarem à mesa, iniciarem mais conversa sobre redes sociais, cabeças que não se desviam do visor do computador quando se pede um abraço ou um simples “olá”. No fundo: a criação de uma sociedade de “autistas” que foge, sempre que pode, da realidade, das emoções e dos outros por causa de mais uma aplicação. No meio disto tudo: há já quem desenvolva aplicações para “tempos mortos”. Para nos “divertirmos” – também no ecrã – enquanto não utilizamos aplicações de trabalho. “Não podemos estar aborrecidos”. Como é que, em meia dúzia de anos, passamos, em “fila indiana”, para toda esta desconectividade real é pergunta que raramente se faz numa TED Talk – por onde passam, pelos vistos, “as mentes mais brilhantes do planeta” desde que falem, apenas, de design, tecnologia e entretenimento em cerca de 20 minutos – ou nas páginas dos jornais. Também comprometidos com a falta de indagação que traz o espírito, curvado, do tempo. Perguntei, há dias, a um psicoterapeuta meu conhecido o que pensava ele de todo o excesso de informação, desinformação, alienação e falta de verdadeiro conhecimento que o movimento ultra- consumista de curto- prazo está a provocar. A resposta foi rápida e orgulhosa: “Sabemos o que vai acontecer. Está previsto. Mais poder para nós, psicoterapeutas”.


Planeta Terra: Planeta Placebo

Num mundo que se pretende “informativo” – mas, acima de tudo, publicitário -: necessitamos, por vezes, de fazer uma pausa. Oferecendo uma prenda a nós próprios através de algum descanso. Evitar a “conectividade”, massificadora, que nos é, agora, tão “exigida”. E, quando se escreve – como consequência -, uma das maiores pragas, jornalísticas e literárias, actuais: a “legibilidade” textual. Esta espécie de empobrecimento contemporâneo que tanto nos é pedido em prol do consumo e do ecrã perpétuo. De uma enlouquecida formatação e rapidez comunicacional que não nos levará, em termos de um maior conhecimento, a lado nenhum. É o “mercado” da quantidade. E, também, a inconsciência do momento. Como outras: mais uma “religião”. Um novo placebo. Voltemos, então, a questões “ingénuas”:

Isto por me ter lembrado de, quando era criança, olhar para o arco- íris e sentir-me insatisfeito. Parecia-me insuficiente. Como se lhe faltasse alguma coisa. Veio-me à memória há alguns dias atrás. Quando passeava, debaixo de chuva miúdinha, por uma ruela apertada deste vácuo convento, também pouco espaçoso, ao qual tenho de regressar de vez em quando: a cidade de Braga. E depois de ter visto, projectados na parede do lado direito, três pequenos círculos com as cores azul, verde e vermelha que vinham, atravessando o escuro, de uma montra de uma loja de roupa feminina. Que tinha pendurados os projectores luminosos. Para além de um cão de louça com as costas voltadas, acastanhado e amarelo torrado, que se encontrava sentado em cima de um pequeno televisor negro. Com um aspecto ainda mais abandonado: pela moda e pelo tempo. Devido à multiplicidade de ecrãs que entretanto surgiu. E que, segundo nos pregam – ha, ha ! -, nos arrancou da “passividade”. Negro era também o galo de Barcelos que, com pouco sentido, para lá estava indisposto ao lado de um outro cor de rosa. “Negro? Cor de rosa?. Talvez queiram regressar a Barcelos”. Tive, nesse exacto momento, uma sensação aproximada: “Só estas cores? Parece faltar alguma coisa”.

A pergunta que costumava fazer, no pátio do colégio de freiras – quase sempre vestidas de cinzento – onde estudava, era a seguinte: existiria mais alguma côr, contando com todas as experiências e misturas possíveis, para lá do alcance do olho humano? Haveria, numa qualquer outra dimensão, um tom que não consiguiriamos aqui, na Terra, vislumbrar? Penso ter lido algo, anos mais tarde, acerca deste assunto. Agora não me lembro. Pouco importa, de qualquer forma. Sobre extra- dimensões: olhando para o meu corpo, imaginando-o ao microscópio, costumava delirar sobre universos paralelos. Imaginando que tudo, como o átomo que nos tece a pele, poderia ser circular: extrapolava para uma existência eterna e global incontáveis, ou infinitas, dimensões que se encaixariam, perfeitamente, umas nas outras. A nossa, em conjunto com outras diferentes ou semelhantes, estaria dentro de uma maior. E esta, lado a lado com outras, estaria dentro de uma ainda maior. Isto: sucessivamente e sem fim. O Big Bang, para mim, não passaria de um começo ao contrário. Ou de uma fuga que vinha de um outro lado qualquer.

Voltando agora, dentro do possível, a colocar os pés no chão: a questão das cores que mencionei anteriormente fez-me lembrar, imediatamente, uma pessoa que teve a ideia de montar um negócio, em Inglaterra, ligado à àrea da “cromoterapia”. Uma prática que, ao que parece, faz uso das cores para a cura de diversas doenças físicas e emocionais. Com vista a um equilíbrio bio- energético. Desenvolveu-se, principalmente, a partir das antigas civilizações do Egipto, da India ou da Grécia. E Johann Wolfgang Von Goethe, cientista alemão do século XVIII, ajudou. Estudando as cores durante cerca de 40 anos. Concluindo, por exemplo, que o verde tem propriedades repousantes, que o azul acalma ou que o vermelho estimula o organismo. A cromoterapia, desacreditada pela comunidade científica, é, de qualquer modo, reconhecida como terapia alternativa ou complementar pela OMS desde o ano de 1976. Foi introduzida no ocidente apenas no século XIX.

Cada um acredita naquilo que quiser. E não duvido que, acreditando, funcione, como tudo, ainda melhor. Devo dizer que quanto mais leio e mais sei sobre diversos assuntos mais o nosso planeta me parece um gigantesco armazém de placebos. Cada um com os seus, ingénuos ou cínicos, zelosos guardiões. De uma última “sabedoria”. Ou de um novo “conhecimento”. Uns mais verdadeiros que outros. Mas todos eles com uma parte de “banha da cobra”. Ganho, por isso e actualmente, alguma simpatia por “alternativas” que não conhecia e que vou “descobrindo” no meu cantinho de ignorância. Como esta. É que eu, pelo menos, não vivo na “sociedade do conhecimento”. Afinal, não raras vezes, qual será a diferença?

O mundo ocidental, naquilo que tem de pós- moderno – este pessimismo -, está velho, gasto e cheio de si mesmo. Cansado: é uma “civilização” pretensiosa que vive, no fundo, dos restos, muitas vezes estragados, da filosofia que ousou, no passado, idealizar. E que tenta, a todo custo, deitar fora e esquecer, ainda por cima, algumas das suas melhores partes. Coitada: resta-lhe, agora e à falta de melhor, a Big Data, o excesso de gadgets e a espionagem, em massa, que ajudaram a criar. Promessas que, em meia dúzia de anos, se tornaram num outro placebo.

Mas, pelo menos, finalmente atingimos a “igualdade”. No mundo de hoje: ela surge-nos, exactamente, em forma de “pastilha” publicitária. Num planeta que, agora, tudo molda em forma de marketing, vendas e “informação”: todos os aprendizes e todos os “feiticeiros” têm o seu “jornal”, a sua start- up, o seu “canal de comunicação”. Nenhuma instituição parece escapar. A política, além de constituir, ao mesmo tempo – feito inédito ! -, laxante e soporífero, metamorfoseou-se em comprimido ineficaz. As recentes ideias de “transição” – que parecem, até agora, não trazer propostas congruentes nem qualquer “manual” com mais de 20 páginas  – são, também elas, placebo. A medicina, por seu lado, gosta de anunciar. Mas, de início, experimenta, essencialmente, com “ratos”. Daqui ao ser humano vai, muitas vezes, um passo “inumano”. Saltamos, assim, de “especialista” em “especialista”. Abundam os artigos académicos – essa “certificação” que já quase nada vale – comprados, falseados ou sem revisão de pares. Cada um com a sua divagação, divergência, misticismo ou interpretação. A psiquiatria, embora mais do que necessária, aumenta, consecutivamente, a lista de nomes de maleitas. E, com ela, o número de zombies mais ou menos amestrados. A psicanálise, com a responsabilidade que lhe conferem os seus mais de 100 anos, dá-nos, talvez, as explicações mais satisfatórias acerca do comportamento humano que podemos encontrar. Nisto: nada a parece ultrapassar. Mas em termos de eficácia terapêutica: o sofá e o divã, núcleos principais de experimentação, ainda vão, em inúmeros casos, lá atrás: em modo “labirinto interpretativo”.

São, apenas, alguns exemplos. Mas, neste momento, não sabemos bem em quê e em quem acreditar. A não ser no império da sedução: as palavras políticas, médicas, jornalísticas e institucionais configuram, actualmente, o nosso planeta- placebo. Mas: “finalmente” atingimos a “igualdade”. A “igualdade” no branco da esterilidade.

Que se esconde, afinal, por trás de todo este nevoeiro, denso, que se avizinha? É que as promessas ficaram lá atrás. Precisamos, por isto, de encontrar novas cores. Não numa outra dimensão. Mas a partir de agora: o ponto onde o futuro recomeça. E, já agora, de um barco consistente. É que podemos, ainda, não conseguir ver nada. Mas é mais do que certo: vem aí mar alto !

 

 


Subserviência Jornalística e “Transparência Total” (Do Medo do Elitismo III)

Uma das características mais vincadas da ideologia comunicacional e civilizacional actualmente em formação é a disseminação invulgarmente rápida, aceite e pouco discriminada de um vago conceito, mas bastante alargado, de “transparência” social. Tem “contaminado” inúmeros sectores. O auto- denominado “jornalista” Julian Assange, por exemplo, defende-o relativamente a todo o tipo de empresas, instituições políticas e económicas. O que constitui flagrante contradição. Porque o evita quando se trata da organização da qual foi fundador: a WikiLeaks. Muitas das corporações e personalidades que tentam promover esta noção são, aliás, mestres da opacidade. Mark Zuckerberg, um dos criadores da standardizadora e monopolista rede social facebook, chegou a afirmar, no ano de 2010, numa entrevista de seis minutos – seis – dada a Michael Arrigton, o fundador norte- americano do conhecido blogue TechCrunch, que a “época da privacidade acabou”: “uma mudança de privacidade para 350 milhões de usuários não é o género de coisas que a maioria das empresas faria. Mas vimo-lo como algo muito importante. Tentamos manter uma mentalidade de principiante e perguntamo-nos o que faríamos se começássemos a empresa neste momento. Decidimos – atenção à determinação que estas seriam as normas sociais”. Ou seja: exactamente o contrário do que tinha dito, dois anos antes, a Marshall Kirkpatrick, o CEO da empresa Little Bird: “privacidade é o vector em roda do qual o facebook opera”. A justificação, segundo foi avançada pelo actual representante da rede social Pinterest, Barry Schnitt, que também foi director do facebook, é a de que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”. Falam e decidem, portanto, como se a noção de responsabilidade pessoal, em todo o processo, lhes fosse alheia. A recolha de dados pessoais privados, entretanto e a nível internacional, tem- se normalizado. Com a nossa desatenção e conivência: segundo uma sondagem, conduzida pelo Pew Research Center em colaboração com o jornal Washington Post, 56 % dos norte- americanos considera ser aceitável o acesso da NSA (Agência Nacional de Segurança) aos registos telefónicos de milhões de cidadãos sem prévio conhecimento. Como forma, claro e como sempre, de “combate ao terrorismo”. E 45 % dos inquiridos admite que o governo deve estender a prática à actividade de todas as pessoas que usam a internet. Os documentos revelados por Chelsea Snowden mostram-nos que os dados são recolhidos através de empresas de telecomunicações como a Verizon. Mas, adicionalmente, através da Microsoft, da Apple, da Google, do Skype ou do facebook. A grande surpresa vem, de qualquer forma, do lado da França. Que, desta vez, evita a habitual posição de resistência face aos Estados Unidos da América. Segundo o título de um artigo, de Maria João Guimarães, disponibilizado no sítio do Público no passado dia 12 de dezembro de 2013: “França aprova espionagem na internet sem necessidade de autorização e em tempo real”. Os serviços de informação e “segurança” franceses terão, assim, acesso à localização e aos conteúdos das comunicações feitas entre os usuários: sem necessidade de autorização judicial. Ainda segundo o artigo: a monitorização alcançará computadores, tablets ou smartphones. Terão acesso aos dados a “polícia, a guarda nacional, agências de informação e de anti- terrorismo, o ministério da defesa, do interior ou o das finanças. O diário francês Le Monde já tinha lançado o alerta: as operações levadas a cabo pelos serviços de informação do país (DGSE) são “…fora da lei e sem qualquer supervisão adequada…;…qualquer pessoa pode ser espiada, em qualquer altura.”

Os grupos de discussão que proliferam através da internet não parecem querer escapar a esta nova, veloz, alarmante e acrítica transmutação de valores morais que parecia inconcebível há poucos anos atrás. Está, portanto, “tudo” em aberto. Relativamente ao jornalismo: não é apenas com o “livro de estilo”, que tem sido progressivamente “moldado” conforme conveniências comerciais momentâneas, ou com o código deontológico que uma parte dos “profissionais” se deixou de preocupar. Em grande parte dos comentários que se podem encontrar nos fóruns de discussão: o antigo “império” – anterior “quarto poder” -, em nome de uma forçada “democracia digital” na qual tudo se parece equivaler, auto- destrói- se. Para não ser “acusado” de “elitismo”: deseja destruir-se. Para que se possa sentir aceite e integrada: é “classe” que já o não deseja ser. Para não afastar leitores ou não “ofender” o “jornalista- cidadão” – como se o jornalista profissional não fosse, ele próprio, um “cidadão” – com o seu mais recente I- Pad ou smartphone na mão: expõe-se, escreve mal e distribui todo o género de tweets “opinativos”. Indo de encontro ao impulso e à conversa que, anteriormente, se ficava, elegantemente, pelo escritório. Pela “mesa de café”. A “internet”, como a economia, que se “auto- regule”. As portas estão, portanto e a partir deste momento, “escancaradas“. Para que tenhamos acesso directo a um making- of. Ao “espectáculo” de uma “dissecação”. Onde prolifera, não raras vezes, o insulto. Não apenas durante a “conversa” que deveria dizer respeito exclusivo ao sector. Mas também em matérias de índole privada e pessoal. Poderiamos afirmar: existe, aqui, qualquer coisa aproximada a um desejo em se ser observado. De actuar e querer ser parte integrante de um qualquer big brother menor. Ou, então, ainda é pura ingenuidade. Inconsciência pessoal derivada da propaganda e do “discurso de guru” que faz já parte dos primórdios da internet. Uma desistência. Ou uma vontade, propositadamente mal informada, em se ser direccionado pelo rebanho digital. Própria de uma estrutura tecno- social que, por ser tão veloz em termos de transformação e, por isso mesmo, tão lenta no que respeita à sua interpretação, nos converte a “todos”, relativamente às perguntas que deveriam interessar, em silênciosos seguidistas nos mesmos padrões morais: “A transparência !”. Estamos já demasiado inseridos. Demasiado incertos. Demasiado preocupados e atafulhados com a ideia de “inovação”: esta, monótona, expressão tão “TEDtalk” – é, de facto, demasiada “conversa” -. Demasiado receptivos a códigos que se atropelam uns aos outros – há já quem lhes chame “poesia” -. Pensando sermos perpetuamente “adaptáveis”. Como se fôssemos software: população metamorfoseada em inúmeras “aplicações” indistintas. A inquirir, quase unicamente, o que já é de fora. Terra estranha: as instituições e os modelos agora denominados – por vezes: “insultados” – como “tradicionais”.

Toda esta abertura e “transparência” é “estética” que tem vindo, também, a proliferar através da denominada “imprensa cor de rosa”. Mas, adicionalmente, em “primos” anteriormente inofensivos: as publicações sobre média e televisão que, há um par de décadas atrás, por exemplo, entrevistavam. Sem a devassa emocional que entretanto se cristalizou. Permitindo a Barry Schnitt, lá está, afirmar, então, que “o mundo está a ficar mais aberto e a evidência está no uso do Twitter, do Myspace, dos comentários postados em sítios de jornais e no advento dos reality shows”.  O “protagonista” – a “figura de capa” – já não espera, desta forma, pela pergunta. Não se defende. Tornou-se cúmplice e voluntário. E o “consumidor” – incansável voyer da “informação” -, armado com um “microscópio” e um “bisturi”, fica à espreita. Com todo o lixo e as “entranhas” a serem- lhe oferecidas de bandeja na mão. O jornalista, que esperava respeito por parte do público, acaba, deste modo, por ser o primeiro a impedi-lo. Exactamente na época em que se tenta, demagogicamente, destruir, a todo o custo, a figura do mediador cultural – o agora desprezado “middle man” – em diversas áreas. Para que se possa atingir a utópica “nivelação”.

Pergunto-me o que andam a fazer todos os profissionais que resolveram, num repente, também aderir a esta ideia de “transparência total”. Ultrapassando, não raras vezes, uma linha vermelha. Perdendo tempo, “tinta”, esforço e espaço –  público e individual – a oferecer questões privadas e matérias pessoais. Que, num mundo ideal, diriam apenas respeito a um qualquer recôndito universo interior. Mas constituem, agora, uma parte das excrecências de um planeta que se tornou e se quer ultra- mediatizado. No qual quase tudo se tenta apresentar como “informação”. Como tendo relevância pública. Ou interesse político.

Entretanto: uma grande parte dos usuários, enquanto “consumidores” não pagantes, costuma utilizar todo um leque variado de argumentação “criativa” e muito conveniente – embora nada original; é retórica copiada atrás de discurso repetido – para que, na sociedade, bastante falida, da “gratuitidade” cultural, possa, sem peso na consciência, não financiar o jornalismo – seja ele de que estilo for; de investigação ou não -, a música ou a literatura. Das quais usufrui permanentemente. Para depois, como se fizesse algum tipo de favor para lá de a si próprio, poder “partilhar”. Favorecendo uma desvantagem competitiva e, também, democrática relativamente a outros sectores e a outras profissões. Porque acredita – e, contra todas as evidências, quer, como é lógico, continuar a acreditar -, ainda, que o valor da publicidade distribuída pela internet tem sido suficiente para sustentar veículos de informação com qualidade. Que nos dignifiquem enquanto sociedade global que procura estabelecer e perpetuar um ideal democrático. Contudo: não o tem sido. E algumas das técnicas publicitárias – como a “native advertising” – ou narrativas – como a recente “experiência” Snow Fall levada a cabo pelo New York Times utilizadas como forma, desesperada, de captar a atenção do leitor só fazem o jornalista cair numa mais ridícula subserviência. Perante a quantidade e o tédio “informativo”: o consumidor exije brincar. A internet, relativamente à promessa que foi inicialmente idealizada, “faliu”. Mas uma parte da comunidade jornalistica, para além de não ter feito quase absolutamente nada, em termos “educativos”, de reportagem ou de artigos de opinião, para tentar convencer o consumidor do contrário – o que nos poderia ter conduzido a uma necessária, atempada e, pelo menos, mais independente troca de ideias e abertura de pensamento -, não conseguirá, desta forma, recuperar tão cedo a credibilidade que tem vindo a perder. O que ela procura, agora, são “novas formas de narrativa”. Favorecendo, assim, ainda mais a indiferenciação cultural promovida e desejada pelos gigantes do digital. Para que, estes sim, possam crescer. Que têm como um dos principais interesses o favorecimento de uma economia de curto- prazo – e de curto-prazo, exactamente, porque não funciona eficazmente – que promova uma espécie de “atenção desconcentrada”: a “lincagem” e o salto constante entre o texto curto “escrito para a internet” – simples e fácil de digerir -, imagens em movimento, diferentes técnicas publicitárias e o actual excesso de “info- gráficos”. Este “irmão”, menos rudimentar mas não menos infantilizador, do powerpoint.

O profissional da comunicação está, assim, mais “acessível”. O jornalismo mais “compreensível”. Para que a “realidade” se possa, mais uma vez, equilibrar. O que não chega a acontecer: o efeito pode, na realidade, ser o oposto. Por trás do discurso, da ilusão e da aparência de uma “igualdade”: o resultado é o enaltecimento do “digito”. Para que possa, desta vez, reinar o informático e a “matemática”. Dá-se, assim, força a uma diluição pretendida. Desvalorizando-se a complexidade textual e interpretativa. Este é “redemoinho” que impede um pensamento verdadeiramente distanciado sobre a profissão. Submersos – e nadando mal -, na Matrix“, como estamos: como separar águas? Não estamos a facilitar a vida ao historiador do futuro. Para encontrar o que verdadeiramente importa: ele precisará das mais pesadas botijas de oxigénio. Para descobrir uma âncora que nos valha. A nós: “…the people”.

Mas que podemos, afinal, contra uma economia que falha? E o “valor de mercado”? Esse avatar em que estamos, para já, transformados. Tudo isto, de qualquer forma, é presente. Chegará o tempo em que o próprio informático terá que começar a olhar por si. Que se defenda – e nos defenda -, nessa altura, relativamente ao que ajudou a construir. Ou então: que esqueça tanto determinismo e chame, mais uma vez, pelo nome das ciências sociais e humanas. Aí sim: para uma verdadeira nivelação.


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